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domingo, 27 de julho de 2014

HIBERNANDO DAS REDES SOCIAIS

"Rede social é um local de descarrego, a oportunidade de se livrar da raiva, do fel, do desprezo, mas também de exibir o ego, de praticar o narcisismo. Também de se praticar aquilo que não se é (escritor, crítico, pensador, jornalista, etc.) de endossar um disfarce, como as crianças, que permita argumentar a não realização do mundo real em favor de um universo virtual que não obedece outra lei senão a do capricho pessoal"   Michael Onfrey - Filósofo e escritor francês.

Só o fato de me sentir na obrigação de explicar minha saída já mostra o espaço absurdo que o facebook tomou em minha vida. Os benefícios para meu trabalho, leituras e casamento, com a minha saída, serão nítidos. O tempo gasto discutindo coisas inúteis, algumas vezes com gente também inútil, poderá ser gasto com uma série de outras coisas mais prazerosas, como a pilha de livros que comprei nos últimos meses e não tenho tido tempo para ler, posso dedicar-me a preparar melhores aulas e dar mais qualidade na atenção que eu dedico a minha esposa e ao meu filho que chega nos próximos dias.

Mais do que qualquer outra coisa, o fato é que cansa ver gente compartilhando postagens agressivas e defendendo com entusiasmo ideias que você esperava ouvir de algum semianalfabeto. O compartilhamento de mentiras apenas na intenção de insuflar sentimentos irracionais sobre política, religião e sociedade.
Um debate no facebook torna-se, na maioria das vezes, um espetáculo de irracionalismo e má-educação, ofensas pessoais, mentiras expostas com ênfase denuncista, agressividade desmedida, desqualificação ao opositor. Debates não são debates, são duelos sangrentos e sem regras. Argumentar honestamente vira perda de tempo porque o público que acompanha os debates nas timelines pouco entende o que está sendo discutido, e justamente por isso tende a apoiar quem demonstre for mais enfático ou demonstrar "autoridade" (que na verdade deve ser entendida por "agressividade" e/ou "grosseria", e esse fenômenos não é exclusivo da net, no cotidiano também é assim).  Por isso chove gente que se acha gênio quando na verdade é apenas um mal-educado de marca maior; mas não falta quem os elogie, pois, como disse, ignorantes confundem agressividade com inteligência. qualquer polemista de rede social sabe que basta fazer da ignorância seu argumento, e repeti-lo agressivamente, para interditar qualquer discussão.
O que estraga o face, pra mim, é justamente que ele é um palco de manipulações e mentiras covardes. Vejo gente que me parecia esclarecida divulgando coisas bizarras e nitidamente mentirosas só porque estão de acordos com suas escolhas ou preconceitos. Gente defendendo pautas trogloditas, e, o mais irritante, o constante assassinato do conhecimento histórico (típico de quem não gosta de estudar, ou que não estuda o que desminta seus preconceitos, e se apega a qualquer teoria maluca para dar uma "inteligentão". Com esses nem gasto meu tempo discutindo).
 

O ponto final disso é que as redes sociais, o facebook em especial, são formas de vigilância social, e para alguém em posição social frágil é um risco bater de frente com essa onda de irracionalismo. Vi casos de demissões e de desgastes profissionais devido a postagens no facebook (em alguns casos inofensiva, em outros não). Já postei antes sobre como acho que as redes sociais podem ser perigosas para quem realmente tenha opinião própria (veja aqui).

Olhando assim eu só tenho visto vantagens em dar uma afastada desse lar de egos anabolizados que são as redes sociais. Cansa ver explodir em sua timeline essas coisas que descrevi no texto. Basta de me submeter a essa vigilância ou de me render ao prato-feito da pieguice reinante. Debater com um testemunha de Jeová numa manhã ressacada de domingo é menos penoso. Eles falam o que pensam com polidez, incomodam pelos horários, é verdade, mas entendem que você não tem que concordar com eles, ainda que achem que você pensa assim por causa do diabo.



domingo, 21 de julho de 2013

SÓ EU E MEUS LIVROS DE HISTÓRIA



Julgar alguém por suas opiniões, pelo seu direcionamento religioso e filosófico, pelo seu estilo e gosto pessoal é um terreno altamente movediço. Geralmente se elogia quem tem posição próxima das nossas e se critica quem se coloca nos lados opostos. Quando se é muito apaixonado por uma idéia e se defende ela enfaticamente, perdendo a autocrítica, muitas vezes é comum que seus partidários considerem os outros como idiotas, atrasados, alienados, fanáticos, imbecis, insensíveis, etc.  Assim é comum que algumas pessoas vivam em guerra constante contra a ideologia antagônica a sua simplesmente partindo para ataque ao adversário.  Isso não é um fenômeno para ignorantes, tem muita gente intelectualizada que vive de xingar seus opositores. Desse modo alguns ateus acham religiosos um bando de idiotas e alguns (muitos) religiosos acham os ateus uns “metidos”, “arrogantes”, “imorais”; direitistas e esquerdistas trocam insultos como “alienado”, “fascista”, “medíocre”; Bocas Pretas e Taboquinhas acusam-se mutuamente de fanáticos e etc.

