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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nem mesmo uma leve sombra?

 
Carrego uma impressão(bem arbitrária, confesso) de que na disputa entre direita x esquerda a "direita" sempre existe a "esquerda" some em certos momentos, torna-se um mero arremedo de proposta política que de tão deformado torna-se impossível definir pelo que luta politicamente.
Acho que vivemos um momento assim no Brasil, todos os partidos grandes, com respaldo eleitoral, pendem para a direita, uns mais outros menos, mas pendem!
Quando vejo Lindberg Farias, ex-jovem-revolucionário-cara-pintada aliar-se ao Silas Malafaia para tentar vencer a eleição do Rio de Janeiro sinto que vivemos esse momento: a esquerda sumiu.
 Como a esquerda luta contra os "Status Quo" supõe-se que seja dela a missão de desafiar as elites, as oligarquias, de denunciar os mecanismos que camuflam a dominação exercida por certos grupos sobre o povo. Não é só uma questão de mera luta de classes, é uma questão de promover autonomia do povo. 
A maior das utopias é que um dia o mais reles cidadão tenha senso crítico suficiente para não se deixar manipular pela mídia, pelas igrejas "peque-e-pague", pelos sindicatos meramente cartoriais, pelos professores mal-intencionados. Ser de esquerda é querer que o mais simples porteiro, gari, marceneiro seja capaz de fazer os maiores representantes do poder teme-los, e esse temor não ser mero fruto de ódio irracional momentâneo, como nos protestos de junho/julho, mas seja fruto de um senso crítico presente nas massas, nos mais simples dos homens. Isso não se conquista meramente elegendo um partido ao poder. Não se conseguirá isso apelando aos mesmos que emburrecem e alienam, não da pra esperar da grande mídia, das igrejas, dos políticos profissionais, a solução dessas coisas pois ele se alimentam da alienação ululante.
Assim vivemos num momento que não temos esquerda. O importante é o poder e só, que se danem as reivindicações sociais. Qual oligarquia o PT desafiou? Qual grande mídia teve seus interesses feridos pela atuação do governo petista? Como os professores são tratados em estados aliados do governo? Onde o latifúndio foi confrontado? Onde o povo tornou-se real participante do poder? 
Para que se entenda como o caso de Lindberg Farias é simbólico no que se refere a ausência de esquerdas relevantes no país é só pensar em quem é o Silas Malafaia. Mais do que lembrar de que esse líder religioso é um personagem de ultra-direita, reacionário puro, que cospe ódio contra os movimentos LGBTT, contra os ateus e que nas últimas eleições rebaixou a discussão política a mera discussão moralista-religiosa (onde acusava vergonhosamente Dilma de ser ateia, abortista e onde execrou o nome de Marina Silva por ela se recusar a curvar-se diante de sua agenda intolerante, isso a beira de um 2º turno com a candidata do PV quase passando Serra), é preciso também ver quem é esse sujeito como pastor, como líder religioso.
Malafaia é um expert em enganar os fiéis com a sua pirotecnia teológica-gospel. Desceu ao nível da vigarice religiosa mais baixa possível com as suas famosas "unções financeiras de R$ 900" (valor módico, hein), seus "trizimos da casa própria", suas bíblias de "batalha espiritual e vitória financeira", ou ainda com a sua promoção baixa de pseudo-ciências e defesa da horrenda causa da "cura gay". Isso entre outros fatos pouco lisongeiros...
Fico a pensar: que esquerda é essa que busca apoio justamente daqueles que mais alienam o povo? O caso não é só o Malafaia, que antes era um inimigo declarado (na verdade ainda é inimigo declarado de Dilma e do PT, se não é no Rio de Janeiro é porque deve haver algum interesse talvez pouco republicano).
A direita brasileira sempre utilizou dessas táticas baixas de perversão do discurso político para desqualificar o PT eleitoralmente, o que era um sinal de sua clara crise, da ausência de propostas, do seu fracasso político. Em 2010, na campanha Dilma X Serra, o desespero da direita nacional a fez cair numa cruzada teocêntrica contra o PT, com deturpações, mentiras deslavadas (como o caso do "satanismo" de Michel Temer, ou de que Dilma era ateia e que "zombou de Deus), com aliança junto a Assembleia de Deus, CNBB, grupos reacionários católicos, demais igrejas pentecostais, todas em coro uníssono de que  Dilme e o PT eram o "partido do demônio" e "inimigo dos cristãos". O fato é que Dilma e principalmente o PT venceram esse mar de obscurantismo, não que isso limpe a ficha do Partido dos Trabalhadores, mas foi uma vitória histórica e heróica.
Hoje parece que o PT e seus aliados  mais tradicionais definharam de vez nesse mar de obscurantismo. Claro que as contradições já vinham de antes, com acordos espúrios para manter a frágil governabilidade, mas dessa vez o PT está escolhendo tornar-se um partido indefensável, está destratando seu legado de inclusão social, estabilidade, crescimento econômico e luta pela erradicação da miséria ao atrelar-se aqueles que lutam contra autonomia das pessoas.
 
