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sábado, 21 de janeiro de 2012

Religulous - o polêmico comediante Bill Maher lidera um documentário muito bom


Um dos memlhores documentários dos últimos tempos é o hilariante "Religulous". Ancorado pelo genial e polêmico Bill Maher o documentário toca num ponto pesado do mundo moderno: A Religião. O filme faz parte desta nova safra em que os documentários fazem críticas diretas a um tema, sem a preocupação de parecer imparcial, a intenção é de transformar o filme literalmente num panfleto.

Maher começa a investigar no filme onde estão as bases do radicalismo religioso nos EUA e pelo mundo entrevista alguns tele-evangelistas picaretas, zomba impiedosamente do vaticano e faz um confronto direto ao Islamismo da maneira que é mais irritante aos fanáticos desta crença: com humor e ironia.

O lado de humor do documentário não tira sua seriedade. É impossível não se revoltar com o fanatismo religioso que os muçulmanos estão colocado em vigor na Europa tentando transformar Maomé, o Alcorão e o Islamismo em icones que não podem ser criticados ou ironizados. Ou ainda com o fanatismo cristão dos EUA com tele-evangelistas aproveitadores (ensinaram bem a lição aos do Brasil), das teologias da prosperidade e da falsa impressão de que os líderes da Independência dos EUA,os "Founding Fathers", eram cristãos e fizeram a América em bases cristãs (na verdade os líderes da independência americana em secularistas convictos e quase nenhum ia a igreja). Melhor é quando Maher é barrado no vaticano por fazer parte de uma "lista negra" do Papa.
O toque de humor está no talento de Maher como confrontador, ao fazer perguntas complicadas aos religiosos se ouve respostas bizarras e chega a ser engraçado o esforço mental dos entrevistados para inventar justificativas a certos costumes bizarros de alguns credos religiosos

O filme também tenta mostrar como a relação promiscua entre religião e política é sinônimo de barbárie. Nos EUA maior parte dos políticos nega publicamente o evolucionismo para agradar a direita evangélica do país. Um dos melhores momentos do filme é a entrevista com o senador Mark Pryor, onde a barca furada da mistura política x religião dá uma pequena amostra do desastre anunciado que é. Segue-se o diálogo:
Maher: - Você acredita que estamos perto do dom dos tempos?
Pryor: - Sim, temos muitas evidências disso.
Maher: - E isso supostamente não tiraria a sua motivação em fazer algo bom pelas pessoas, uma vez que o mundo vai acabar?
Pryor: - ... (silencio constrangedor)

E melhor diálogo entre os dois:
Maher: - você acredita no criacionismo certo? Isso me chama a atenção, já que você, como um senador, é uma das poucas pessoas que realmente manda nesse país e me causa preocupação de que meu país seja governado por quem acredita na história da "serpente falante" (o mito de Adão e Eva)
Pryor: - Você não precisa passar por um teste de Q.I. para chegar ao senado (depois de alguns segundos faz cara de "falei bobagem")

Uma das críticas que se faz a esse documentário é que maher entrevista apenas religiosos caricatos e oportunistas e deixa de lado os religiosos sérios. Mas é aí que está a relevância do documentário, Maher corre atrás justamente daqueles que estão liderando a campanha de irracionalismo religioso pelo mundo. Não é segredo para ninguém de que hoje os líderes religiosos moderados e decentes tem tido dificuldade em manter seu rebanho e de arrebanhar novos fiéis, os líderes religiosos picaretas são mestres da arte do espetáculo e da pouca reflexão, além de se aproveitarem da ignorância alheia (uma matéria prima muitíssimo abundante). Os religiosos sérios com certeza estariam do lado do ateu Bill Maher se participassem do filme.
Nota 8,5 Um bom documentário.

Assista ao trailler: ( no Youtube há o filme completo caso você queira assistir, é bem fácil de encontrar)



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A dieta do palhaço - Será que somos aquilo que comemos?

 

