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domingo, 21 de dezembro de 2014

Livro - "O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA" de Gabriel Garcia Márquez




“porque as feridas mal cicatrizadas voltavam a sangrar como se fosse de ontem” pag.43
“Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam a homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual anseiam para enfrentar a vida” pag. 86

Não seria exatamente esse um livro que eu indicaria para os que ainda não conhecem a obra de Gabriel Garcia Márquez, indicaria “Memórias de Minhas Putas Tristes” ou logo “Cem Anos de Solidão” (o melhor livro que já li), mas ler “O Amor nos Tempos do Cólera” é se deparar com uma obra densa, uma viagem profunda nas entranhas da alma humana. Vi certa vez em uma entrevista que Gabo preferia esse livro do que sua obra prima vencedora do Nobel, dizia que nesse livro estavam descritos nós humanos como realmente somos.

O livro conta a história de Florentino Ariza que após alimentar uma febril paixão adolescente correspondida por Fermina Daza tem seus sonhos destruídos ao ser rejeitado abruptamente por ela quanto tinha um pouco mais de 20 anos. O casamento de Fermina com o doutor Juvenal Urbino não sepulta o amor obstinado de Florentino, que suporta 5 décadas de espera até que possa, com a viuvez de Fermina, voltar a lutar por seu objetivo. Em mais de 50 anos esperando Florentino Ariza faz de sua vida uma caminhada sem trégua até o dia em que poucas horas após o sepultamento do Dr. Juvenal Urbino possa declarar ainda vivo o sentimento de sua juventude por Femina Daza.

“Uma noite voltou do passeio diário aturdida pela revelação de não só se podia ser feliz sem amor como também contra o amor” pag 114

Gabo escreve o livro na postura de um narrador onisciente que conta  em detalhes os percalços tanto da solidão de Florentino Ariza (uma solidão entrecortada por muitas mulheres e uma vida libidinosa) quanto do casamento de Fermina e Juvenal (e a gradual descoberta de Fermina que a vida conjugal se resume a pastorear rancores). A escrita de Gabo beira a perfeição literária; até os vários personagens secundários da trama tem uma história de vida, um perfil psicológico de modo que nenhuma atitude deles parece fora de propósito no enredo. A descrição destes personagens é tão bem feita que é possível imaginar que Gabo fosse capaz de escrever um livro de 500 páginas sobre cada um deles. A narrativa do livro conta com poucos diálogos entre os personagens;  a grande viagem é pela mente e os sentimentos deles. A habilidade de Garcia Marquez com as palavras rende descrições envolventes e aforismos matadores ao final de cada parágrafo, tais como: “a sabedoria nos chega quando já não serve pra nada”  

“Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado” pag. 136

Para mim o mais marcante do livro é que a velhice não é descrita por Gabo como uma fase de reconciliação com a vida, de conformismo; é antes uma fase de conflitos íntimos profundos não apenas pelo diálogo que a muita idade nos força a travar com o nosso irremediável fim, ou mesmo com a percepção que a beleza e a vitalidade vão embora, mas sim porque na velhice o passado nos assombra como um fantasma perturbador. É esse fantasma de um amor de meio século que faz dois septuagenários desnudarem-se e se tocarem pela primeira vez. 

É um livro grandioso que talvez não tenha seu merecido destaque por ser ofuscado por “Cem Anos de Solidão” e que o detalhismo das descrições do ambiente e da psicologia dos personagens afastaria leitores inexperientes e apressados; mas no fim das contas promove uma viagem profunda e dilacerante na alma humana e nas suas relações contraditórias com amor. Somente Gabo seria capaz de escrever um livro de 430 páginas tratando sobre o amor e suas várias faces e formas sem resvalar em nenhum traço de pieguice.

"Com ela aprendeu Florentino Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por varias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva: 'O coração tem mais quartos que uma pensão de putas' " pag. 337 

Gabo deveria ter sido proibido de morrer... 

Para adiquirir: Editora Record 
Preço R$55,00

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Balanço de férias e de ausência do blog

Nestas férias dei uma folga ao blog. Atualizar as leituras, cuidar da Coordenadoria de Juventude de Santa Cruz do Capibaribe (projetos andando), cuidar de uma esposa gestante de nosso primeiro filho. Dai as coisas neste blog ficaram meio paradas. 
Neste meio tempo inscrevi o blog para um programa de parceria com a editora Companhia das Letras. Se eles virem o marasmo que anda esse blog vão me mandar um e-mail pedido para que nos os amole com pedidos inúteis. Mas quando se faz um blog sem ganhar nenhum tostão é comum que ele fique de molho por uns tempos...

As leituras dessas férias foram bem legais e vão render boas postagens. o blog será mais centrado na resenha de livros. Aqui vão alguns livros que que li esses poucos dias de férias:

"Direita x esquerda" de Noberto Bobbio - Um livro simples e de fácil entendimento sobre essa clássica distinção política, onde Bobbio defende que essa distinção ainda é relevante. É um livro que ganhou a critica feroz de muitos pensadores, mas eu achei um bom livro.

"O Assassinato e Outros Contos" de Anton Tchekhov - Livro muito bom que encontrei na biblioteca pública de Santa Cruz do Capibaribe. O conto que dá título ao livro, onde a disputa entre dois irmãos para saber qual o mais religioso termina em um assassinato, foi um dos contos mais interessantes que já li. Os amigos literatos que conheço disseram que existem seleções de contos de Tchekhov bem melhores do que essas. Fiquei ansioso para conhecer

"Diálogos Impossíveis" de Luis Fernando Veríssimo - Seleção de crônicas geniais de LFV publicadas em jornais entre 2009 a 2012. Veríssimo, a despeito das críticas de que se tornou previsível e repetitivo, escreve crônicas deliciosas tratando sobre os desencontros e as pequenas tragédias da busca de sentido na vida; dos mal-entendidos que cercam a condição humana. Tudo isso com uma ironia fina e uma escrita que é simples sem ser simplória. Defendo que Veríssimo seja leitura obrigatória nas escolas.

"A Raça é Negra" e "A Emoção é Branca" - Inácio França e Samarone Lima - Dois primeiros livros da "Trilogia das Cores" com a seleção das melhores crônicas do blogdosantinha. Li os dois livros num dia só. Um passeio pela alma da torcida tricolor através de crônicas fenomenais que me ajudaram a suportar o suplício de torcer para o Santa Cruz FC durante os anos de vergonha e humilhações. Terminei a leitura ainda mais tricolor-coral-santacruzense-do-Arruda. O terceiro livro da série, que aposto que será o melhor, saí em 16 de março. (pena que nenhum dos meus textos figurou no livro).


Ainda temos para terminar  "Clamor" de Samarone Lima, "A invenção do Nordeste e outras artes" (uma pérola que preciso reler) de Durval Muniz de Albuquerque Júnior e se tiver coragem termino a leitura de "A Revolta de Atlas" de Ayn Rand, um romance-filosófico longo e intoleravelmente chato.

Talvez dê, talvez não, mas o projeto é ter todos esses livros devidamente resenhados aqui no blog em novas postagens publicadas a cada sábado do ano. Ironicamente em 2014, ano de eleição, estou sem saco para escrever sobre política.

domingo, 13 de outubro de 2013

"GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA FILOSOFIA" - Pondé tão mediocre quando a mediocridade que denuncia




Relutei em comprar o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” de Luis Felipe Pondé pois vejo a olhos nus o estrago intelectual que o trabalho co-irmão desse (as três edições do “Guia Politicamente Incorreto da História” de Leandro Narloch) tem feito. 


Esses “guias” servem ao interesse imediatista do mundo atual. Vivemos uma época em que quem quer emagrecer compra um remédio milagroso no lugar de fazer dieta e malhar, e quem quer ter opinião sobre as coisas prefere se apegar a qualquer informação rápida e redentora, da qual já se alimenta simpatia de antemão, do que buscar conhecimento profundo.