 Indico também artigo do deputado Jean Willys sobre a pavorosa aliança Lindberg/Malafaia
 " A transparência do mal" por Jean Willys, na Carta Capital
Uma frase muito repetida e cuja autoria é atribuída a Confúcio – embora não se saiba ao certo se é mesmo dele – diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”.  Ainda que existam palavras que mil imagens não consigam traduzir (“honestidade” é uma delas!),  trata-se de uma verdade válida para a maioria das imagens, inclusive para a fotografia de um culto evangélico que circula pelas redes sociais e que veio parar em minha caixa de e-mails no fim de semana.  Nesse flagrante fotográfico, o senador Lindberg Farias (PT-RJ) aparece “orando” ao lado do pastor e empresário Silas Malafaia: uma imagem que diz tanto quanto todas as palavras de O príncipe, de Maquiavel, ou Fausto, de Goethe.
Não é segredo para ninguém que o senador Lindberg Farias é pré-candidato do PT ao governo do Rio de Janeiro. E que sua pré-candidatura ameaça a aliança sempre conflituosa - sempre por se romper a qualquer interesse privado não atendido – entre seu partido e o PMDB, sigla que no momento não só governa o Rio, mas tem a vice-presidência da República, além de presidir as duas casas do Congresso Nacional.  O atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, mesmo sucumbindo a uma impopularidade sem precedentes, fruto de denúncias de corrupção em sua gestão, não quer a candidatura de “Lindinho” e pretende eleger seu vice, Pezão, a qualquer preço. Ameaçado pelo impacto negativo de sua pré-candidatura na aliança nacional entre PT e PMDB e sentindo que esse impacto se amplia na medida em que a parceria entre Marina Silva e Eduardo Campos emerge como a possível aposta da “grande mídia” para eleições do próximo ano, Lindberg decidiu pôr a alma à venda em busca de força para sua empreitada. Ora, se o fato de se pôr a alma à venda já suscita um debate sobre ética, imaginem quando a alma é oferecida a negociante que costuma pagar pouco e pedir mais que alma!
Todos sabem como Silas Malafaia se comportou nas eleições de 2010 em relação à então candidata do PT Dilma Rousseff. Em conluio com José Serra, candidato do PSDB, ele demonizou a petista e reduziu o debate eleitoral a uma agenda moralista - quase fascista – que obrigou os principais candidatos à presidência a se colocarem contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e contra a cidadania plena de homossexuais. Não contente, nas eleições do ano passado, Malafaia tentou derrubar o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com a mesma estratégia de demonização e rebaixamento (aliás, o apoio do pastor ao candidato do PSDB me levou a sair em defesa de Haddad mesmo contra a vontade de meu partido).
A militância petista teve ânsias de vômito quando viu imagens de José Serra em cultos evangélicos, acompanhado de Malafaia, proferindo expressões cristãs – “A paz do senhor, irmão” – que, em sua boca, soavam tão naturais quanto um pacote de Tang. O que essa mesma militância estará dizendo de seu senador?
A foto de Lindberg orando ao lado de Malafaia me fez lembrar das lições de Roland Barthes na memorável A câmara clara, obra que li para a disciplina Fotografia quando cursava Jornalismo nos idos anos 90. Nela, Barthes elabora dois conceitos - Studium e Punctum  - para se referir a dois modos de envolvimento com a fotografia. O studium corresponde a uma “leitura” da fotografia por meio de critérios e objetivos definidos; uma espécie de crítica intelectual da imagem a partir de um repertório cultural. Posso dizer, então, tendo em vista o studium da foto em que o senador do PT aparece “orando” ao lado do pastor fundamentalista e boquirroto, que a mesma revela um “fenômeno extremo” da contemporaneidade: o abraço eivado de cinismo entre o marketing e a política.
A expressão “fenômenos extremos” é utilizada pelo filósofo francês Jean Baudrillard, em seu excelente A transparência do mal, para se referir aos episódios da atualidade que correspondem à substituição do real por “simulacros”. A foto da conversão de Lindberg não é só um “simulacro” do real mas, antes, uma simulação descarada. Nela, o mal – a mentira, a enganação, o oportunismo, a desonestidade intelectual, a venda da alma ao diabo - é transparente a quem quer que se preste a “ler” seu studium.
Já o punctum é, segundo Barthes, algo que, na imagem, toca-nos independentemente daquilo que, nela, vemos de imediato ou buscamos. Nas palavras do autor, o punctum é “um detalhe”; “são precisamente pontos”; “pequena mancha, pequeno corte” [na fotografia]. Trata-se de uma “leitura” não-intelectualizada da imagem; intuitiva; um ponto na foto para o qual o olho se dirige quase contra a vontade; um traço notado mesmo que tudo na foto chame mais atenção que ele. Varia de acordo com o leitor. Para mim, o punctum da foto de Lindberg “orando” ao lado de Malafaia é o riso mal-disfarçado de ambos. Ambos têm consciência de que estão enganando um eleitorado que não por acaso é chamado e tratado como “rebanho” pelo seu pastor. Esforçam-se para parecerem convincentes – e tudo na foto reforça a verossimilhança da cena, inclusive o nome “Jesus” ao fundo. Mas o punctum os desmascara e revela o riso da serpente.
 