Quando as leis de mercado são o único moderador de um segmento dá pra sentir que não existe moderação nenhuma. Quando as empresas podem praticar uma concorrência sem nenhuma regra que exija delas responsabilidade logo o desastre vai cair em quem consome.
Os EUA são a população mais gorda do mundo. a obesidade é a segunda maior causa mortis evitável do país perdendo apenas para o cigarro. Isso num país onde não há sistema de saúde pública, então adoecer pode ser a porta de entrada para a ruína financeira. Morgan Spurlock discute as causas da epidemia de obesidade que atinge os EUA e que é tendência mundial. Os métodos de Spurlock são bem  pouco ortodoxos: ele resolve transformar a si próprio numa cobaia viva que passa 30 dias se alimentado apenas de lanche do Mcdonalds (viveu na prática o sonho de qualquer criança de 9 anos). Os efeitos na sua saúde são devastadores.
As regras da experiência:
  • Deve plenamente comer em McDonald's três comidas por dia
  • Deverá escolher cada item no menu do McDonald's ao menos uma vez durante o transcurso dos 30 dias (fez em nove dias)
  • Deve ingerir só os itens do menu. Isto inclui a água engarrafada.
  • Deve escolher o tamanho "Super Size" de sua comida sempre que lhe for oferecido.
  • Deve aceitar todas as promoções oferecidas para que ele compre mais comida que a intencionada inicialmente.
  • Terá de caminhar a média que se caminha nos Estados Unidos, sobre a cifra de 5000 passos ao dia, porém isto não era rígido, já que ele caminhou relativamente mais, em comparação do que se caminha em Nova York que em Houston.
Mais do que ser uma experiência radical, quase um suicídio em longo prazo, o documentário discute como a falta de leis que regulem as empresas e a ausência de alguma agência reguladora governamental transforma o consumidor na maior vítima do processo.  As empresas bombardeiam o consumidor com toneladas de propagandas se aproveitando da ausência do Estado como regulador; a inexistência de um sistema público de saúde tira do governo dos EUA a responsabilidade em promover hábitos de vida saudáveis aos estadunidenses. Como conseqüência a população vai ficando cada vez mais gorda e alimentando a sanha devoradora do sistema de saúde privado dos EUA.
As crianças são o principal alvo das empresas de fast-food, o poder viciante destes alimentos (comprovados durante o documentário) faz dos infantes as maiores vítimas e garantia de um público futuro que será ávido consumidor destas porcarias industrializadas.
O documentário é muito bom principalmente devido a experiência bizarra ao qual Morgan se submete. Em 30 dias consome o que uma pessoa deveria consumir de fast-food em 8 anos e os efeitos na saúde são devastadores: a vida sexual é nula, Morgan vive em depressão constante, o fígado quase para de funcionar e seus músculos literalmente viram gordura.
Morgan usa técnicas de edição e de entrevista muito parecidas com a de Michael Moore, mas consegue não alimentar o mesmo ódio pelo adversário o que torna as entrevistas e depoimentos mais sóbrios.
O documentário de Spurlock é genial pela originalidade do tema e do roteiro. O filme é um belo retrato de como deixar o consumidor diante da força de propaganda das grandes corporações é um desastre anunciado. A força de coerção das grandes empresas chega a ser constrangedora, nos EUA as empresas de fast-food controlam até o fornecimento de lanches para as escolas públicas, o que vai garantir gerações futuras consumidoras destes produtos e cada vez mais obesas.
O filme também é pródigo em mostrar como essa conversa de que a “culpa não é de quem vende e sim de quem consome” não passa de balela, um engodo desleal e covarde. Não há como um cidadão médio elaborar uma opinião consistente se deve ou não consumir um produto quando a única fonte de informação é a sedutora propaganda. Não há sequer como ele próprio estabelecer, por suas próprias idéias, um limite seguro para o consumo de qualquer produto se não for informado a ele os riscos de um consumo excessivo. Pode parecer que estou considerando todas as pessoas como ingênuas e influenciáveis, mas acho que é justamente isso o que acontece. As pessoas são entupidas de informações distorcidas e  propagandas sedutoras sem ter um mínimo referencial que faça um contraditório a essa avalanche promovida pelas grandes corporações.
Esse consumo irracional, fundamentado em toneladas de propaganda e na ausência de regulamentação governamental que exija responsabilidade de quem vende, não ocorre apenas sobre nas redes de fast-food. Basta ver como as redes de TV odeiam qualquer tipo de regulação da mídia, qualquer tentativa de adequar a grade de programação a um padrão ético é imediatamente tratada como “censura” pela opinião pública.
Vender porcaria é a especialidade das grandes corporações, sejam do ramo de alimetos, informação, entretenimento, etc. e está cada vez mais difícil achar um concorrente de qualidade contra elas.
E, se o governo e a justiça dos EUA se fingem de morto diante das redes de fast-food, no Brasil o governo perde a quebra de braço na luta para atribuir responsabilidade às grandes redes de comunicação.
Voltando ao documentário: é muito bom e consegue dar bons toques de humor num tema sério  Nota 9,0
Se aguentar a espera assita aqui o documentário completo
 

Se preferir assista apenas o trailler 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR - Um excelente documentário que foi silenciado