Tais publicações servem para dar argumentos ao pensamento reacionário atual, a esses indivíduos de pensamento enviesado que só estudam aquilo que lhes agrade (isso quando estudam, claro) e que ficam dando piti quando precisam estudar sobre algum tema com o qual arbitrariamente não simpatizam (vide o caso do “garotodefensor de valores democráticos” que se recusou a estudar Marx na faculdade e defendeu “democraticamente” o banimento do marxismo).  Tenta-se buscar na história legitimação para os ideais mais reacionários, para as maiores desonestidades intelectuais; lógico que para isso é preciso se apegar a fontes obscuras, fazer uma leitura descontextualizada dos fatos e, claro, disposição desavergonhada em mentir. Assim encontra-se nessas publicações afirmações que o nazismo era de “esquerda” porque o partido se chamava “Nacional-Socialista Alemão”, só para ficar em um exemplo da desonestidade argumentativa desses indivíduos.


Movido por essa desconfiança fiquei temeroso em comprar o livro de Luis Felipe Pondé, mas a curiosidade foi maior e comprei-o. Minhas expectativas milagrosamente...     se confirmaram! O livro é um tratado de reacionarismo, de defesa de ideais antidemocráticos, preconceito social, machismo e desleixo e desrespeito contra tudo aquilo que se mostra contrário ao ponto de vista do autor. Claro que Pondé também cometerá acertos no livro, mas eles são em ampla minoria.


Pondé tem estilo, escreve com clareza, desenvoltura e sem rebuscamentos, mas logo nas primeiras páginas já mostra um traço comum nos autores desses “guias”: o ataque a quem pensa diferente, a desqualificação a quem discorda dele. Assim chovem adjetivos como “preguiçoso”, “medíocre”, “covarde” contra seus antagonistas.

Como sabe que em tempos de governo de esquerda falar que é de direita dá muito audiência, Pondé radicaliza e logo nas primeiras páginas sai com tiradas ácidas  contra a democracia e em favor de um pensamento aristocrático. Para Pondé o homo vulgaris, a massa inculta, não sabe sobre o que se debate de fato em uma democracia (isso é verdade) e por isso acaba por dobrar as decisões políticas à sua vontade ignorante. Apesar de haver alguma substância de verdade nas falas de Pondé sobre isso, percebe-se na verdade um grande recalque por parte dele, talvez com o momento político e social vivido pelo Brasil, onde a “pobretada inculta” vive com mais dignidade e freqüenta alguns espaços que antes lhes eram inacessíveis. A mentalidade reacinha de Pondé aparece logo aí; pra ele pobre tem mais é que chafurdar na pobreza, andar de cabeça baixa, e pronto.


“Costumo dizer que aeroportos e os aviões, além de todos os lugares do mundo, viraram um grande churrasco na lage” (pág 17)


 “Quando se acentua a igualdade na democracia, amplia-se a mediocridade” (pág 50)


O grande inimigo listado por Pondé no livro é o pensamento do “Politicamente Correto”, que segundo ele é uma praga que vive a castrar a liberdade de pensamente e que é desonesto intelectualmente. A maior expressão do politicamente correto, segundo Pondé, é a “Teoria de gênero” e sua idéia de que a sexualidade é algo construído socialmente. A crítica de dele ao feminismo é ácida e mal educada, apelando para um processo de desqualificação das feministas enquanto pessoas. Isso demonstra o quanto o “filosofo” foi cirúrgico na escolha das palavras e qual o público que busca atingir. Os reacinhas de plantão são figuras que se sentem superiores e adoram xingar seus adversários ideológicos, em muito por falta de argumentos (é praticamente impossível um debate decente e civilizado com um reaça moderno). Por isso Pondé carrega na desqualificação covarde contra as feministas, ainda que certas críticas suas ao feminismo estejam corretas, se não xingar o reaça politicamente incorreto não compra o livro (Lobão, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo são provas disso):


“feministas, normalmente, são azedas porque são feias” (pág 80)


Mas a parte que considerei mais ofensiva foram as reflexões sobre educação. Para Pondé a maioria esmagadora dos professores escolhem essa carreira porque são medíocres. Mas concordo que algumas coisas que ele fala sobre a classe de professores são reais para uma boa parte deles: que poucos tem apreço pela leitura e o estudo, que poucos valorizam a erudição e a polidez, que consomem lixo cultural desavergonhadamente (numa clara contradição com a sua posição de alguém que deveria querer elevar o nível cultural e intelectual do aluno), etc.