domingo, 28 de julho de 2013

PAPA, PROTESTO, OPINIÃO E INSULTO (e a arte de perder a razão publicamente)






Num texto anterior falei sobre aqueles que perdem totalmentea auto-crítica em suas opiniões e partem para o insulto contra os seusopositores.  Uma das manias mais irritantes dos tempos atuais é as pessoas insultarem-se umas as outras e chamarem isso de “liberdade de expressão”. Não é a toa que os ídolos dos mais diversos segmentos sociais são aqueles que sempre estão ávidos em atacar a insultar seus adversários. Silas Malafaia é o ídolo do movimento neo-pentecostal devido seu costume de insultar aqueles de quem não gosta (comparou gays a bandidos e disse que ia “arrombar”o movimento LGBT), Marco Feliciano insulta todo mundo: gays, negros, mulheres, etc. e não falta gente para defendê-lo. Na imprensa tem destaque quem vive de vomitar insultos, gente do tipo de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Paulo Henrique Amorim, etc., são o tipo de jornalista que são adorados por oposicionistas ou governistas apenas porque vivem de insultar os adversários. Daí se formam torcidinhas organizadas que repetem  os insultos de seus ídolos.

O problema surge quando quem deveria apelar para a razão cai no mesmo expediente de querer chocar, provocar e rotular.  Quem tem idéias diferentes, quem representa minorias, quem desafia preconceitos, tem que ser o primeiro a apelar para a razão. O insulto e a provocação acabam servindo ao opressor na sua ânsia de legitimar sua opressão.

Mas certos grupos de minorias repetem os erros de seus antagonistas ao preferirem insultar do que convencer,  provocar ao invés de aproximar, agredir ao invés de dialogar. Assim acontece com o movimento ateu de internet, que gasta tempo e energia provocando os religiosos no lugar de promover valores humanísticos e denunciar os abusos contra o Estado Laico. Fazendo isso só se alimenta o preconceito aos ateus e obscurece a causa.

O problema é que todos os grupos sociais, majoritários ou minoritários, então contaminados pela lógica do insulto.

Eu já esperava esse frenesi enorme com a vinda do Papa Francisco ao Brasil. O cara é carismático, simpático, traz uma face humana e carinhosa que nem de longe esteve em seus dois antecessores. Francisco teve o mérito de perceber que o problema da Igreja era a sua indiferença quanto aos pobres, algo que já tratei em outro texto, e também soube desarmar potenciais opositores (chegou a dizer que ateus podem ir ao céu). Mas o acerto do Papa Francisco não está no que ele fala, mas sim na forma como fala. Ele é populista na medida certa, fala mansa e carinhosamente para reafirmar dogmas da Igreja que eram repetidos com ares de severidade por seus dois antecessores, o que inflamava o debate.
Não há como esperar grandes aberturas do senhor Mário Jorge Bergoglio, ele é conservador e já mostrava um certo reacionarismo antes de ser Papa (veja aqui). Assim pode se esperar as mesmas posições de antes da Igreja sobre camisinha, anticoncepcionais, células tronco, aborto, divórcio, descriminalização das drogas, etc. Mas diferente de seus antecessores, Francisco não joga gasolina na fogueira incitando os ódios, ele se destaca pela aparente mansidão. Ao evitar que os ânimos se inflamem o Papa espera que o adversário perca a postura e parta para o ataque.

