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sábado, 2 de novembro de 2013

O que se está construindo no ensino público?


Nunca houve exatamente uma "época de ouro" da educação no Brasil. O mantra de que "no meu tempo a escola era melhor" é uma meia-verdade pois quem fala faz pensar que antigamente a escola não tinha problema, ou que esses problemas eram ínfimos.
Nunca estudei a fundo a história da educação no Brasil mas lembro que nessa determinada "época de ouro" a escola no Brasil era bem excludente. Haviam exames de admissão em colégios públicos (o que eliminava grande parte das crianças de 10,11,12 anos da vida escolar), altos índices de analfabetismo e uma quantidade irrisória da população terminava o 2º grau (ensino médio). Ou seja, a sala de aula podia até ser melhorzinha (há controvérsias) mas a sociedade pegava fogo ao redor dela.

A partir dos anos 1970 começa a expansão do ensino público no Brasil. Os governos militares, endividados com o FMI, cumpriam com as exigências do fundo quanto a escolarização simplesmente enchendo as salas de aula, precarizando as estruturas e ainda mais os salários dos professores. O que se configurou um desastre na prática era um sucesso em números, daí tome a divulgar estatísticas frias sobre educação que em nada condiziam com a realidade. 
Essa cultura de divulgar os feitos da educação apenas em indicadores frios e estéreis se enraizou. Presidentes, prefeitos e governadores usam de números, e apenas eles, para fingir que a educação vem dando certo.

Lutar por um objetivo cujo os efeitos não se verá a olhos nus, e que para ser percebido é necessário ter uma visão histórico-contextual, é uma tarefa ingrata. O povão gosta de obra feita, de viaduto construído mesmo que ele não tenha carro e que o transporte público seja uma porcaria, gosta de hospital feito mesmo que não tenha médicos ou remédios, quer polícia na rua mesmo que essa seja truculenta e abuse da autoridade (as vezes contra o próprio povão). Esse homo vulgaris é fruto de um país onde a educação é pífia e a concentração de poder e renda nas mãos de uma minoria é enorme. Percebe-se assim que esse homo vugaris tem seríssimas dificuldades em aprender aquilo que escape ao seu horizonte imediato.

Quem mais sofre com isso é a educação, pois o povo só a enxerga em sua praticidade imediata, não pelo legado que uma boa ou má educação escolar deixará para seus filhos e para a sociedade como um todo.  Desse modo se valoriza a letra bonita, o fardamento arrumado, os conhecimentos decorebas, o domínio das 4 operações básicas e, principalmente, a capacidade da escola em manter os meninos e meninas trancados e ocupados durante o dia. Os conteúdos, a pedagogia, a preparação para a vida são deixadas de  lado. 
Para o político basta cumprir com esses anseios imediatistas e a cama está feita. Daí nasceu uma mentalidade de que importante é manter o aluno dentro da escola não importando o que ele esteja fazendo por lá. Então tome aprovação automática, tome falta de livros didáticos, falta de equipamentos e salários baixos. Tome salas lotadas, tome direcionamento pedagógico ineficiente, e tome mais deseducação escolar.

Podemos resumir que o que aconteceu foi que tentou-se acentuar a democratização do ensino sem promover a estrutura e capacitação para tal.
De nada adianta democratizar o acesso a escola se não houver antes condições para que se dê aula. As políticas pedagógicas são permissivas demais aos alunos, dando-lhes liberdade e proteção excessivas; isso acaba potencializando os problemas sociais que explodem na escola, levando boa parte dos jovens ao desrespeito ao espaço escolar, ao desleixo com os estudos e para a violência verbal e física contra professores e funcionários da educação. Fora isso há escolas onde faltam até livros didáticos.

O que se vê no ensino público são tragédias existenciais sendo escritas. Não falo apenas daqueles que por falta de oportunidades, necessidades extremas e influencia de determinadas forças vão cair no crime e no consumo de drogas; esses casos são minorias ainda que isso não torne essa face do problema menos calamitosa.. Mas me refiro ao fato de que estão sendo forjadas gerações que serão incapazes de ler um único livro e interpretá-lo, que devido a má formação escolar estarão presas aos sub-empregos, aos trabalhos meramente braçais, que não terão condições de ascender socialmente pois lhes faltarão a amplitude de pensamento para construir uma atitude ousada visando o crescimento pessoal.

São essas gerações que devido a estreiteza de pensamento sofrerão as angústias de não encontrar uma palavra que traduza suas dúvidas existenciais e seus dilemas, que não saberão resolver os problemas de sua comunidade negociando em conjunto uns com os outros (a pouca escolarização dificulta muito a convivência com ideias e posturas diferentes). Provavelmente serão esses indivíduos que mais sofrerão com a violência doméstica, que se refugiarão no alcoolismo, ou cuja única forma de força esteja no fanatismo político ou religioso. 

O fracasso da educação pública está construindo a renovação do rol de vítimas dos políticos ficha-sujas, dos líderes religiosos picaretas, dos agiotas inescrupulosos, do traficante aliciador...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nem mesmo uma leve sombra?

 
Carrego uma impressão(bem arbitrária, confesso) de que na disputa entre direita x esquerda a "direita" sempre existe a "esquerda" some em certos momentos, torna-se um mero arremedo de proposta política que de tão deformado torna-se impossível definir pelo que luta politicamente.
Acho que vivemos um momento assim no Brasil, todos os partidos grandes, com respaldo eleitoral, pendem para a direita, uns mais outros menos, mas pendem!
Quando vejo Lindberg Farias, ex-jovem-revolucionário-cara-pintada aliar-se ao Silas Malafaia para tentar vencer a eleição do Rio de Janeiro sinto que vivemos esse momento: a esquerda sumiu.
 Como a esquerda luta contra os "Status Quo" supõe-se que seja dela a missão de desafiar as elites, as oligarquias, de denunciar os mecanismos que camuflam a dominação exercida por certos grupos sobre o povo. Não é só uma questão de mera luta de classes, é uma questão de promover autonomia do povo. 
A maior das utopias é que um dia o mais reles cidadão tenha senso crítico suficiente para não se deixar manipular pela mídia, pelas igrejas "peque-e-pague", pelos sindicatos meramente cartoriais, pelos professores mal-intencionados. Ser de esquerda é querer que o mais simples porteiro, gari, marceneiro seja capaz de fazer os maiores representantes do poder teme-los, e esse temor não ser mero fruto de ódio irracional momentâneo, como nos protestos de junho/julho, mas seja fruto de um senso crítico presente nas massas, nos mais simples dos homens. Isso não se conquista meramente elegendo um partido ao poder. Não se conseguirá isso apelando aos mesmos que emburrecem e alienam, não da pra esperar da grande mídia, das igrejas, dos políticos profissionais, a solução dessas coisas pois ele se alimentam da alienação ululante.
Assim vivemos num momento que não temos esquerda. O importante é o poder e só, que se danem as reivindicações sociais. Qual oligarquia o PT desafiou? Qual grande mídia teve seus interesses feridos pela atuação do governo petista? Como os professores são tratados em estados aliados do governo? Onde o latifúndio foi confrontado? Onde o povo tornou-se real participante do poder? 
Para que se entenda como o caso de Lindberg Farias é simbólico no que se refere a ausência de esquerdas relevantes no país é só pensar em quem é o Silas Malafaia. Mais do que lembrar de que esse líder religioso é um personagem de ultra-direita, reacionário puro, que cospe ódio contra os movimentos LGBTT, contra os ateus e que nas últimas eleições rebaixou a discussão política a mera discussão moralista-religiosa (onde acusava vergonhosamente Dilma de ser ateia, abortista e onde execrou o nome de Marina Silva por ela se recusar a curvar-se diante de sua agenda intolerante, isso a beira de um 2º turno com a candidata do PV quase passando Serra), é preciso também ver quem é esse sujeito como pastor, como líder religioso.
Malafaia é um expert em enganar os fiéis com a sua pirotecnia teológica-gospel. Desceu ao nível da vigarice religiosa mais baixa possível com as suas famosas "unções financeiras de R$ 900" (valor módico, hein), seus "trizimos da casa própria", suas bíblias de "batalha espiritual e vitória financeira", ou ainda com a sua promoção baixa de pseudo-ciências e defesa da horrenda causa da "cura gay". Isso entre outros fatos pouco lisongeiros...
Fico a pensar: que esquerda é essa que busca apoio justamente daqueles que mais alienam o povo? O caso não é só o Malafaia, que antes era um inimigo declarado (na verdade ainda é inimigo declarado de Dilma e do PT, se não é no Rio de Janeiro é porque deve haver algum interesse talvez pouco republicano).
A direita brasileira sempre utilizou dessas táticas baixas de perversão do discurso político para desqualificar o PT eleitoralmente, o que era um sinal de sua clara crise, da ausência de propostas, do seu fracasso político. Em 2010, na campanha Dilma X Serra, o desespero da direita nacional a fez cair numa cruzada teocêntrica contra o PT, com deturpações, mentiras deslavadas (como o caso do "satanismo" de Michel Temer, ou de que Dilma era ateia e que "zombou de Deus), com aliança junto a Assembleia de Deus, CNBB, grupos reacionários católicos, demais igrejas pentecostais, todas em coro uníssono de que  Dilme e o PT eram o "partido do demônio" e "inimigo dos cristãos". O fato é que Dilma e principalmente o PT venceram esse mar de obscurantismo, não que isso limpe a ficha do Partido dos Trabalhadores, mas foi uma vitória histórica e heróica.
Hoje parece que o PT e seus aliados  mais tradicionais definharam de vez nesse mar de obscurantismo. Claro que as contradições já vinham de antes, com acordos espúrios para manter a frágil governabilidade, mas dessa vez o PT está escolhendo tornar-se um partido indefensável, está destratando seu legado de inclusão social, estabilidade, crescimento econômico e luta pela erradicação da miséria ao atrelar-se aqueles que lutam contra autonomia das pessoas.
 