O problema dessa parte é que Pondé coloca quase todos no mesmo saco, mas coloca-se como exceção, claro, afinal ele é um “iluminado aristocrata-intelectual”. Vergonhosamente desqualifica as ciências humanas dizendo que nada de bom surge delas. É o lado mais asqueroso do livro porque o ódio as ciências humanas é a face mais estúpida do reacionarismo. Os conservadores-reacionários detestam as ciências humanas pois elas desafiam o senso comum, contestam a estabilidade social aparente, e Pondé, um filósofo, as desqualifica abertamente. Esse sentimento de ódio aos intelectuais me lembra muito o sentimento do nazismo contra os intelectuais, especialmente das ciências humanas, expresso na frase de Gobbles: " QUANDO EU OUÇO FALAR EM CULTURA EU PUXO O REVÓLVER".


“Na maioria dos casos, professores de universidade (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas” (pág 97)

“As ciências duras ainda podem entregar remédios e ‘robots’, as ciências humanas não tem nada para entregar” (pág 101)


O desprezo a intelectualidade é a marca do estúpido politicamente incorreto, além da grande admissão de burrice que é apelar para um ataque tão vil. Esse deboche do Pondé quanto a seus pares mostra outra característica do novo imbecil reacinha: ele se acha especial. Pensa que não há necessidade de aprender na escola, de ouvir o contraditório, de estudar. Sentem-se especiais a ponto das conjecturas que eles elaboram dentro da sua ignorância serem maiores do que conhecimento científico amplo, assim só valem pra eles filósofos, sociólogos e historiadores que estejam de acordo com seu ponto de vista desenvolvido arbitrariamente.

Mas admito que fiquei feliz ao ler esse trecho quando lembrei dos meus amigos reacinhas que infestam cursos de Filosofia, Letras e História. Fico a pensar o que eles acham de um de seus ídolos o chamarem de medíocres. (Fina ironia, hehehehe)


Pondé caminha pela mesma estrada de gente como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, Lobão, que vestem de estilo as ideias mais estúpidas (restrição da participação popular na democracia, desprezo pela educação escolar, deboche contra professores e intelectuais das ciências humanas, machismo).

Sinto-me mal em ter dado 40 reais para essa turma do politicamente incorreto, em financiar essa gente que se arroga de professor, filósofo, historiador e jornalista para difundir preconceito e apologia a ignorância e estupidez. Se algum reaça quiser me comprar o livro pelos mesmo 40 reais eu vendo na hora, mas aviso que vou usar a grana para comprar algum livro que realmente preste.



Um texto que desnuda o estilo de argumentação de Pondé e seus congêneres

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Manifesto contraditório e grandioso de Lobão


Muito boa a leitura de "Manifesto do nada na Terra do Nunca" de Lobão, ele consegue ir da genialidade para a insensatez numa única página e é nisso que está a grande virtude do livro. Os acertos e erros do livro são grandiloquentes e interessantíssimos

Faz críticas contundentes e coerentes ao discurso de esquerda no Brasil, denuncia as contradições do governo petista e explicita qual o lado negativo do discurso petista para o imaginário do povo brasileiro. Lobão é primoroso em definir a "patrulha ideológica" promovida por professores, secundários ou universitários, e intelectuais de esquerda sobre expressões artísticas e políticas que não lhes sejam amigáveis.
Mostra também o vício da esquerda em culpar sempre "os outros" por seus erros e contradições e como o pensamento enviesado faz com que intelectuais e militantes tentem justificar, a partir da ideologia, os desmandos e casos de corrupção do governo.

