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domingo, 8 de dezembro de 2013

Mandela morreu. O respeito pela história também.



Tá faltando pouco, muito pouco, para os reaças de facebook fãs de Olavo de Carvalho começarem a dizer que o nazismo teve lá suas vantagens (ops!! O Olavo já insinuou isso). A morte de Nelson Mandela deu mostras de que essa turma não tem a menor noção do que diz. São movidos por um ódio tão irracional que sequer tentam disfarçar a sua mentalidade racista, machista, homofóbica e eugênica.
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Um dos carros-chefe desses imbecis engajados é a página de facebook “Meu professor de História mentiu pra mim” que conta até esse momento com 59 mil seguidores (inclusive gente que um dia cheguei a achar que era inteligente e intelectualmente honesta. Ledo engano). Após o falecimento de Mandela eles postaram essa canalhice a seguir:

Primeiro cabe aqui uma refutação ao relincho argumentativo presente na imagem. Mandela lutou contra um regime político que estabeleceu a partir de 1948 uma brutal segregação racial. No rol de realizações deste regime estão a proibição de casamentos interraciais (1949), criação de espaços exclusivos para brancos e criação de um sistema de educação diferenciado que levava os negros a serem educados apenas para exercerem trabalhos braçais (1953);  tomou terras dos negros e forçou-lhes remoções forçadas. 
Placa delimitando o uso da praia exclusivamente para brancos na África do Sul
Para os direitosos errado estava ele Mandela em resistir ao Apertheid 
Daí passam a acusar Mandela de “terrorismo” (palavra que os reaças adoram) por liderar um grupo guerrilheiro que lutava contra esse regime. Talvez esses imbecis achem Mandela e os negros deveriam ter aceitado quietinhos a dominação branca e esperar pela “divina providência”. O fato é que diante de um regime violento e segregacionista não se pode condenar Madela por formar uma resistência armada. 
A postagem ainda termina relinchando que Mandela implementou um regime marxista na África do Sul ao virar presidente. Basta olhar que na África do Sul aconteceu na verdade uma enorme liberalização da economia, com venda de estatais, ataque aos direitos trabalhistas, impedimento da reforma agrária (bandeira histórica do partido de Mandela, o CNA) e aumento do desemprego e manutenção da desigualdade social.
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O uso da mentira como jogo argumentativo é um espetáculo de estupidez bem ao gosto das Olavetes. Além disso fica nítida a defesa que esses cretinos fazem de um regime de segregação racial (uma característica do fascismo é crença em “superioridades raciais”). Claro que é perda de tempo refutar esse monte de excremento pois os indivíduos que os pregam a torto e a direita não tem a menor preocupação com a verdade.

. “O fascismo é fascinante deixa a gente ignorante fascinada” (Humberto Gessinger)

Fenômenos como esse, onde grupos investem num pesado revisionismo histórico visando adequar fatos acontecidos para se tornarem legitimadores de suas crenças não são coisas novas, isso sempre ocorre em determinados momentos históricos. Os fatos históricos são explicados em moldes pré-prontos sempre vendendo respostas fáceis e falsas (não existe resposta fácil para temas complexos). O levante conservador no Brasil tem várias formas, ataca de várias frentes e tem em comum um ódio mortal contra o PT e demais partidos de esquerda (ódio que não é por questões éticas, pois silenciam quando direitosos do DEM, PSDB e congêneres são pegos em situações “pouco republicanas” como o “Trensalão Tucano”, “Mensalão do DEM” ou o “helicóptero do pó”), além de odiar abertamente o processo de inclusão social ocorrido no Brasil nos últimos 20 ano a acentuado nesses últimos dez anos do PT no poder. Tentam passar a impressão de que o Brasil era um país industrializado, socialmente menos desigual e com menos corrupção do que agora lá pelos anos da ditadura militar (outro aspecto fascista é acreditar que a democracia enfraquece a sociedade).