É difícil discutir abertamente com uma instituição que é movida por dogmas, que não importam o que digam a razão e a ciência sempre reafirmará basicamente as mesmas coisas. Não há diálogo contra o dogma, o dogma é uma imposição e é por definição algo irracional, no qual as pessoas devem acreditar e devem evitar até de ouvir posições contrárias. Discutir contra quem pensa dogmaticamente é burrice, nenhum argumento é válido a uma mente dogmática (vale dizer que dogmatismo não é uma característica exclusiva da religião, basta ir a uma faculdade e ver  que não falta dogmatismo e doutrinação por parte de professores).

Um dos efeitos do dogma é que ele inevitavelmente levanta rancores, pois é insensível. Como defender racionalmente que uma família pobre deve ter 10,12 filhos? Como sustentar  uma mulher estuprada deva dar a luz a um filho do estuprador? Que alguém com uma doença degenerativa deva recusar o tratamento com células-tronco embrionárias? Que casais com completa incompatibilidade tenham que conviver juntos forçadamente a vida toda?
Assim os grupos que são forçados a se chocar contra a doutrina da Igreja entram num debate inflamados pelo sofrimento que essa mentalidade dogmática provoca. Não é para menos...
O problema é quando se rompe a barreira do protesto, do confronto, e se chega ao nível do insulto e da perda total de razão. Esse é o risco que se corre.

Hoje um grupo de feministas com o nome de “Marcha das Vadias” promoveu um espetáculo dantesco nas ruas do Rio de Janeiro (veja aqui), onde simulavam masturbação com símbolos sacros em via pública, sem contar que estavam praticamente nuas (alô, polícia?). Foi o suficiente para que os ânimos se inflamassem nas redes sociais. Não posso tirar a razão de quem se ofendeu, foi uma putaria sem tamanho, um desrespeito descomunal, que apenas causou escândalo e não chamou a atenção de absolutamente ninguém para as questões do machismo e do sexismo (em muito sustentados em ideologias religiosas). Prestou um desserviço para a causa da igualdade entre gêneros.

Não se trata de desmerecer a causa, se trata de ter bom senso. Ao atacar o opositor promovendo escândalo se está apenas sendo idiota e não um militante. Se é ridículo um pastor chutando uma imagem de uma santa, se é ridículo perdoar pecados pelo twitter, é igualmente ridículo insultar a crença alheia esfregando crucifixos na vagina.
Aliás, mais do que ridículo isso é crime. 

É de doer na alma ver que quem deveria estar chamando o debate, encarando o  duelo da crítica e promovendo a conscientização das pessoas prefere tratar os opositores como inimigos e profanando-os publicamente. Assim perde-se a moral de criticar aquilo que se considera errado na Igreja. Na verdade dessa maneira se perde a moral para tudo.
O protesto pode ter humor, pode ter as palavras de ordem, pode ter a denúncia em voz alta, pode ter toda a rebeldia e indignação possíveis, mas não pode ter estupidez, não pode ser um insulto gratuito.
É preciso lutar promovendo o bom combate, quem está do lado da razão, do conhecimento e da tolerância não deveria ter nada a temer, nem agir motivado por ódio e rancor. 

Enquanto isso o Papa Francisco vai transformando os dogmas mais conservadores da Igreja em uma música agradável para os ouvidos das pessoas.

sábado, 16 de março de 2013

PARECE QUE MENTIR DEIXOU DE SER PECADO




O humorista americano Bill Maher costuma dizer que nessa autodenominada “era da informação” a coisa mais difícil é encontrar uma informação verdadeira. Ele está certo. Nesse mundo das redes sociais ficou ainda mais difícil ter acesso a informações realmente sérias. 

As redes sociais tornaram-se a prova de que as pessoas vivem em verdadeiros “cercadinhos mentais” e que não estão dispostas a sair deles. Não adianta que a escola ensine a duvidar de tudo (o que infelizmente poucas fazem, diga-se), ou que tenha um consenso social de que todos devem ter direito a livre-expressão e que se deve sempre ouvir atentamente os vários lados de uma história. O fato é que nessa era da informação as pessoas não estão somente interessadas em interpretar um personagem nas redes sociais (geralmente todo mundo se pinta de engajado, espiritualizado, defensor dos animais, da ética na política, fiel a Jesus, etc.). Mais do que isso elas estão interessadas em aderir previamente, e sem muita reflexão, a ideologias que melhor lhes agrade, que esteja de acordo com uma visão arbitrária, binária e infantil de mundo que vem herdada da mania que a sociedade tem de buscar estereótipos simples para dar respostas igualmente simples para tudo.