 Indico também artigo do deputado Jean Willys sobre a pavorosa aliança Lindberg/Malafaia
 " A transparência do mal" por Jean Willys, na Carta Capital
Uma frase muito repetida e cuja autoria é atribuída a Confúcio – embora não se saiba ao certo se é mesmo dele – diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”.  Ainda que existam palavras que mil imagens não consigam traduzir (“honestidade” é uma delas!),  trata-se de uma verdade válida para a maioria das imagens, inclusive para a fotografia de um culto evangélico que circula pelas redes sociais e que veio parar em minha caixa de e-mails no fim de semana.  Nesse flagrante fotográfico, o senador Lindberg Farias (PT-RJ) aparece “orando” ao lado do pastor e empresário Silas Malafaia: uma imagem que diz tanto quanto todas as palavras de O príncipe, de Maquiavel, ou Fausto, de Goethe.
Não é segredo para ninguém que o senador Lindberg Farias é pré-candidato do PT ao governo do Rio de Janeiro. E que sua pré-candidatura ameaça a aliança sempre conflituosa - sempre por se romper a qualquer interesse privado não atendido – entre seu partido e o PMDB, sigla que no momento não só governa o Rio, mas tem a vice-presidência da República, além de presidir as duas casas do Congresso Nacional.  O atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, mesmo sucumbindo a uma impopularidade sem precedentes, fruto de denúncias de corrupção em sua gestão, não quer a candidatura de “Lindinho” e pretende eleger seu vice, Pezão, a qualquer preço. Ameaçado pelo impacto negativo de sua pré-candidatura na aliança nacional entre PT e PMDB e sentindo que esse impacto se amplia na medida em que a parceria entre Marina Silva e Eduardo Campos emerge como a possível aposta da “grande mídia” para eleições do próximo ano, Lindberg decidiu pôr a alma à venda em busca de força para sua empreitada. Ora, se o fato de se pôr a alma à venda já suscita um debate sobre ética, imaginem quando a alma é oferecida a negociante que costuma pagar pouco e pedir mais que alma!
Todos sabem como Silas Malafaia se comportou nas eleições de 2010 em relação à então candidata do PT Dilma Rousseff. Em conluio com José Serra, candidato do PSDB, ele demonizou a petista e reduziu o debate eleitoral a uma agenda moralista - quase fascista – que obrigou os principais candidatos à presidência a se colocarem contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e contra a cidadania plena de homossexuais. Não contente, nas eleições do ano passado, Malafaia tentou derrubar o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com a mesma estratégia de demonização e rebaixamento (aliás, o apoio do pastor ao candidato do PSDB me levou a sair em defesa de Haddad mesmo contra a vontade de meu partido).
A militância petista teve ânsias de vômito quando viu imagens de José Serra em cultos evangélicos, acompanhado de Malafaia, proferindo expressões cristãs – “A paz do senhor, irmão” – que, em sua boca, soavam tão naturais quanto um pacote de Tang. O que essa mesma militância estará dizendo de seu senador?
A foto de Lindberg orando ao lado de Malafaia me fez lembrar das lições de Roland Barthes na memorável A câmara clara, obra que li para a disciplina Fotografia quando cursava Jornalismo nos idos anos 90. Nela, Barthes elabora dois conceitos - Studium e Punctum  - para se referir a dois modos de envolvimento com a fotografia. O studium corresponde a uma “leitura” da fotografia por meio de critérios e objetivos definidos; uma espécie de crítica intelectual da imagem a partir de um repertório cultural. Posso dizer, então, tendo em vista o studium da foto em que o senador do PT aparece “orando” ao lado do pastor fundamentalista e boquirroto, que a mesma revela um “fenômeno extremo” da contemporaneidade: o abraço eivado de cinismo entre o marketing e a política.
A expressão “fenômenos extremos” é utilizada pelo filósofo francês Jean Baudrillard, em seu excelente A transparência do mal, para se referir aos episódios da atualidade que correspondem à substituição do real por “simulacros”. A foto da conversão de Lindberg não é só um “simulacro” do real mas, antes, uma simulação descarada. Nela, o mal – a mentira, a enganação, o oportunismo, a desonestidade intelectual, a venda da alma ao diabo - é transparente a quem quer que se preste a “ler” seu studium.
Já o punctum é, segundo Barthes, algo que, na imagem, toca-nos independentemente daquilo que, nela, vemos de imediato ou buscamos. Nas palavras do autor, o punctum é “um detalhe”; “são precisamente pontos”; “pequena mancha, pequeno corte” [na fotografia]. Trata-se de uma “leitura” não-intelectualizada da imagem; intuitiva; um ponto na foto para o qual o olho se dirige quase contra a vontade; um traço notado mesmo que tudo na foto chame mais atenção que ele. Varia de acordo com o leitor. Para mim, o punctum da foto de Lindberg “orando” ao lado de Malafaia é o riso mal-disfarçado de ambos. Ambos têm consciência de que estão enganando um eleitorado que não por acaso é chamado e tratado como “rebanho” pelo seu pastor. Esforçam-se para parecerem convincentes – e tudo na foto reforça a verossimilhança da cena, inclusive o nome “Jesus” ao fundo. Mas o punctum os desmascara e revela o riso da serpente.
 

domingo, 13 de outubro de 2013

"GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA FILOSOFIA" - Pondé tão mediocre quando a mediocridade que denuncia




Relutei em comprar o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” de Luis Felipe Pondé pois vejo a olhos nus o estrago intelectual que o trabalho co-irmão desse (as três edições do “Guia Politicamente Incorreto da História” de Leandro Narloch) tem feito. 