Por outro lado Lobão cai no discurso imbecil e alarmista de que o Brasil está a beira de um golpe militar de esquerda, que o PT trama secretamente com Cuba um projeto continental de comunismo (engraçado como Lobão e os demais trogloditas metidos a intelectuais de direita atribuem poder e força a um país pequeno e pobre e que, segundo eles, é um exemplo do atraso). Afirma, ainda que pelas entrelinhas, que a ditadura militar no Brasil foi algo positivo e é desrespeitoso com a memória das vítimas de tortura. Engraçado também que ele não lembre que membros da oposição ao atual governo também se embrenharam na luta contra a ditadura militar.
 Ao falar sobre a ditadura Lobão comete erros de interpretação e anacronismos que visam claramente culpar a esquerda pelo golpe, num tradicional exercício de desonestidade intelectual-histórica muito comum aos "polemistas conservadores de facebook" (Um exemplo é quando diz que os grupos guerrilheiros estavam na ativa desde o governo João Goulart, quando na verdade surgiram efetivamente após a implantação ditadura).
O equívocos de Lobão em algumas partes do seu texto pode ser explicado pelas leituras que embasaram o livro, como descrita nas referencias bibliográficas: Chovem livros de idiotas reacionários como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e publicações do Instituto Mises (a maior palhaçada pseudo-intelectual destes tempos de internet).

Mas apesar de tudo as temáticas sobre política no livro são muito agradáveis de ler. Lobão tem estilo e consegue arrancar boas risadas ao intercalar suas ideias com casos vivenciados por ele. O relato de quando, sem querer, chamou Eduardo Suplicy "babaca" num showmício em 1992 é simplesmente hilário. As narrativas de como caiu no colo do PCB nas eleições de 1989 e como pediu votos pra Lula naquele 2º turno também são ótimas.

No campo da crítica cultural Lobão consegue ser exato e excelente na maioria de suas palavras, o capítulo em que analisa o que é o fenômeno do "sertanejo universitário" é outro dos pontos altos do livro. Ao criticar a MPB (cujo popular só tem o nome) e a estética pouco ousada do rock nacional, Lobão é também excelente.

No fim das contas é praticamente impossível lançar um "não gostei" no livro do Lobão. As contradições e as opiniões equivocadas (ao meu ver, lógico) só dão mais graça a leitura do livro e fazem pensar realmente. 
Outro ponto perceptível em "Manifesto do nada..." é que ele está claramente um degrau acima em comparação com livros escritos com outros pensadores antagonistas ao governo do PT; o livro não tem, apesar de alguns recorrentes espasmos de radicalismo, a mesma linguagem raivosa de panacas como Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo, por exemplo (os títulos de alguns livros dos dois como: "O nome da minha anta é Lula" ou "No país dos Petralhas" já servem de indicativos que são pródigos em ódio e ralos em conteúdo).

Lobão é um polemista de respeito, merece ser lido e discutido e fez um livro denso que não é muito indicado para leitores inexperientes.

Vale a leitura.



Post dedicado a Janielson Santos e Bill Coutinho, pelo interesse demonstrado no blog, e a Pablo Ricardo que testemunhou minha epopeia em comprar e ler esse livro 

Atualização em 22 de Abril de 2015

Me arrependo seriamente de ter escrito que o Lobão é um polemista de respeito. Se mostrou um surtado, presunçoso e delirante. O livro continua tendo suas virtudes mas me parece que serviu apenas de trampolim para que Lobão tivesse plateia para dizer suas insanidades.
Alias a bela arregada que o Lobão deu pro Mano Brown mostra que ele é só um garotinho de 50 e poucos anos que na hora da irritação fala sem pensar e depois não aguenta a rebordosa.

sábado, 30 de março de 2013

Livros- "Dossiê Moscou" (Geneton Moraes Neto) - Crônicas sobre um "sepultamento" e um "parto"




Acabei de ler o livro "Dossiê Moscou" do jornalista Geneton Moraes Neto. Um livro espetacular sobre a cobertura das primeiras eleições presidenciais livres na Rússia após o colapso do socialismo soviético.

Os relatos e entrevistas são fantásticos. Ex-funcionários do regime soviético contam casos dos bastidores do regime, ex-agentes secretos dão depoimentos que são eloqüentes tradutores da complexa mentalidade da guerra-fria. Cidadãos comuns dão um pequeno retrato sobre como era o dia-a-dia diante do sepultamento de um regime político e o parto doloroso de um novo.