Lógico que para cada tema complexo as respostas simples se mostrarão verdadeiras furadas e, creio eu, todos que propagam idéias simplórias, mas com pretensão de “resposta absoluta”, sabem em seu íntimo que estão a divulgar uma notória falsidade. Mas a lógica do mundo virtual, assim como do mundo real, não é a de questionar as coisas, é a de aderir a elas e uma vez que se confesse como adepto de alguma idéia passar a defendê-la de maneira doentia, irracional e quase psicótica.

Essa semana explodiu uma série de postagens no facebook contra o Deputado Federal Jean Wyllys, onde se atribuía a ele uma série de frases de altíssimo preconceito contra os cristãos. A função clara do movimento era esvaziar o discurso do deputado fazendo sua defesa dos direitos dos homossexuais ser confundida com um forte anti-cristianismo digno do ateu mais ranzinza e infantil. 

Esse movimento tem a ver com acontecimentos que se deram nos últimos dois meses em que a vitória das forças teocratas do Brasil vieram acompanhadas de uma forte reação de pessoas com credibilidade nos campos das ciências, artes e política. Isso expôs ao ridículo o discurso de algumas figuras proeminentes do fundamentalismo religioso brasileiro tais como Silas Malafaia e Marco Feliciano.

No caso do Malafaia ele foi literalmente desmascarado pelo vídeo-resposta do geneticista Eli Vieira sobre suas afirmações no programa “De Frente com Gabi” no SBT. Malafaia fez vários outros vídeos respondendo a Elí, (“respondendo” é modo de falar, o termo mais certo seria “insultando”, “atacando”). Mas para dar uma verdadeira pá de cal nas mentiras do Malafaia a Sociedade Brasileira de Psicologia e a Sociedade Brasileira de Genética deram razão a Elí Vieira em notas oficiais. (Veja aqui e aqui)
Eli Vieira desmonta as falácias ditas por Malafaia no programa "De Frente com Gabi" do SBT. 
As reações destemperadas do pastor em relação ao vídeo não surtiram efeito.
Nos dias seguintes a Associação Brasileira de Psicologia e Associação Brasileira de Genética manifestaram endosso as aformações de Eli Vieira.  

Depois a eleição de Marco Feliciano para presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Esse fato, culpa da irresponsabilidade do PT com uma de suas bandeiras históricas, desencadeou revoltas entre os movimentos negros e homossexuais devido a afirmação de caráter racista e homofóbico de Marco Feliciano. A revolta saiu do “sofátivismo” e tomou ruas, com protestos em várias cidades.

As vigarices do Feliciano pipocaram na internet, reportagens demolidoras de jornalões e revistas semanais importantes mostraram o desastre que representa Feliciano presidindo uma comissão de direitos humanos.
Daí começa a jogada da campanha difamatória pela internet, como forma de criar uma cortina de fumaça sobre a realidade destes fatos.

Quem deu início a essa campanha foi o Pastor Malafaia ao ressuscitar uma menção mentirosa a Jean Wyllys, informando que em entrevista concedida ao Jornal do Brasil ele teria feitos sérios insultos aos cristãos. (na imagem abaixo)
 Malafaia ressuscita factóide criado por ele próprio contra Jean Wyllys. Link da postagem direciona para site gospel tendencioso ao Malafaia, não existe a referida Matéria do Jornal do Brasil em edição impressa (como afirma Malafaia no primeiro tweet da imagem). O Jornal do Brasil deixou de circular em 2010 de forma impressa, Jean Wyllys concedeu entrevista ao Jornal já em 2011

O fato é que Malafaia pode ser facilmente descoberto em sua mentira a partir de suas próprias palavras, afirma que a entrevista, concedida em 2011, não estaria no site do Jornal do Brasil mas si na sua edição impressa. O fato é que o Jornal do Brasil parou de circular em sua versão impressa em 2010. O link postado pelo Pastor Silas Malafaia direcionava a um site religioso de caráter nitidamente tendencioso (e nesse caso, mentiroso).

Foi o suficiente para que os reaças de todos os credos passassem a divulgar a imagem do Jean Wyllys junto com a falas falsas da falsa entrevista. E isso se proliferou na internet de forma impressionante, mesmo com as postagens não contendo nenhum link para a postagem original (afinal ela não existe). Nesse sábado a acessoria do Jean Wyllys divulgou nota falando o qualquer pessoa com a mínima noção das coisas já sabia: as falas eram falsas e descabidas.

POR QUE AS PESSOAS PROPAGARAM ISSO?
Imagem com afirmações falsas atribuidas a Jean Wyllys. Divulgada a exaustão por perfís supostamente religiosos no facebook

Sinceramente não me causa espanto que os admiradores do Malafaia tenham espalhado uma notória mentira sem o menor complexo de culpa. A resposta disso NÃO está propriamente na religião ou religiosidade, por dois motivos: 1- alguém por ser evangélico não significa que necessariamente seja homofóbico ; 2- O Malafaia tem admiradores em todos os credos e até entre ateus (pasmem!!!), mas não é essa unanimidade entre os evangélicos que todos acham.

A questão vai além da religiosidade, muito além

Acho que as pessoas encontraram em personalidades como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro (para não ficar apenas na questão religiosa) figuras que servem como legitimadores do preconceito que já carregavam intimamente. Daí a notoriedade dessas figuras passa a ser um encorajador para que toda a corja de homofóbicos, racistas e anti-ateistas e etc. saiam do armário e sintam-se a vontade em declarar seus preconceitos. Para fugir da patrulha social eles alegam estar “exercendo o direito a livre-expressão”, como se insultar um grupo social fosse um direito. 

Hoje o radicalismo conservador perdeu totalmente e vergonha e não mede palavras contra aqueles a quem consideram uma ameaça. Daí alguém dizer que se deve “cair de pau nos gays”, ou que “a Aids é o câncer gay” ou ainda que os “africanos são amaldiçoados” são tidos como liberdade de expressão religiosa.

Esse tipo de cidadão não quer discutir pela razão, quer impor sua força apenas porque é maioria na sociedade. Não importa que a cada dia se prove que as falácias pseudo-científicas divulgadas por pessoas como Silas Malafaia, Marco Feliciano, Marisa Lobo são completas inverdades, não importa que não exista nenhuma razão plausível para proibir o direito das minorias, não imposta que esteja nítida a aliança entre a bancada religiosa no congresso e as forças políticas mais atrasadas do Brasil. Essas pessoas querem é impor a ideologia que carregam em seu “cercadinho mental”, aquela que eles adotaram apenas porque lhes era agradável e não por terem refletido de verdade sobre ela. 

A prova disso tirei em dois debates que travei no facebook. Nos dois casos chega a ser engraçado a semelhança nas respostas e como elas são sintomáticas daquilo que acabei de descrever no parágrafo acima: “e daí se ele estiver mentindo, isso é problema dele. Isso é incômodo/inveja sua.”

Ou seja: ele pode mentir livremente desde que minta em favor do meu preconceito.

É preciso ser justo que em um dos casos a pessoa, uma mulher, reconheceu o exagero em sua fala e me pediu desculpas (prontamente aceitas, além do mais conheço a pessoa e sei que ela não é chegada em mentiras), mas ainda sim insistiu em alfinetar que meu ranço era com os evangélicos em geral e não com os Malafaias e Felicianos da vida.
                                                               
OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS (E OS MEIOS DESMASCARAM AS REAIS INTENÇÕES)

Quando vejo fenômenos como esse acontecido essa semana penso que a questão não é de convicção religiosa, ainda que fosse não daria maior credibilidade a questão. A crença religiosa está sendo usada para camuflar as reais motivações dos asseclas das figuras que citei no texto acima. A religião sempre serviu como uma eficiente cortina de fumaça sobre os temas mais espinhosos e sobre as intenções mais escusas(o que já denunciamos neste blog aqui e aqui  ), daí não me espante que estes grupos ditos “religiosos” tenham coragem de mentir sobre um tema. Simplesmente porque suas motivações não são religiosas, são puramente homofóbicas, racistas, elitistas, a crença religiosa serviu apenas de embuste para que estas idéias pudessem ser faladas livremente.


Fico pensando se Jesus Cristo, caso voltasse a Terra, alimentaria um ódio tão radical contra gays, africanos, ateus, espíritas, entre outros. Será ele aceitaria mentir para difamar um opositor?
Com certeza não, mil vezes não!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CRISE NA IGREJA CATÓLICA E AS QUESTÕES SOCIAIS



NOTA: Aviso de antemão que minha opinião é a opinião de um leigo, nesse texto passo apenas minha percepção sobre a suposta crise do catolicismo nas Américas e Europa. Não encarem como um tratado baseado em extensas pesquisas e leituras, pois não é. Se não gostarem da minha opinião comentem rebatendo e instigando um debate.

CRISE NA IGREJA CATÓLICA E AS QUESTÕES SOCIAIS


Perdoem-me o determinismo marxista, mas uma coisa é fato: religiões prosperam e se sustentam enquanto sejam um braço ideológico das elites dominantes, e só. O enraizamento  das crenças religiosas estão ligadas a outros fatores muito mais políticos, sociais e econômicos e não apenas pelo poder de persuasão de suas doutrinas. Na verdade a religião serve como um bom justificador das regras sociais e da diferença de classes. Historicamente quando uma religião se choca com interesses das classes políticas e econômicas dominantes o destino é, quase inevitavelmente, um processo de decadência e perda de influência. Assim foi com a própria Igreja Católica, que ao se tornar entrave ao nascente capitalismo fez com que parte substancial das monarquias e da burguesia européia fosse entusiasta de um novo credo: o protestantismo (que desde o século XVI,época de sua fundação, vem sendo o algoz do catolicismo). Ao desafiar o centralismo dos reis e a força econômica da burguesia a Igreja Católica começou a tomar uns golpes bem pesados.
De lá pra cá a Igreja só perdeu espaço, as sociedades tornaram-se mais laicas, os países católicos capengaram tecnologicamente e a Igreja perdeu fiéis, muitos fiéis. De nada adiantou a Igreja tentar unir o ocidente em sua figura contra o comunismo, de nada adiantou a aliança com as ditaduras militares nas Américas, de nada serviram as TFPs, de nada adiantou a conivência com os regimes fascistas. O fato é que a Igreja Católica vem passando por um processo de perda de poder; um processo que é longo, em respeito a sua grandeza, mas que justamente por isso permite que se faça uma leitura “in loco” deste fenômeno.

É bom deixar claro que a crise da Igreja não se deve aos casos de pedofilia, estes são apenas reflexos da crise que passa a “barca de Pedro”, a questão é bem maior. Se escândalos determinassem por si só a decadência de uma instituição o PT jamais venceria eleições, a Universal não teria um único fiel e a FIFA não existiria mais.

O fato é que a crise da Igreja se torna mais evidente pelo fato de que com a vitória, talvez definitiva, do capitalismo liberal sobre a utopia socialista as elites que se apegavam a Igreja Católica como forma de manter o próprio poder e a coesão social simplesmente passaram a desprezar o poder do Vaticano. No mundo capitalista não há espaço para o comedimento econômico defendido pelos Papas, a lógica do capitalismo é o utilitarismo extremo e isso em todos os campos: nas leis, nas políticas públicas, nas formas de governo, nos planos econômicos, etc., tudo é pensado em garantir mais lucro, competição e em aumentar o abismo econômico entre as classes sociais e entre as nações.

Assim alguns dogmas de fé da Igreja tornam-se obsoletos para o mercado e são considerado um entrave para o sistema capitalista e para o clima de liberdade individual que se implantou no mundo ocidental.  Daí a dinâmica é simples: A Igreja é contra o aborto e a contracepção, mas as grandes nações querem famílias pequenas para gastarem menos com saúde e educação públicas; a Igreja quer limites para a pesquisa científica, o mercado quer que certas pesquisas sejam potencializadas (podem ser lucrativas para a indústria farmacêutica e alimentícia); a Igreja quer comedimento sexual dos mais jovens, o mercado lucra com a sexualidade; a Igreja defende o casamento tradicional, hoje o grupo social que valoriza o casamento são justamente os que são proibidos de casar: os gays.

É esse descompasso que faz com que a Igreja Católica tenha perdido poder nesses anos todos, os escândalos de pedofilia do clero são potencializados porque além de gerarem polêmica e audiência, pela importância milenar do catolicismo, nenhum meio de comunicação mantém laços financeiros relevantes com a Igreja Católica (mídia e jornalismo funcionam mediante dinheiro, ora bolas!)
Casos de escândalos financeiros e sexuais acontecem em todos os credos, afinal líderes religiosos também são pessoas normais e que, vez por outra, dão suas escorregadas. Mas é interessante pensar que, ao menos no Brasil, casos de escândalo sexual entre membros de religiões protestantes e afro-brasileiras é semelhante ao número de casos entre clérigos católicos (basta uma busca no Google pra saber, ou acessar o www.paulopes.com) mas a mídia repercute grandemente os casos que envolvam padres e bispos da Igreja de Roma. A resposta é simples: a Igreja Católica se recusa a dialogar com meios de comunicação privados e seculares, é como se pensasse que todos lhe devem reverência por sua importância histórica, mas a mídia pouco se importa com a História, importa-se com lucro. A Igreja Católica no Brasil resolveu divulgar suas doutrinas e sua visão dos fatos através de redes de TV próprias (Rede Vida, Canção Nova) e todas são retumbantes fracassos de audiência. Enquanto isso as Igrejas Protestantes praticamente garantem o lucro das grandes redes de TV (exceção da Globo) com a compra de horários de TV para pregação.  Assim as redes de TV, menos a Globo, não se interessam em noticiar os escândalos dentro de igrejas evangélicas com a mesma ênfase com que noticia os escândalos da Igreja Católica (já imaginaram quanta grana investem RR Soares, Malafaia e Valdomiro em programas de TV?).