Nessa troca de acusações muita verdade é dita por ambos os lados, mas o saldo final é de uma desaforada troca de bravatas. Me espanta que muita gente que considero inteligente caindo nesse expediente que em outras épocas também já caí. 

Meu saco pra discutir idéias começou a encher depois de uma discussão no facebook sobre a interferência religiosa na política e nas leis, onde um indivíduo entrecortava sua argumentação (bem coerente por sinal) com insultos gratuitos dirigidos a mim e meus pares (os ateus) como “intolerante”, “totalitário”, “burro”, “estúpido” entre outros. Pra esses tipos de pessoas, que se apegam demais as próprias opiniões a ponto de perder a auto-crítica e o bom senso, não basta argumentar é preciso atacar, humilhar, devassar o adversário. Enfim, o irracionalismo reina soberano.
Mas onde quero chegar é que, apesar de minha crítica ao linguajar agressivo, existe um indivíduo que pode, ao meu ver, ser considerado realmente um idiota no sentido de alguém que renunciou a sua razão na hora de formar suas concepções.  É a figura que defende idéias que o prejudicam, ou prejudicariam caso fossem aplicadas, como se fossem a salvação redentora para combater aquilo que ele considera como mal. Não bastando defender a própria ruína, é comum que surjam “polemistas” que defendam idéias que prejudicariam um grande número de pessoas (das quais ele próprio não estaria excluído).

Assim são os “jovens-conservadores”, os “homossexuais protestantes”, as “feministas católicas”, os “socialistas que votam em oligarquias”, “os democratas militaristas”, os “cientistas criacionistas”, as “mulheres machistas” etc.

Vivemos uma época em que as pessoas lutam apenas por aceitação social, ainda que isso signifique ir contra a sua mais essencial individualidade. A moda não é questionar, a moda agora é aderir, nem que pra isso tenha que se fazer um exercício de argumentação que, na ânsia de harmonizar a necessidade de aceitação pela sociedade com o seu verdadeiro "eu", termina por chegar ao ridículo.

Assim vemos uma juventude que desfruta de uma liberdade jamais imaginada antes simpatizar com ideologias políticas conservadoras e reacionárias (que voltaram a moda com tudo nos últimos anos). Vemos homossexuais tentando aliar sua luta por direitos com uma religiosidade baseada num livro que ordena seu apedrejamento  e os chama de “torpes” (já ví uma parada gay onde se cantou “Faz um milagre em mim” quase como se fizessem para seus algozes um pedido de permissão, ou de desculpas, para existir). Vemos mulheres ditas Católicas defendendo o direito ao aborto (o tal “Católicas pelo direito de decidir”). Temos biólogos, paleontólogos e historiadores que dizem não acreditar na Evolução (mas usam suas graduações e o respeito que elas transmitem para defender idéias sem a menor fundamentação científica). Temos pseudo-intelectuais que dizem que o fascismo era de esquerda e que a ditadura militar salvou o Brasil do comunismo e que naquela época não havia corrupção (precisa comentar?!)

Dois casos cotidianos me chamaram a atenção nos últimos dias. No primeiro uma senhora conhecida minha, costureira, fazia um discurso enquanto conversava com uma amiga no supermercado:

“sabe, eu detesto esse negócio de conselho tutelar. Agora não pode nem dar uma ‘lapadas’ nos meninos mais. Não pode botar eles pra trabalhar, pra ajudar com um dinheirinho nas contas da casa. Fica em casa vagabundando, só vai pra escola e depois não faz mais nada. Depois vira tudo traficante e sai matando por aí”

Depois de ouvir isso comecei a pensar que se a vontade dela fosse aplicada e as crianças pudessem trabalhar independente da idade talvez ela fosse a primeira a perder o emprego. Qual patrão, caso o trabalho infantil fosse legalizado, hesitaria em empregar uma criança, que não tem noção exata do valor do dinheiro e assim poderia trabalhar mais barato, para um trabalho repetitivo e de fácil aprendizagem como costurar e demitir um adulto (talvez ela própria) com uma família para sustentar  só pra aumentar a margem de lucro?
Me arrisco a dizer que a senhora que falou isso não teve uma boa educação escolar nas áreas de sociologia, história, filosofia, etc.,  se teve então resolveu desprezar isso completamente na hora de formar sua opinião. Uma boa aula sobre Revolução Industrial poderia servir, ou não...

Outro caso foi quando vi uma amiga de longa data divulgar no facebook o vídeo “Como ser submissa a uma pessoa omissa” (assista abaixo). Essa amiga é tem formação superior, fala três idiomas, tem leitura e capacidades intelectuais suficientes para saber valorizar a posição que a mulher conquistou na sociedade. Mas ela prefere repercutir um vídeo onde Ana Paula Valadão e outras líderes religiosas femininas ensinam que bom mesmo pra mulher e ser dependente de um homem, que o importante é saber pregar um botão  na camisa do marido, e que se a mulher preferir adiar o casamento para construir uma vida profissional sólida vai acabar casando com um patife aproveitador qualquer.