Um dos momentos mais marcantes é a entrevista com um jornalista do jornal PRAVDA (oficial do regime), onde se mostra a realidade orwelliana do jornalismo num regime de partido único.

O ponto alto do livro é a entrevista com o historiador Eric Hobsbawm onde ele analisa as causas do fracasso da utopia socialista. Nas falas de Eric percebe-se uma enorme preocupação sobre quais ideologias substituiriam o espaço deixado pela utopia socialista:

"Há um vasto espaço para o sonho. Mas também há o perigo de que esse espaço seja preenchido por um tipo errado de sonho: por sonhos nacionalistas, por sonhos racistas, por sonhos de ressurreição de religiões fundamentalistas" - Eric Hobsbawm
(NOTA: essa foi a frase mais certeira que li nos últimos tempos)

As eleições russas de 1996 trazem reflexões importantes sobre como o ritmo dos acontecimentos históricos é sentido de maneiras diferentes dependendo do contexto em que as popuações estão inseridas:  enquanto o mundo bradava o fim do socialismo o candidato do Partido Comunista Russo quase venceu Yeltsin nas eleições;  enquanto o mundo tratava Gorbachev como um herói que trouxe liberdade a Rússia e extinguiu a chance de uma guerra nuclear, ele era um retumbante fracasso eleitoral dentro de seu próprio país (foi o candidato presidencial com menor votação em 1996).

É um livro empolgante para quem se interessa pelas variadas dimensões de grandes acontecimentos históricos. Com boas entrevistas e crônicas escritas no estilo "jornalismo literário". Li suas 235 páginas em uma única tarde.

Vale a leitura.

domingo, 10 de março de 2013

Livros- "Eu Não Sou Cachorro Não" - Uma visão profunda sobre a música "brega" dos anos 60-70


O último livro que lí. Um trabalho fantástico do historiador Paulo Cesar de Araújo sobre como a música tradicionalmente tida como "cafona" foi muito mais politizada e tinha mas consciência social do que tradicionalmente se pensa. Também discute se a MPB glamourizada também não tinha seus laços adesistas com o regime militar.

"Eu não sou cachorro não" passa a realidade brasileira durante o auge do regime militar(1964-1978) através da produção musical "cafona" da época, mostra que a direita censurou, perseguiu e incomodou ao extremo artistas populares que hoje muitos chamam de "alienados". Cantores tidos covardemente como "bregas" eram perseguidos pelos militares e por setores conservadores da sociedade: Waldick Soriano e Odair José foram pródigos em causar escâdalo com canções que levantaram a ira da Igreja Católica, por exemplo.

Os irmãos Dom & Ravel, que foram achincalhados pela a esquerda como se fossem os artistas que eram a cara do regime militar, são retratados no livro como artistas politizados e críticos, mas que pelo patriotismo que tinham e pelo fato da ditadura militar ter se apropriado de suas canções foram retratados na história como se fossem covardes entusiastas do regime militar.

O livro também mostra o processo e ascenção da Rede Globo de Televisão e sua relação próxima com o regime militar e com a marginalização e o silenciamento dos cantores populares.

Em certa parte do livro discute-se uma visão aterrorizante (mas verdadeira) do golpe de 1964: de que o regime militar não foi exatamente a ação de uma minoria truculenta de militares e industriais da elite econômica sobre o povo, mas que o regime militar teve apoio de amplos setores sociais de todas as classes, inclusive de artistas e intelectuais tidos como "de vanguarda".

Enfim, um livro imperdível.




Outra hora eu consolido esse post

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Livro- "FEBEAPÁ" 1,2 e 3 - ( Stanislaw Ponte Preta [Sérgio Porto] )

 
 "É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da "redentora", cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem "otoridades", sentindo a oportunidade de aparecer, já que a "redentora", entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela de dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo — alguns apontavam dois dedos duros, para ambas as coisas), iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar".