Esses “guias” servem ao interesse imediatista do mundo atual. Vivemos uma época em que quem quer emagrecer compra um remédio milagroso no lugar de fazer dieta e malhar, e quem quer ter opinião sobre as coisas prefere se apegar a qualquer informação rápida e redentora, da qual já se alimenta simpatia de antemão, do que buscar conhecimento profundo.


Tais publicações servem para dar argumentos ao pensamento reacionário atual, a esses indivíduos de pensamento enviesado que só estudam aquilo que lhes agrade (isso quando estudam, claro) e que ficam dando piti quando precisam estudar sobre algum tema com o qual arbitrariamente não simpatizam (vide o caso do “garotodefensor de valores democráticos” que se recusou a estudar Marx na faculdade e defendeu “democraticamente” o banimento do marxismo).  Tenta-se buscar na história legitimação para os ideais mais reacionários, para as maiores desonestidades intelectuais; lógico que para isso é preciso se apegar a fontes obscuras, fazer uma leitura descontextualizada dos fatos e, claro, disposição desavergonhada em mentir. Assim encontra-se nessas publicações afirmações que o nazismo era de “esquerda” porque o partido se chamava “Nacional-Socialista Alemão”, só para ficar em um exemplo da desonestidade argumentativa desses indivíduos.


Movido por essa desconfiança fiquei temeroso em comprar o livro de Luis Felipe Pondé, mas a curiosidade foi maior e comprei-o. Minhas expectativas milagrosamente...     se confirmaram! O livro é um tratado de reacionarismo, de defesa de ideais antidemocráticos, preconceito social, machismo e desleixo e desrespeito contra tudo aquilo que se mostra contrário ao ponto de vista do autor. Claro que Pondé também cometerá acertos no livro, mas eles são em ampla minoria.


Pondé tem estilo, escreve com clareza, desenvoltura e sem rebuscamentos, mas logo nas primeiras páginas já mostra um traço comum nos autores desses “guias”: o ataque a quem pensa diferente, a desqualificação a quem discorda dele. Assim chovem adjetivos como “preguiçoso”, “medíocre”, “covarde” contra seus antagonistas.

Como sabe que em tempos de governo de esquerda falar que é de direita dá muito audiência, Pondé radicaliza e logo nas primeiras páginas sai com tiradas ácidas  contra a democracia e em favor de um pensamento aristocrático. Para Pondé o homo vulgaris, a massa inculta, não sabe sobre o que se debate de fato em uma democracia (isso é verdade) e por isso acaba por dobrar as decisões políticas à sua vontade ignorante. Apesar de haver alguma substância de verdade nas falas de Pondé sobre isso, percebe-se na verdade um grande recalque por parte dele, talvez com o momento político e social vivido pelo Brasil, onde a “pobretada inculta” vive com mais dignidade e freqüenta alguns espaços que antes lhes eram inacessíveis. A mentalidade reacinha de Pondé aparece logo aí; pra ele pobre tem mais é que chafurdar na pobreza, andar de cabeça baixa, e pronto.


“Costumo dizer que aeroportos e os aviões, além de todos os lugares do mundo, viraram um grande churrasco na lage” (pág 17)


 “Quando se acentua a igualdade na democracia, amplia-se a mediocridade” (pág 50)


O grande inimigo listado por Pondé no livro é o pensamento do “Politicamente Correto”, que segundo ele é uma praga que vive a castrar a liberdade de pensamente e que é desonesto intelectualmente. A maior expressão do politicamente correto, segundo Pondé, é a “Teoria de gênero” e sua idéia de que a sexualidade é algo construído socialmente. A crítica de dele ao feminismo é ácida e mal educada, apelando para um processo de desqualificação das feministas enquanto pessoas. Isso demonstra o quanto o “filosofo” foi cirúrgico na escolha das palavras e qual o público que busca atingir. Os reacinhas de plantão são figuras que se sentem superiores e adoram xingar seus adversários ideológicos, em muito por falta de argumentos (é praticamente impossível um debate decente e civilizado com um reaça moderno). Por isso Pondé carrega na desqualificação covarde contra as feministas, ainda que certas críticas suas ao feminismo estejam corretas, se não xingar o reaça politicamente incorreto não compra o livro (Lobão, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo são provas disso):


“feministas, normalmente, são azedas porque são feias” (pág 80)


Mas a parte que considerei mais ofensiva foram as reflexões sobre educação. Para Pondé a maioria esmagadora dos professores escolhem essa carreira porque são medíocres. Mas concordo que algumas coisas que ele fala sobre a classe de professores são reais para uma boa parte deles: que poucos tem apreço pela leitura e o estudo, que poucos valorizam a erudição e a polidez, que consomem lixo cultural desavergonhadamente (numa clara contradição com a sua posição de alguém que deveria querer elevar o nível cultural e intelectual do aluno), etc.