Depois do minuto 2:30 começa o "espetáculo"
 
Fico pensando se essa minha amiga dá algum valor ao que passaram as primeiras mulheres operárias que iniciaram o processo de emancipação feminina; se compreende a importância da luta das sufragistas dos séculos XIX e XX que lutaram para que ela pudesse votar, se entende o que realmente representou a revolução sexual dos anos 60-70 (que foi algo muito além do campo da sexualidade). Acho que ela deve fazer alguma idéia disso e deve perceber que vive em um momento positivo único para as mulheres na história, mas prefere defender e propagar que o bom mesmo pra mulher é ser escrava do lar, pouco escolarizada e pregadora de botões. Uma boa aula de História talvez fosse útil... ou não!

Diante dessa realidade onde as pessoas vivem numa corda bamba entre serem verdadeiras com si próprias ou terem plena aceitação social fico imaginando se vale a pena ser professor. Numa realidade onde as pessoas tentam harmonizar  o impossível e onde defendem suas idéias na base do ataque ao interlocutor. Onde quase ninguém toma uma posição clara sobre as coisas, e aqueles que tomam o fazem desprezando o conhecimento, a lógica e o bom senso.

Talvez a chave para entender essa época em que vivemos esteja em perceber que ela se pauta num jogo que alia o imediatismo e a ausência de reflexão.  Essa combinação leva populações inteiras a defender idéias que as prejudicam, que historicamente já se mostraram grandes furadas, mas as pessoas continuam a defender e partem ao ataque a quem não se rende a esse prato-feito.

Sinto-me melancólico com isso. Talvez só se venha a conseguir uma tradução mais coerente para os dias atuais daqui a uns 40,50 anos... quem sabe?

Enquanto isso eu fico só com meus livros de História

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Uns por muito mais do que 20 centavos. Outros por míseros 100 Reais


Cheguei agora em casa com as mãos trêmulas de raiva, de indignação com a estupidez com a qual as vezes nos deparamos.

Agora a pouco na lotérica do Moda Center Santa Cruz um indivíduo destratou a funcionária do estabelecimento apenas porque ela cumpriu com sua função.
O indivíduo, de acordo com suas falas, havia mandado seu filho pagar duas duplicatas na lotérica e a funcionária percebeu que havia uma nota de 100 reais falsa entre as que foram entregues para o pagamento. Prontamente cumpriu sua função e reteve a nota (o que não significa nada demais, ninguém aparentemente foi acusado de nada).

Eu chego na lotérica e vejo este indivíduo insinuando que a moça havia "pegado" seu dinheiro (numa clara alusão a roubo) e falando em tons altos e grosseiros entre muitos palavrões, exigindo um laudo sobre a nota falsa (laudo que já estava sendo providenciado e ele já sabia disso, falava apenas para constranger a moça da lotérica). Quando a segurança do Moda Center chegou para acalmar os ânimos ele continuou o seu espetáculo de estupidez, nitidamente incomodado com a presença dos seguranças.

No fim soltou a seguinte pérola:

"Você tá achando que vai me enrolar é? Não sou idiota, não! Você não é nada, eu sou empresário, você é funcionária, você não é maior do que eu, não! EU SOU EMPRESÁRIO, VOCÉ É FUNCIONÁRIA, VOCÊ NÃO TEM NADA. Meu problema não é os 100 reais não, vou trazer 100 reais aqui e rasgar na sua cara!"

Fazia tempos que não via uma pessoa ser tão estúpida, arrogante e mesquinha. O que esse cara queria? Que a funcionária recebesse uma nota falsa e fosse demitida só para não atrasar o compromisso dele?

Depois que o homem saiu, todos na fila ficaram revoltados e foram dar apoio a funcionária, que manteve calma em todos os momentos da confusão. A ação tranquila dos seguranças do Moda Center impediu que a animosidade chegasse ao ponto de alguém da fila tomar as dores da funcionária (acreditem, isso tava perto de ocorrer). Falei com um dos funcionários que já foi meu aluno e me dispus a servir como testemunha caso a funcionária quisesse prestar queixa na delegacia.

Nem sei quem é esse palhaço, mas não só nunca comprarei nada em seu comércio, seja qual for, como também saberei contar o que ele fez hoje quando identificar seu nome e qual sua empresa. Palhaços assim não merecem consideração, quem maltrata os outros humilhando-os apenas por ter algum dinheiro é do tipo de pessoa que não merece nem receber um bom dia. Aliás, esse tipo de gente tem que ser sabotada por toda a população de bem dessa cidade. Não dá pra aceitar uma pessoa seja maltratada apenas porque ao realizar sua função feriu os interesses mesquinhos de alguém.

Fico imaginando que tipo de humilhação não devem sofrer seus funcionários.

Jamais comprarei nada ou mesmo cumprimentarei quem faz tal coisa. Não existe quem seja boa pessoa e ao mesmo tempo constranja um trabalhador. Mesmo sem saber ainda quem é exatamente esse sujeito, ele agora é meu inimigo declarado.

E meu coração queima de revolta...