Sérgio Porto, sob o pseudônimo Stanislaw Ponte-Preta,  escreve o FEBEAPÁ(Festival de Besteiras que Assolam o País) em sua primeira edição em 1966, com dois anos de instaurada a “redentora” (como o autor se referia ao golpe militar de 64, que era chamada cinicamente de “revolução” pelo militares). No livro está presente uma crítica fina da situação política e social do Brasil nos anos que se seguiam ao golpe militar.
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O livro é uma coletânea das bobagens pronunciadas e efetuadas por figurões da alta sociedade e por defensores e funcionários do regime militar. Sérgio Porto usa de uma ironia ímpar para retratar o absurdo social que pululava as mentes dos integrantes da “redentora”. Daí o livro nas suas três  edições (1966, 1967, 1968) é iniciado com  um seleção de notícias mais bizarras, que realmente aconteceram no período. É uma boa amostra da pobreza intelectual, bem como da canalhice pouco disfarçada, daqueles que defendiam o regime militar na época. E seguem-se um monte relatos absurdos como o do delegado que ordenou a prisão do escritor da peça de teatro “Édipo Rei” por considerar a temática da peça (uma relação incestuosa) um atentado a moral e os bons costumes. Detalhe: Sófocles, o escritor da peça, viveu na Grécia Antiga no século 5 antes de Cristo.   Ou do caso da professora que ao ver que o filho tinha sido reprovado em matemática denunciou um professor ao DOPS (departamento de ordem política e social) como um perigoso agente comunista. Ou ainda o caso do juiz que para impedir a proliferação do pensamento socialista no Brasil proibiu a importação, bem como a compra e venda de Vodka; ou o caso do general da Aeronáutica de Minas Gerais que impediu o uso de mini-saias durante o carnaval para “não ofender as forças armadas”. Esses são apenas um dos casos narrados do livro, além destes há uma infinidade de outros e cada um mais hilário do que o outro.
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Além disso as três edições do livro trazem crônicas impagáveis, vindas da genialidade de Sérgio Porto e que segundo ele seriam adaptações de casos que realmente aconteceram.  As crônicas são de um humor fino, com uma escrita pra lá de malandra (cheia de gírias cariocas, comparações divertidas e hilárias e diálogos muito espertos) fica impossível não rir e reler muitas vezes. O estilo de Sérgio Porto é inconfundível. Destacam-se “Zezinho e Coronel”, “O padre e o busto”,  “O analfabeto e a rofessora”, “O major da cachaça”, “O grande compositor” e “Zona de solução estudantil” (essa uma das melhores, onde um senhor católico conservador deixa a entender num artigo de jornal que solução para conter as manifestações juvenís é a criação de zonas de baixo meretrício em locais determinados)
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É o tipo de livro que, como disse no post anterior, deveria ser trabalhado nas aulas de literatura e redação dos colégios. Há uma linguagem leve, que faz rir, mas ao mesmo tempo muito inteligente.  Na parte do FEBEAPÁ há um monte de notícias grotescas com um comentário espirituoso do escritor, o que as torna ainda mais engraçadas. Na parte das crônicas existem todo um conjunto de crítica dos costumes, confronto de gerações, ironias e piadas. Tudo o que um adolescente gosta.
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O livro é excelente incentivo a leitura para os jovens: leve, engraçado, divertido e, acima de tudo, inteligente. Para alunos de 9° ano (8° série) serviria como um bom intertexto com História do Brasil (facilitando o entendimento sobre o cotidiano do Brasil durante a ditadura militar), além de ser um livro que traz textos bem interessantes sobre como eram os costumes e sexualidade da época, bem como o conflito de gerações entre jovens liberais e velhos conservadores (no livro chamados de “cocorocas”).
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 São livros assim que eu defendo que sejam trabalhados em sala de aula, com temáticas importantes, que exijam compreensão e senso crítico, mas que respeitem a fase da vida que os adolescentes estão passando e forneça-lhes o riso, a descontração e a diversão. Além de Sérgio Porto, escritores como Luiz Fernando Veríssimo, Mario Prata seriam mais eficientes na hora de incentivar os jovens a entrer no mundo da leitura com qualidade. Não é tão difícil assim.