O problema dessa parte é que Pondé coloca quase todos no mesmo saco, mas coloca-se como exceção, claro, afinal ele é um “iluminado aristocrata-intelectual”. Vergonhosamente desqualifica as ciências humanas dizendo que nada de bom surge delas. É o lado mais asqueroso do livro porque o ódio as ciências humanas é a face mais estúpida do reacionarismo. Os conservadores-reacionários detestam as ciências humanas pois elas desafiam o senso comum, contestam a estabilidade social aparente, e Pondé, um filósofo, as desqualifica abertamente. Esse sentimento de ódio aos intelectuais me lembra muito o sentimento do nazismo contra os intelectuais, especialmente das ciências humanas, expresso na frase de Gobbles: " QUANDO EU OUÇO FALAR EM CULTURA EU PUXO O REVÓLVER".


“Na maioria dos casos, professores de universidade (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas” (pág 97)

“As ciências duras ainda podem entregar remédios e ‘robots’, as ciências humanas não tem nada para entregar” (pág 101)


O desprezo a intelectualidade é a marca do estúpido politicamente incorreto, além da grande admissão de burrice que é apelar para um ataque tão vil. Esse deboche do Pondé quanto a seus pares mostra outra característica do novo imbecil reacinha: ele se acha especial. Pensa que não há necessidade de aprender na escola, de ouvir o contraditório, de estudar. Sentem-se especiais a ponto das conjecturas que eles elaboram dentro da sua ignorância serem maiores do que conhecimento científico amplo, assim só valem pra eles filósofos, sociólogos e historiadores que estejam de acordo com seu ponto de vista desenvolvido arbitrariamente.

Mas admito que fiquei feliz ao ler esse trecho quando lembrei dos meus amigos reacinhas que infestam cursos de Filosofia, Letras e História. Fico a pensar o que eles acham de um de seus ídolos o chamarem de medíocres. (Fina ironia, hehehehe)


Pondé caminha pela mesma estrada de gente como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, Lobão, que vestem de estilo as ideias mais estúpidas (restrição da participação popular na democracia, desprezo pela educação escolar, deboche contra professores e intelectuais das ciências humanas, machismo).

Sinto-me mal em ter dado 40 reais para essa turma do politicamente incorreto, em financiar essa gente que se arroga de professor, filósofo, historiador e jornalista para difundir preconceito e apologia a ignorância e estupidez. Se algum reaça quiser me comprar o livro pelos mesmo 40 reais eu vendo na hora, mas aviso que vou usar a grana para comprar algum livro que realmente preste.



Um texto que desnuda o estilo de argumentação de Pondé e seus congêneres

sábado, 31 de agosto de 2013

Os médicos viraram propaganda política para todos os lados



Realmente que é um risco trazer médicos de outro país para clinicar no Brasil. Não somos uma zona de guerra precisando de amparo a todo custo

Está claro que esse programa é uma grande jogada eleitoral do PT e da Dilma, é nítido vai ter um efeito demolidor nas próximas eleições. Ainda mais agora que a presidenta luta para se recuperar da gigantesca queda em sua popularidade (causadas pela enorme onda de protestos que só serviram para derrubar seus índices de aprovação).

Também é lógico que a solução para a saúde está em se ter um misto de recursos financeiros, gestão competente e transparência nas contas a fim de evitar corrupção. Que é necessário ao governo investir na formação de mais médicos, ampliar as vagas nas faculdades

O engraçado é que dias atrás era quase uníssono que os médicos também não ajudavam, que "mal olhavam na cara dos pacientes", que só se importavam com clínicas particulares, que eram preguiçosos e etc.

Boa parte dessas críticas aos médicos eram justas para a maioria, outras não.

Num pais como os EUA seria impensável um programa desses, pois saúde por lá, assim como quase tudo, é tratada como mercadoria . Se existem indivíduos que não podem pagar pro tratamento médico... paciência!! Essa parece ser também a mentalidade dos médicos brasileiros que se levantam de forma raivosa contra a vinda de médicos estrangeiros (especialmente cubanos): saúde é para quem pode pagar, ou para cidades que possam pagar (centros urbanos com razoável estrutura).

O fato é que, ao contrário da visão mercadológica, está cristalizado na visão do povo brasileiro de que saúde não é mercadoria, é, em sua visão, um bem social pelo qual o Estado deve zelar. (antes que alguém diga que isso é fruto de doutrinação esquerdista vale lembrar que a Inglaterra ultra-liberal de Margareth Tatcher privatizou quase tudo entre 1979 a 1990, mas não ousou tocar um único dedo no sistema de saúde pública inglês).

Essa noção de que saúde é um bem público torna-se uma sinuca de bico para os governos e governantes: de um lado ninguém teria coragem de defender a privatização da saúde abertamente, confessando a incapacidade do Estado e a sua enquanto administrador, de outro lado sempre encontram na saúde pública um calo na sua imagem política porque simplesmente o negócio parece não ter jeito. A realidade é que o povão, a massa eleitoral que decide eleição, pragueja sempre por um sistema de saúde decente que nunca existiu em momento algum e que não se sabe como atingir.

Quando uma parte considerável da população saiu em uma enorme onda de protestos pelo país o mantra "mais saúde, educação e segurança" era repetido exaustivamente pelos manifestantes de boutique que postavam orgulhosamente as fotos no facebook. É uma causa justíssima, claro, mas o fato é de que ninguém fazia a menor ideia de como produzir isso, as pessoas apenas queriam e bem rápido. Mesmo com esses problemas tendo profundas raizes históricas no Brasil quem pagou o pato foi o governo da Dilma, que acabou sendo o alvo dos protestos e sua popularidade despencou.

Esse fenômeno se deu por um problema muito comum presentes em quase todas os levantes de massa: o imediatismo. Quando uma turba humana se forma de tal maneira, exigindo mudanças sociais e políticas ainda que nesse caso ninguém soubesse bem sobre o que protestava, ela vai carregada da ilusória sensação de que a história é apenas um ato de vontade dos líderes ou do povo. Que é possível romper com um legado histórico enraizado apenas por tomarmos consciência de que ele é mal. É um pensamento infantil.
 Só para ficar em um único exemplo poderíamos pensar que se fosse assim as oligarquias políticas já teriam sumido faz tempo. Quem nunca ouviu alguém dizer "esse partidarismo é o atraso da cidade, isso tem que mudar"? No fim das contas o cara vai lá e vota em um dos dois partidos. Tomar consciência de um problema não torna possível sua imediata superação.
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Um dos efeitos de nossa formação social, pelo menos eu enxergo assim, é a nossa incapacidade de fazer as coisas coletivamente e também a nossa incapacidade de enxergar as coisas a longo prazo. Nossa cultura social e política, tanto de direita quanto de esquerda, não enxerga as mudanças como atreladas a processos maiores vigentes na sociedade, todos querem obras rápidas sejam elas obras de caráter social, estrutural ou administrativo. Uma obra rápida serviria como um xeque-mate diante de qualquer posição contrária as suas, quando o governo não consegue um xeque-mate o pensamento da oposição cresce.

O programa Mais Médicos não foi pensado de última hora, já ouvia-se falar dele a muito tempo, e é nítido que é uma estratégia do governo para maquiar o desastre que é a saúde pública no Brasil (desastre que não foi crido por ele, mas que foi mantido). No Brasil a maior parte dos hospitais públicos não tem a menor estrutura, faltam equipamentos básicos, faltam leitos, remédios e... médicos!!! Um processo para transformar a saúde pública no país demoraria uns vinte anos no mínimo (isso é só um chute meu), não se muda uma estrutura viciada com um estalar de dedos. 

Mas como disse antes a nossa sociedade não tem o costume de trabalhar em conjunto valendo-se de um ideal coletivo e de longo prazo; o povão gosta de obra, de hospital feito e de... médico! Pra ele não interessa de onde vem o médico, desde que tenha. Lógico que há uma clara desconfiança com a qualidade desses profissionais, mas desde quando os doutores brasileiros inspiravam confiança para o povo? Umas das coisas que mais vejo o povão reclamar é de profissionais que sequer olham na cara dos pacientes, do vício em receitar injeções e diagnosticar viroses e dar atestados de 10 dias... Para o povo os médicos também eram parte do problema, pois ainda está cristalizada na visão popular de que o médico deveria ser um indivíduo que trabalha por amor, que exerce um tipo de sacerdócio e, diante disso, a insensibilidade de parte substancial da classe médica torna-se chocante para o cidadão comum. 

Lógico que não estou condenando os médicos por essa postura desestimulada, o cara para ter motivação tem que ter condições de trabalho e dinheiro no bolso (como professor eu sei bem disso), não me venham com essa de "sacerdócio" pois até o sacerdote trabalha recebendo dinheiro. Sem estímulo qualquer um corre para a iniciativa privada pois ela paga melhor. Mas uma coisa nada tem haver com a outra; assim como um professor não pode usar o baixo salário e as más condições de trabalho para não exercer de forma compromissada e responsável sua profissão, o médico também não pode e as pessoas sabem disso e os cobram uma postura mais humana.

O fato é que a cegueira ideológica de quem é contra o governo não importa o que ele faça passou a tratar os médicos como "heróis da resistência", como se fossem todos almas caridosas que estão sendo constrangidos pelo governo. Existe um tipo de pessoa que cobra soluções rápidas pra tudo, que acha que o poder só não resolve problemas milenares porque não quer, que exige soluções rápidas mas que depois reclamam que essas mesmas soluções são grandes furadas (toda solução rápida para um problema grandioso é uma grande furada).

O fato é que o medo dos oposicionistas ao governo do PT é o impacto eleitoral de tal programa num ano de eleição como 2014. O problema para a oposição não é o emprego e a valorização dos médicos brasileiros (a própria oposição quando era o poder cogitou fazer programa semelhante [veja aqui]), o medo é de um impacto eleitoral avassalador, daí esse terrorismo, essa tentativa de desqualificar o programa já no seu início. Podem esperar chumbo grosso por parte da mídia ligada a oposição, haverá um sensacionalismo extremo. Se algum médico estrangeiro, especialmente cubano, cometer um erro vai dar capa de jornal, de revistão semanal, vai render matéria na televisão e isso numa proporção infinitamente maior do que é dedicada quando algum médico brasileiro do SUS comete algum erro. Vão tentar criar a ilusão de que a saúde pública era boa e quem estragou foram os médicos cubanos.

Como miopia ideológica pouca é bobagem ainda há a corja de trogloditas intelectuais que afirmam que esses médicos são guerrilheiros disfarçados que fazem parte de um projeto continental de comunismo tramado por Cuba com a conivência do PT (engraçado como um país pobre e subdesenvolvido tem um poder espetacular na imaginação delirante de certas pessoas). A esses nem se deve perder tempo respondendo, o que querem é que justamente seu delírio seja levado à sério.

Quanto ao PT ele está dando um golpe político certeiro, tá sabendo transformar o limão político que foram as manifestações em uma limonada. As pessoas exigiram respostas rápidas, o governo está dando. Lógico que o programa  não soluciona os reais problemas da saúde pública no Brasil: a falta de gestão. Mas o governo está sabendo se aproveitar do imediatismo popular para construir para si uma imagem de que é capaz de conseguir soluções para os problemas da nação. Se o programa der certo vai ser um ganho eleitoral gigantesco para Dilma, e se a organização da Copa do Mundo não for uma vergonha mundial e a economia se mantiver estável a reeleição da presidenta é líquida e certa.

Enquanto o abismo intelectual que marca nossa sociedade não for sanado soluções como essa encontradas pelo atual governo serão frequentes nas mais diferentes áreas. Não adianta reclamar ou se exaltar só porque se votou contra ou a favor do governo. O problema é que falta nas pessoas uma "visão de sociedade" e assim o potencial de um partido ou político é medido pela população pelos benefícios imediatos que podem trazer. Nossa sociedade é formada por pessoas que estão incapazes de discutir um projeto político mais complexo. Faça um teste: pergunte para alguém de qualquer idade, sexo e classe social o como funcionam os 3 poderes e quais as limitações de atuação de cada um, você verá que as respostas da enorme maioria é algo perto da sandice (uma aluna uma vez me disse que vereador era um "dono de bairro").

Os únicos que alimentam uma visão de sociedade são aqueles que defendem pensamentos autoritários como a volta da censura ou da intervenção militar no poder, trogloditismo puro! Eram esses que antes xingavam a a insensibilidade dos médicos e agora passam a tratá-los como "heróis defensores da liberdade contra o comunismo petista".

Enquanto isso as cidades pobres do Brasil continuam sem médicos.

domingo, 21 de julho de 2013

SÓ EU E MEUS LIVROS DE HISTÓRIA



Julgar alguém por suas opiniões, pelo seu direcionamento religioso e filosófico, pelo seu estilo e gosto pessoal é um terreno altamente movediço. Geralmente se elogia quem tem posição próxima das nossas e se critica quem se coloca nos lados opostos. Quando se é muito apaixonado por uma idéia e se defende ela enfaticamente, perdendo a autocrítica, muitas vezes é comum que seus partidários considerem os outros como idiotas, atrasados, alienados, fanáticos, imbecis, insensíveis, etc.  Assim é comum que algumas pessoas vivam em guerra constante contra a ideologia antagônica a sua simplesmente partindo para ataque ao adversário.  Isso não é um fenômeno para ignorantes, tem muita gente intelectualizada que vive de xingar seus opositores. Desse modo alguns ateus acham religiosos um bando de idiotas e alguns (muitos) religiosos acham os ateus uns “metidos”, “arrogantes”, “imorais”; direitistas e esquerdistas trocam insultos como “alienado”, “fascista”, “medíocre”; Bocas Pretas e Taboquinhas acusam-se mutuamente de fanáticos e etc.

Nessa troca de acusações muita verdade é dita por ambos os lados, mas o saldo final é de uma desaforada troca de bravatas. Me espanta que muita gente que considero inteligente caindo nesse expediente que em outras épocas também já caí. 

Meu saco pra discutir idéias começou a encher depois de uma discussão no facebook sobre a interferência religiosa na política e nas leis, onde um indivíduo entrecortava sua argumentação (bem coerente por sinal) com insultos gratuitos dirigidos a mim e meus pares (os ateus) como “intolerante”, “totalitário”, “burro”, “estúpido” entre outros. Pra esses tipos de pessoas, que se apegam demais as próprias opiniões a ponto de perder a auto-crítica e o bom senso, não basta argumentar é preciso atacar, humilhar, devassar o adversário. Enfim, o irracionalismo reina soberano.
Mas onde quero chegar é que, apesar de minha crítica ao linguajar agressivo, existe um indivíduo que pode, ao meu ver, ser considerado realmente um idiota no sentido de alguém que renunciou a sua razão na hora de formar suas concepções.  É a figura que defende idéias que o prejudicam, ou prejudicariam caso fossem aplicadas, como se fossem a salvação redentora para combater aquilo que ele considera como mal. Não bastando defender a própria ruína, é comum que surjam “polemistas” que defendam idéias que prejudicariam um grande número de pessoas (das quais ele próprio não estaria excluído).

Assim são os “jovens-conservadores”, os “homossexuais protestantes”, as “feministas católicas”, os “socialistas que votam em oligarquias”, “os democratas militaristas”, os “cientistas criacionistas”, as “mulheres machistas” etc.

Vivemos uma época em que as pessoas lutam apenas por aceitação social, ainda que isso signifique ir contra a sua mais essencial individualidade. A moda não é questionar, a moda agora é aderir, nem que pra isso tenha que se fazer um exercício de argumentação que, na ânsia de harmonizar a necessidade de aceitação pela sociedade com o seu verdadeiro "eu", termina por chegar ao ridículo.

Assim vemos uma juventude que desfruta de uma liberdade jamais imaginada antes simpatizar com ideologias políticas conservadoras e reacionárias (que voltaram a moda com tudo nos últimos anos). Vemos homossexuais tentando aliar sua luta por direitos com uma religiosidade baseada num livro que ordena seu apedrejamento  e os chama de “torpes” (já ví uma parada gay onde se cantou “Faz um milagre em mim” quase como se fizessem para seus algozes um pedido de permissão, ou de desculpas, para existir). Vemos mulheres ditas Católicas defendendo o direito ao aborto (o tal “Católicas pelo direito de decidir”). Temos biólogos, paleontólogos e historiadores que dizem não acreditar na Evolução (mas usam suas graduações e o respeito que elas transmitem para defender idéias sem a menor fundamentação científica). Temos pseudo-intelectuais que dizem que o fascismo era de esquerda e que a ditadura militar salvou o Brasil do comunismo e que naquela época não havia corrupção (precisa comentar?!)

Dois casos cotidianos me chamaram a atenção nos últimos dias. No primeiro uma senhora conhecida minha, costureira, fazia um discurso enquanto conversava com uma amiga no supermercado:

“sabe, eu detesto esse negócio de conselho tutelar. Agora não pode nem dar uma ‘lapadas’ nos meninos mais. Não pode botar eles pra trabalhar, pra ajudar com um dinheirinho nas contas da casa. Fica em casa vagabundando, só vai pra escola e depois não faz mais nada. Depois vira tudo traficante e sai matando por aí”

Depois de ouvir isso comecei a pensar que se a vontade dela fosse aplicada e as crianças pudessem trabalhar independente da idade talvez ela fosse a primeira a perder o emprego. Qual patrão, caso o trabalho infantil fosse legalizado, hesitaria em empregar uma criança, que não tem noção exata do valor do dinheiro e assim poderia trabalhar mais barato, para um trabalho repetitivo e de fácil aprendizagem como costurar e demitir um adulto (talvez ela própria) com uma família para sustentar  só pra aumentar a margem de lucro?
Me arrisco a dizer que a senhora que falou isso não teve uma boa educação escolar nas áreas de sociologia, história, filosofia, etc.,  se teve então resolveu desprezar isso completamente na hora de formar sua opinião. Uma boa aula sobre Revolução Industrial poderia servir, ou não...

Outro caso foi quando vi uma amiga de longa data divulgar no facebook o vídeo “Como ser submissa a uma pessoa omissa” (assista abaixo). Essa amiga é tem formação superior, fala três idiomas, tem leitura e capacidades intelectuais suficientes para saber valorizar a posição que a mulher conquistou na sociedade. Mas ela prefere repercutir um vídeo onde Ana Paula Valadão e outras líderes religiosas femininas ensinam que bom mesmo pra mulher e ser dependente de um homem, que o importante é saber pregar um botão  na camisa do marido, e que se a mulher preferir adiar o casamento para construir uma vida profissional sólida vai acabar casando com um patife aproveitador qualquer.

Depois do minuto 2:30 começa o "espetáculo"
 
Fico pensando se essa minha amiga dá algum valor ao que passaram as primeiras mulheres operárias que iniciaram o processo de emancipação feminina; se compreende a importância da luta das sufragistas dos séculos XIX e XX que lutaram para que ela pudesse votar, se entende o que realmente representou a revolução sexual dos anos 60-70 (que foi algo muito além do campo da sexualidade). Acho que ela deve fazer alguma idéia disso e deve perceber que vive em um momento positivo único para as mulheres na história, mas prefere defender e propagar que o bom mesmo pra mulher é ser escrava do lar, pouco escolarizada e pregadora de botões. Uma boa aula de História talvez fosse útil... ou não!

Diante dessa realidade onde as pessoas vivem numa corda bamba entre serem verdadeiras com si próprias ou terem plena aceitação social fico imaginando se vale a pena ser professor. Numa realidade onde as pessoas tentam harmonizar  o impossível e onde defendem suas idéias na base do ataque ao interlocutor. Onde quase ninguém toma uma posição clara sobre as coisas, e aqueles que tomam o fazem desprezando o conhecimento, a lógica e o bom senso.

Talvez a chave para entender essa época em que vivemos esteja em perceber que ela se pauta num jogo que alia o imediatismo e a ausência de reflexão.  Essa combinação leva populações inteiras a defender idéias que as prejudicam, que historicamente já se mostraram grandes furadas, mas as pessoas continuam a defender e partem ao ataque a quem não se rende a esse prato-feito.

Sinto-me melancólico com isso. Talvez só se venha a conseguir uma tradução mais coerente para os dias atuais daqui a uns 40,50 anos... quem sabe?

Enquanto isso eu fico só com meus livros de História