Esse levante conservador conta com figuras midiáticas que tem um certo destaque. Desde rockeiros decadentes com uma imagem que teima em ser “jovem” (Lobão, Roger), humoristas que adorampiadas racistas (Danilo Gentili), apresentadoras de telejornal cheias de “openeão” (Rachel Sheherazade), historiadores de ocasião (Leandro Narloch), “filósofos” que odeiam as faculdades e escolas (Luis Felipe Pondé e Olavo de Carvalho), líderes religiosos claramento racistas e/ou homofóbicos e machistas (Feliciano, Malafaia) entre outros. Em comum é que todos são propagadores de discurso de ódio as vezes velado, as vezes declarado.

A fixação desses indivíduos em deturpar a história não é nada mais do que uma tentativa de adequar os fatos com as suas ideias, não o contrário. A reescrita arbitrária da história é um fenômeno que sempre esteve presente em todas as ideologias radicais e em seus adeptos ignorantes, sejam eles de esquerda ou de direita. Daí esses babacas saírem dizendo que o Brasil está diante de um golpe comunista tramado pelo PT em parceria com Fidel Castro (é, eu sei que é ridículo, mas essas toupeiras gostam de propagar isso), que o Mais Médicos é um programa que visa infiltrar guerrilheiros cubanos no Brasil, que a ditadura militar foi de “esquerda” e que as redes de TV são todas “comunistas” (Inclusive Globo, Bandeirantes, SBT, etc.).
Mais do que isso essas figuras estão perdendo a vergonha em expressar os seus mais profundos preconceitos. O ódio que essas pessoas sentem dos discursos de inclusão social e o fanatismo imbecil adquirido com as suas pseudo-leituras os faz defender reacionarismos de fazer qualquer indivíduo com o mínimo senso de decência corar de raiva e vergonha.

A página deu mais uma mostra de que essa direita radical defende novos tipos de eugenia. Faz umas duas semanas quando fez um comentário sobre a novela das nove da TV Globo. Reproduzo o comentário aqui:

“Acabei de ser informado que a novela das 9 se passa em uma realidade paralela na qual obesidade e autismo são atributos de sexy appeal. O pessoal do politicamente correto tá no desespero mesmo!”

Diante da avalanche de comentários o cara ainda tentou se justificar com uma postagem que aumentava ainda mais a vergonha alheia. (veja aqui) (outro aspecto do pensamento fascista é a crença de que certos indivíduos são biologicamente “bem nascidos” enquanto outros não são)
Daí cabe pensar: o que dizer de um grupo que quer chamar de “liberdade de expressão” discursos de ódio e preconceito desavergonhado? 

Essa página não revela nada sobre história, revela sim muito sobre quem a acompanha. Se o indivíduo é alguém razoavelmente letrado e tem consciência das sandices que são divulgadas ali e mesmo assim as repercute então é uma figura com um nível estratosférico de desonestidade intelectual e moral. Se o indivíduo acredita seriamente no que encontra ali então é melhor evitar cair de quatro pois periga de não levantar mais.

Snif, Snif!!! O papa mentiu pra você também?

Pra encerrar vem aí aquela que eu considero a maior prova de desonestidade intelectual e do fanatismo destes indivíduos. Para quem não sabe a página “Meu professor de História mentiu pra mim” faz apologia declarada da Igreja Católica, o que de início não haveria nada demais. Eu mesmo, um ateu, tenho me percebido muito simpático a certos aspectos do catolicismo (como o de não deixar que sua fé e suas missas se tornem espetáculos midiáticos dantescos); mas a página tenta reescrever certos aspectos pouco elogiáveis do passado da Igreja. Os caras já afirmaram que a Igreja ordenou  queimar Galileu na fogueira por que ele “não seguiu o método científico” ou já fez a apologia ao Tribunal da inquisição chamando-o de “marco civilizatório”  (O mestre deles chegou a dizer que as mortes na fogueira não eram desumanas). Gastam tempo tecendo loas aos papas mais conservadores que manifestaram repúdio ao comunismo e ao ateísmo. Mas surge o Papa Francisco, ele mesmo o Mário Jorge Bergóglio, um papa que está saindo muito melhor do que a encomenda. Já oelogiei aqui no blog. 

Eis que Francisco faz uma exortação apostólica em que denuncia a vergonha do mundo capitalista atual, da falta de solidariedade e da busca por lucro desenfreado. Exorta sobre a falta de amparo aos desvalidos e sobre a insensibilidade dos mercados. Há trechos amplamente inspiradores, vejam:

“O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres”

“Alguns defendem (…) que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar.”

Qual foi a reação dos responsáveis pela página? Passaram a criticar o Papa Francisco. No blog de mesmo nome que a página há uma postagem com o singelo nome de “Bergoglio, uma decepção” onde chega a petulância de chamar o Papa de “vitima de uma epidemia mundial de burrice”. Para esses indivíduos o papa só é infalível (como afirma o dogma da Igreja) se defender um capitalismo destrutivo e desumano, se ele for progressista ele é indigno do cargo.

Essa mentalidade absurda que mistura mentiras, alienação, insultos e preconceito vem ganhando cada vez mais corpo nos dias atuais. O sinal amarelo acendeu.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CRISE NA IGREJA CATÓLICA E AS QUESTÕES SOCIAIS



NOTA: Aviso de antemão que minha opinião é a opinião de um leigo, nesse texto passo apenas minha percepção sobre a suposta crise do catolicismo nas Américas e Europa. Não encarem como um tratado baseado em extensas pesquisas e leituras, pois não é. Se não gostarem da minha opinião comentem rebatendo e instigando um debate.

CRISE NA IGREJA CATÓLICA E AS QUESTÕES SOCIAIS


Perdoem-me o determinismo marxista, mas uma coisa é fato: religiões prosperam e se sustentam enquanto sejam um braço ideológico das elites dominantes, e só. O enraizamento  das crenças religiosas estão ligadas a outros fatores muito mais políticos, sociais e econômicos e não apenas pelo poder de persuasão de suas doutrinas. Na verdade a religião serve como um bom justificador das regras sociais e da diferença de classes. Historicamente quando uma religião se choca com interesses das classes políticas e econômicas dominantes o destino é, quase inevitavelmente, um processo de decadência e perda de influência. Assim foi com a própria Igreja Católica, que ao se tornar entrave ao nascente capitalismo fez com que parte substancial das monarquias e da burguesia européia fosse entusiasta de um novo credo: o protestantismo (que desde o século XVI,época de sua fundação, vem sendo o algoz do catolicismo). Ao desafiar o centralismo dos reis e a força econômica da burguesia a Igreja Católica começou a tomar uns golpes bem pesados.
De lá pra cá a Igreja só perdeu espaço, as sociedades tornaram-se mais laicas, os países católicos capengaram tecnologicamente e a Igreja perdeu fiéis, muitos fiéis. De nada adiantou a Igreja tentar unir o ocidente em sua figura contra o comunismo, de nada adiantou a aliança com as ditaduras militares nas Américas, de nada serviram as TFPs, de nada adiantou a conivência com os regimes fascistas. O fato é que a Igreja Católica vem passando por um processo de perda de poder; um processo que é longo, em respeito a sua grandeza, mas que justamente por isso permite que se faça uma leitura “in loco” deste fenômeno.

É bom deixar claro que a crise da Igreja não se deve aos casos de pedofilia, estes são apenas reflexos da crise que passa a “barca de Pedro”, a questão é bem maior. Se escândalos determinassem por si só a decadência de uma instituição o PT jamais venceria eleições, a Universal não teria um único fiel e a FIFA não existiria mais.

O fato é que a crise da Igreja se torna mais evidente pelo fato de que com a vitória, talvez definitiva, do capitalismo liberal sobre a utopia socialista as elites que se apegavam a Igreja Católica como forma de manter o próprio poder e a coesão social simplesmente passaram a desprezar o poder do Vaticano. No mundo capitalista não há espaço para o comedimento econômico defendido pelos Papas, a lógica do capitalismo é o utilitarismo extremo e isso em todos os campos: nas leis, nas políticas públicas, nas formas de governo, nos planos econômicos, etc., tudo é pensado em garantir mais lucro, competição e em aumentar o abismo econômico entre as classes sociais e entre as nações.

Assim alguns dogmas de fé da Igreja tornam-se obsoletos para o mercado e são considerado um entrave para o sistema capitalista e para o clima de liberdade individual que se implantou no mundo ocidental.  Daí a dinâmica é simples: A Igreja é contra o aborto e a contracepção, mas as grandes nações querem famílias pequenas para gastarem menos com saúde e educação públicas; a Igreja quer limites para a pesquisa científica, o mercado quer que certas pesquisas sejam potencializadas (podem ser lucrativas para a indústria farmacêutica e alimentícia); a Igreja quer comedimento sexual dos mais jovens, o mercado lucra com a sexualidade; a Igreja defende o casamento tradicional, hoje o grupo social que valoriza o casamento são justamente os que são proibidos de casar: os gays.

É esse descompasso que faz com que a Igreja Católica tenha perdido poder nesses anos todos, os escândalos de pedofilia do clero são potencializados porque além de gerarem polêmica e audiência, pela importância milenar do catolicismo, nenhum meio de comunicação mantém laços financeiros relevantes com a Igreja Católica (mídia e jornalismo funcionam mediante dinheiro, ora bolas!)
Casos de escândalos financeiros e sexuais acontecem em todos os credos, afinal líderes religiosos também são pessoas normais e que, vez por outra, dão suas escorregadas. Mas é interessante pensar que, ao menos no Brasil, casos de escândalo sexual entre membros de religiões protestantes e afro-brasileiras é semelhante ao número de casos entre clérigos católicos (basta uma busca no Google pra saber, ou acessar o www.paulopes.com) mas a mídia repercute grandemente os casos que envolvam padres e bispos da Igreja de Roma. A resposta é simples: a Igreja Católica se recusa a dialogar com meios de comunicação privados e seculares, é como se pensasse que todos lhe devem reverência por sua importância histórica, mas a mídia pouco se importa com a História, importa-se com lucro. A Igreja Católica no Brasil resolveu divulgar suas doutrinas e sua visão dos fatos através de redes de TV próprias (Rede Vida, Canção Nova) e todas são retumbantes fracassos de audiência. Enquanto isso as Igrejas Protestantes praticamente garantem o lucro das grandes redes de TV (exceção da Globo) com a compra de horários de TV para pregação.  Assim as redes de TV, menos a Globo, não se interessam em noticiar os escândalos dentro de igrejas evangélicas com a mesma ênfase com que noticia os escândalos da Igreja Católica (já imaginaram quanta grana investem RR Soares, Malafaia e Valdomiro em programas de TV?).

A mídia é impiedosa com aqueles que não a sustentam...

A PUNIÇÃO
Quando se olha algumas das recentes decisões da Igreja fica difícil pensar em uma saída para a crise do catolicismo. A Igreja defende elites que não mais se importam com ela e tomou decisões teológicas e políticas (é sempre bom lembrar que o Vaticano é um Estado) que a afastou das grandes massas populacionais formada pelos mais humildes. O caso da condenação da Teologia da Libertação pela “Congregação para Doutrina da Fé” hoje se reflete na distância que as classes mais humildes alimentam com a Igreja

Talvez um dos movimentos mais interessantes dentro da Igreja Católica nos últimos 50 anos tenha sido a Teologia da Libertação. Muito famosa na América do Sul e Central, a TL pregava uma visão mais social-crítica das palavras de Cristo, defendia que o católico não deveria se prender apenas ao lado metafísico da vida espiritual, mas usar os princípios cristãos, aliados a conhecimentos sociológicos e políticos, para tomar partidos dos mais pobres e oprimidos (como, talvez,  Jesus faria). Assim a Igreja deveria tomar partido em favor dos movimentos sociais por terra, moradia, alimentação e democracia, deveria ser uma força social que lutaria por mudanças sociais positivas para os mais pobres.

Lógico que a tradição elitista da Igreja Católica, bem como o conservadorismo político de João Paulo II (ele uma vítima da ditadura socialista na Polônia), acabou se refletindo na condenação do movimento político-teológico e com a excomunhão de vários de seus líderes, entre eles Leonardo Boff (hoje um “popstar” do pensamento de esquerda). Outros, como Frei Betto, não foram excomungados mas saíram da linha de frente da Igreja no Brasil que mergulhou num profundo conservadorismo (vide as posições da CNBB nos últimos anos sobre alguns temas políticos e ao fato de Frei Betto hoje ser mais considerado mais um “padre petista” do que um “padre católico”).

Assim diante das crises sociais que se seguiram a Igreja ficou do lado dos dominadores que a desprezam, não dos rebelados que lutavam por direitos ou mudanças sociais. A Igreja acompanhou o processo de criminalização dos movimentos sociais promovido nos anos 80 e 90 promovidos pelos grandes países capitalistas e que depois foi exportado para os países pobres, especialmente das Américas do Sul e Central. A condenação da Teologia da Libertação afastou a Igreja dos movimentos sociais e das massas excluídas e a transformou num peso morto nas questões políticas.


Hoje a Europa que passa por profundas crises sociais é o mesmo continente onde as paróquias fecham por falta de fiéis; onde toda uma juventude preocupada por seu futuro, devido a precarização das condições de segurança social no continente, protesta e sai as ruas contra toda uma estrutura de poder e a Igreja em nada pode fazer em favor deles, pois escolheu o lado errado pra apoiar. Esses jovens simplesmente não enxergam  a Igreja como aliada nas suas lutas. Ao condenar movimentos que usavam o cristianismo como forma de questionamento social a Igreja Católica afastou os jovens politizados e perdeu a chance de ser um moderador que poderia conter a fúria que hoje varre as ruas da Europa.

A falta de coragem em tomar partido em favor dos mais fracos, como Cristo faria (eu acho), fez a Igreja perder  contato com aqueles que vivem a realidade na prática.

SOBRE A RENÚNCIA DE BENTO XVI
O irônico é que a crise entre a Igreja e a sociedade, que hoje explodiu nas mãos de Bento XVI, tenha um pouco de culpa do próprio Ratzinger. Ele mesmo comandou o processo de condenação da Teologia da Libertação em 1984 e 1986, e hoje se diz fragilizado em sua saúde para cuidar da Igreja frente aos “enormes desafios de um mundo em transformação”. 

Talvez fosse mais fácil, mas não dá pra consertar certas coisas do passado.

sábado, 5 de janeiro de 2013

AS FALÁCIAS SOBRE HITLER E O USO DESRESPEITOSO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO




O conhecimento médio dominante sobre Hitler é mais baseado numa antipatia (justa) criada pelas escolas, meios de comunicação, etc.  do que se baseia em um entendimento sobre o que realmente foi o fascismo/nazismo enquanto doutrina social e política. Hitler é visto como um psicopata sanguinário e preconceituoso que empreendeu as políticas de eugenia e de genocídio apenas por que era mal e por ter conseguido, apenas por sua impressionante retórica manipular os sentimentos de uma nação inteira, a Alemanha, mobilizando todo um povo em seus nefastos ideais. 

 Nada mais superficial e mentiroso. Não que Hitler fosse uma “boa pessoa” ou alguém  sem poder de convencimento (muito pelo contrário), mas essa interpretação com ênfase exagerada na pessoa de Hitler e em seus caprichos enquanto indivíduo  mostra apenas que para que uma idéia se cristalize na cabeça das pessoas basta apenas contar com ajuda de maus professores de História (daqueles bem decorebas), de um sistema de educação que valoriza apenas o acúmulo de informações sem a discussão crítica das mesmas,  e, por conseqüência disso,  com a nossa característica comum de achar que os grandes acontecimentos históricos, bom ou ruins, são frutos apenas de um ato de vontade de “grandes homens”. Pessoas sem capacidade de entender contextos sociais e históricos sempre cairão na armadilha intelectual de buscar respostas simples, confortáveis e, logicamente, falsas para temas que gerem questões muito complexas.

Essa incapacidade de analisar as coisas fugindo de simplificações grosseiras faz com que a percepção coletiva sobre os fatos históricos seja um enorme balaio de gatos onde tudo importa menos a verdade. Essa memória acaba sendo usada para que um monte de espertalhões defensores das piores ideologias criem a aparência de que suas conjecturas tem raízes históricas ou que são baseadas em fatos reais vivenciados pelos seres humanos em alguma determinada época da história. E esses espertalhões adoram Hitler e precisam dele para justificar suas idéias assim como precisam de água para viver, ainda que aparentem não compactuar com nenhum princípio do nazismo (pelo menos não declaradamente).

O fato é que essa memória histórica que hoje se mostra dominante sobre Hitler fez com que a população desinformada sobre o tema vincule a Hitler qualquer postura ou comportamento considerado ruim (qualquer mesmo). Daí surge a mais calhorda das falácias que é a idéia que se Hitler defendia uma coisa ela de antemão já seria ruim e deveria ser rejeitada; o detalhe fica pelo fato que na grande maioria das vezes Hitler não defendia essas idéias, mas uma enorme parte dos espertalhões estabelece essa ligação na tentativa de descredenciar argumentos contrários aos seus.

A partir daqui mostro algumas das falácias sobre Hitler muito usadas em debates por espertalhões, algumas dessas falácias são tão ridículas e na mesma medida são populares, e sobra gente que engula isso:

Falácia 1: “COMUNISMO E NAZISMO SÃO A MESMA COISA. O PARTIDO DE HITLER SE CHAMAVA ‘PARTIDO NACIONAL SOCIALISTA ALEMÃO’, LOGO O NAZISMO É DE ESQUERDA”

Essa falácia chega a ser ridícula, o nazismo, assim como as demais variações do fascismo, são ideologias anti-socialistas. O discurso anti-socialista serviu como chamariz para o partido conseguir a simpatia, e vultosas doações financeiras de banqueiros e industriais alemães, vale lembrar que na Alemanha a ação dos comunistas por pouco não rende uma revolução logo após a I Guerra Mundial, o que explica o temor das elites alemãs da época. Na intenção de concentrar poderes na mão do partido nazista e eliminar a oposição comunista o governo de Hitler atribuiu a “judeus-comunistas” o incêndio do Parlamento Alemão (Reichstag).

O comunismo foi o “outro” do qual o regime se utilizou para mobilizar a nação contra um suposto inimigo comum e pelo qual manteve a população em permanente estado de tensão.

Muitos citarão o pacto de não-agressão entre Hitler e Stalin (“Pacto Ribentrop – Molotov”) alegando haver alguma proximidade entre os regimes, mas uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. O pacto de não-agressão entre Alemanha e URSS tinha objetivos estratégicos, especialmente para os alemães que depois romperam esse pacto durante a II Guerra Mundial e invadiram a URSS. De forma alguma esse pacto pode ser entendido como um acordo de cooperação mútua e de cumplicidade ideológica entre os regimes.

Falácia 2: “HITLER ERA ATEU”

Hitler teve uma criação católica, recebeu crisma e estudou em colégio beneditino. Alguns biógrafos dizem que na sua adolescência teve contato com a mitologia pagã germânica o que o supostamente a desenvolver uma posição negativa quanto ao cristianismo. O fato é que Hitler sempre se mostrou em público como um cristão, seu livro Mein Kampf (Minha Luta) Deus é citado várias passagens (http://www.paulopes.com.br/2012/09/as-reverencias-a-deus-feitas-por-hitler.html#.UOTpwaz5PdM) e as falas são contundentes no sentido de legitimar o nazismo utilizando-se da fé cristã.

É bom lembrar também que o anti-semitismo alemão tem origens que passam muito além do período de domínio político do partido nazista. Lutero no século XVI já se mostrava como claro anti-semita e é inegável sua influencia na cultura alemã em vários sentidos (lingüístico, social e religioso)

Essa falácia só expressa um preconceito nojento contra os ateus. 

Falácia 3: “HITLER PERSEGUIU AS IGREJAS E ERA ANTI-CRISTÃO”
Essa fala é controversa. A perseguição nazista não respeitava a questão religiosa: quem não tinha 100% de fidelidade ao governo, ou não era ariano puro, ia pra vala independente do credo. O fato é que Hitler tentou criar uma Igreja oficial do estado, o programa do partido Nazista diz em seu parágrafo 24 que o partido adota os princípios do “cristianismo positivo”.

Claro que existe um evidente contracenso em que o partido Nazista afirma adotar princípios do cristianismo mesmo com Cristo sendo judeu, mas o anti-semitismo na Alemanha tem forma perceptível desde a Reforma Protestante pela ação de Martinho Lutero (um ferrenho anti-semita)

Lembrem-se também da famosa concordata assinada entre Hitler e o Vaticano, a Reichskonkordat, onde a Igreja Católica, para manter intacta sua participação na sociedade alemã, assume o compromisso de que seus clérigos jurarão fidelidade ao Reich e ao Führer. ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Reichskonkordat )

Engraçado que o Papa Bento XVI, ex-membro da juventude Hitlerista (porque era obrigatório a todos os jovens alemães da época, é bom deixar claro), afirmou que o nazismo foi uma tentativa de retirar Deus do seio da sociedade, mesmo com a Igreja Católica tendo silenciado com as implicações do regime de Hitler na Alemanha e ter tido uma amizade ainda mais profunda com o regime de Mussolini na Itália (o pioneiro dos regimes fascistas). Não dá pra esperar desse sujeito muito compromisso com a verdade... (http://www.paulopes.com.br/2010/09/papa-associa-o-extremismo-ateu-tirania.html#.UOTqdaz5PdM

Aqui no Brasil a última vez que ouvi alguém falar que Hitler perseguia Igrejas cristãs foi num programa do pastor Silas Malafaia (não encontrei o vídeo), o que só mostra a desonestidade intelectual desse sujeito. O pastor-deputado Marco Feliciano, assim como Malafaia, tenta comparar a luta pelos direitos homossexuais com essa suposta perseguição nazista, repetindo o abuso sobre o conhecimento histórico que expressamos na imagem que abre esse post. Vigarice pura! ( http://www.marcofeliciano2010.com.br/?p=1459 NOTA: Marco Feliciano, Malafaia e seus asseclas chamando alguém de fascista é igual a um batedor e carteira gritando “pega ladrão”) 

É de bom grado lembrar que as relações entre Hitler e as Igrejas nem sempre foi pacífica e a tentativa de criar uma “Igreja Oficial do Reich” encontrava resistências dentro das Igrejas Luteranas diversas, muito mais pela falta de liberdade doutrinária do que por repudiarem os rumos tomados pelo regime.

Falácia 4: “HITLER DEFENDIA A RESTRIÇÃO DO USO DE ARMAS DE FOGO PARA OS CIDADÃOS”

Não sei dizer se essa afirmação é verdade. Ví nos últimos dias no facebook uma postagem que atribuía a Hitler uma frase onde expressava o seu interesse em manter cidadãos de povos dominados sem direito a porte de armas pois isso facilitaria a manutenção da dominação. Não sei dizer se a frase realmente é de Hitler e se ele se opunha ao livre porte de armas, mas mostra mais um aspecto do uso de Hitler e do Nazismo como argumento: a busca de uma reação muito mais emocional do que racional. Se Hitler era contra o porte irrestrito de armas isso nada significa ( que o desarmamento seja algo bom ou ruim). Países como Japão e Inglaterra promoveram campanhas de desarmamentos muito bem sucedidas e não me parecem nações adeptas do nazismo.

...

Por enquanto é só, talvez quando eu estiver com mais paciência eu melhore esse texto

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Desacordo Moral Razoável

Na linguegam jurídica se entende Desacordo Moral Razoável como: "termo cravado pela filosofia, constitui-se perante a ausência de consenso sobre uma questão polêmica cujos argumentos antagônicos são, ambos, originados de uma conclusão racional.".
Na verdade escolhi o nome por achar bem sonoro, nem sabia o significado quando tive a idéia do blog. mas depois que soube do que se tratava achei muito bom o nome.
Os temas do blog se resumirão a Futebol (leia-se: Santa Cruz Futebol Clube), Política, Literatura, História, Comportamento, Educação e o que mais me der na telha sempre trazendo uma visão controversa de tudo.
Uma coisa eu prometo: esse blog não será um espaço para desabafos adolescentes, já tô (muito) velho pra isso.

Valeu então, uma rodada de Reinekken pra comemorar.