A mídia é impiedosa com aqueles que não a sustentam...

A PUNIÇÃO
Quando se olha algumas das recentes decisões da Igreja fica difícil pensar em uma saída para a crise do catolicismo. A Igreja defende elites que não mais se importam com ela e tomou decisões teológicas e políticas (é sempre bom lembrar que o Vaticano é um Estado) que a afastou das grandes massas populacionais formada pelos mais humildes. O caso da condenação da Teologia da Libertação pela “Congregação para Doutrina da Fé” hoje se reflete na distância que as classes mais humildes alimentam com a Igreja

Talvez um dos movimentos mais interessantes dentro da Igreja Católica nos últimos 50 anos tenha sido a Teologia da Libertação. Muito famosa na América do Sul e Central, a TL pregava uma visão mais social-crítica das palavras de Cristo, defendia que o católico não deveria se prender apenas ao lado metafísico da vida espiritual, mas usar os princípios cristãos, aliados a conhecimentos sociológicos e políticos, para tomar partidos dos mais pobres e oprimidos (como, talvez,  Jesus faria). Assim a Igreja deveria tomar partido em favor dos movimentos sociais por terra, moradia, alimentação e democracia, deveria ser uma força social que lutaria por mudanças sociais positivas para os mais pobres.

Lógico que a tradição elitista da Igreja Católica, bem como o conservadorismo político de João Paulo II (ele uma vítima da ditadura socialista na Polônia), acabou se refletindo na condenação do movimento político-teológico e com a excomunhão de vários de seus líderes, entre eles Leonardo Boff (hoje um “popstar” do pensamento de esquerda). Outros, como Frei Betto, não foram excomungados mas saíram da linha de frente da Igreja no Brasil que mergulhou num profundo conservadorismo (vide as posições da CNBB nos últimos anos sobre alguns temas políticos e ao fato de Frei Betto hoje ser mais considerado mais um “padre petista” do que um “padre católico”).

Assim diante das crises sociais que se seguiram a Igreja ficou do lado dos dominadores que a desprezam, não dos rebelados que lutavam por direitos ou mudanças sociais. A Igreja acompanhou o processo de criminalização dos movimentos sociais promovido nos anos 80 e 90 promovidos pelos grandes países capitalistas e que depois foi exportado para os países pobres, especialmente das Américas do Sul e Central. A condenação da Teologia da Libertação afastou a Igreja dos movimentos sociais e das massas excluídas e a transformou num peso morto nas questões políticas.


Hoje a Europa que passa por profundas crises sociais é o mesmo continente onde as paróquias fecham por falta de fiéis; onde toda uma juventude preocupada por seu futuro, devido a precarização das condições de segurança social no continente, protesta e sai as ruas contra toda uma estrutura de poder e a Igreja em nada pode fazer em favor deles, pois escolheu o lado errado pra apoiar. Esses jovens simplesmente não enxergam  a Igreja como aliada nas suas lutas. Ao condenar movimentos que usavam o cristianismo como forma de questionamento social a Igreja Católica afastou os jovens politizados e perdeu a chance de ser um moderador que poderia conter a fúria que hoje varre as ruas da Europa.

A falta de coragem em tomar partido em favor dos mais fracos, como Cristo faria (eu acho), fez a Igreja perder  contato com aqueles que vivem a realidade na prática.

SOBRE A RENÚNCIA DE BENTO XVI
O irônico é que a crise entre a Igreja e a sociedade, que hoje explodiu nas mãos de Bento XVI, tenha um pouco de culpa do próprio Ratzinger. Ele mesmo comandou o processo de condenação da Teologia da Libertação em 1984 e 1986, e hoje se diz fragilizado em sua saúde para cuidar da Igreja frente aos “enormes desafios de um mundo em transformação”. 

Talvez fosse mais fácil, mas não dá pra consertar certas coisas do passado.