Qual o futuro de uma sociedade pensada e estruturada a partir da minoria mais rica? Onde os investimentos sociais são diminuídos, os ricos não pagam impostos, e a ação do estado como regulador da economia é nula. Onde as empresas conseguem lucrar até com a morte de funcionários. Onde as horas de trabalhos são aumentadas sem um aumento de salário correspondente. Onde não há sistema de saúde e onde o direito de ter um teto para morar só vale se você não estiver endividado com os bancos. Qual o futuro de uma sociedade estruturada dessa maneira?
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Neste documentário Michael Moore trata sobre a crise financeira global iniciada com o estouro da bolha imobiliária americana, mas faz mais do que meramente mostrar as várias faces da crise. O cineasta mostra como os EUA, antes aclamados como os grandes defensores da democracia, hoje se transformaram numa “plutonomia”, ou seja, um país de uma nova aristocracia, que foi nascida nos centros financeiros de Wall Street.
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 Moore investiga o processo que originou a crise em seu real início, exatamente em 1980 com o início do governo de Ronald Reagan nos EUA. Reagan com certeza é um ídolo do Partido Republicano, insensível as causas sociais e lacaio das grandes empresas desde sua atuação como ator/garoto-propaganda  nos anos 50 e 60. Foi no seu governo que as reformas neo-liberais nos EUA foram implantadas com eficiência e radicalismo, como um rolo compressor passando por cima de sindicatos, justiça e de direitos básicos do cidadão. O desmantelamento industrial dos EUA começa justamente com o fenômeno das desregulamentação do sistema bancário e a banalização das hipotecas. Era como se, devido a escassez de empregos e a migração de empresas para outros países, os EUA tivessem incentivado a população a viver de empréstimos bancários dando suas casas como garantia, e pagariam esses empréstimos com pesadas taxas de juros não fixas que poderiam ser reajustadas  sempre pra cima (lembre-se: desregulamentação bancária). Junto a isso lembre-se da insensibilidade social do governo Reagan, que ampliou a produtividade e as horas de trabalho sem ampliar os salários. 
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Moore faz essa ponte histórica pois é dela que se entende o que levou os EUA a esse estouro da bolha imobiliária. Os Republicanos tiveram sua utopia de mundo ultra-liberal onde os ricos não pagavam impostos interrompida por 8 anos de governo Clinton, ao retomarem o poder com Bush cuidaram em brutalizar definitivamente as relações financeiras. Além de jogar a população pobre na penúria o governo Bush promoveu um socorro justamente àqueles que tinham sido os principais especuladores da crise: os bancos.
Daí Moore vai mostrando todo o fenômeno que corrói a maior nação do mundo. O déficit habitacional devido as dívidas com as hipotecas e os empréstimos adquiridos pelos cidadãos para cumprir com despesas médicas (não há sistema de saúde pública nos EUA). Mostra como o cidadão comum eleitor republicano, o famoso “John Doe” (algo como “Zé ninguém”) é o mais atingido pela crise imobiliária. O filme também tem o cuidado de mostrar que os bancos, as empresas de saúde e as seguradoras tornam-se financiadoras da campanha de Barack Obama temendo represálias diante de sua evidente eleição. Isso é um bom ponto de partida para se entender por que Obama ainda não tirou os EUA da crise, pois, assim como seu antecessor, ele assumiu o compromisso de salvar o sistema financeiro primeiro para só depois, se der tempo, pensar no emprego dos americanos.
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Diante deste contexto onde as corporações mandam no país, Moore começa a mostrar os efeitos nefastos disso na vida do cidadão comum americano. Como as seguradores que fazem seguros de vida milionários em nome de seus empregados mas nomeando a si próprias como beneficárias únicas da indenização. Até com a morte de um funcionário as empresas ganham benefícios. O caso da esposa que perdeu o marido com câncer e depois descobre que o seguro de vida que a empresa fez, no valor de 1,5 milhão de dólares, será repassado integralmente para a corporação é simplesmente revoltante. Ou o outro caso do marido que perde a esposa e, além de não receber o seguro de vida dela, já que a empresa era a única beneficiaria, fica com uma dívida de quase 100.000 dólares para pagar ao hospital. Ainda mais revoltante é saber que as corporações chamam essa canalhice de “seguro dos caipiras mortos”, dando uma mostra do quanto vale a vida humana para elas. Em outro dos vários casos mostrados no filme, uma cidade americana resolve privatizar o sistema de detenção juvenil. A empresa privada visando aumentar os lucros suborna juízes para que aumentem a níveis que passam do absurdo o número de detenções juvenis, aumentando assim os ganhos da empresa que, por sua vez, recebe os dividendos da própria prefeitura.
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Moore faz deste o seu melhor documentário, bem produzido e roteirizado, além de uma excelente edição de imagens. Mostra-se mais esquerda do que até a própria esquerda dos EUA gostaria em seu documentário mais Marxista (no melhor sentido do termo).
Lógico que devido a fúria denuncista do filme, misturado com doses de ironia e humor de primeira classe, o filme fosse ignorado e silenciado pela grande mídia dos EUA e dos cadernos de cultura dos jornalões pelo mundo. A arrecadação foi precária, pouco mais de 50% da arredação de seu documentário anterior (o também excelente “Sicko”). Mas isso não apaga o excelente trabalho de Michael Moore, o cineasta mais incendiário dos últimos 25 anos.
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Assista o trailer oficial do filme: