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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Nós vivemos na revolução


Para um cético convém pensar que não existem forças místicas, espíritos, feitiços... não faz sentido achar que existe algo sobrenatural guiando a história e a vida dos indivíduos, a realidade basta e só.
Depois de ontem eu começo a rever meus conceitos. Se existir uma força mística poderosa ela reside no Santa Cruz Futebol Clube; se existe um espírito por trás da história, como acreditava Hegel,  ele se apresenta na massa coral unida no Arruda.

Fico a pensar como conseguimos subir de divisão ontem. Temos um time limitado até para uma série C (Sampaio Correia, Fortaleza, Luverdense, Macaé formaram times bem mais equilibrados e qualificados que o nosso), um time que as vezes parece dormir em campo, outras vezes parece sentir o peso da responsabilidade de vestir o manto coral e desaprende a jogar. Nossos zagueiros viciam-se em chutões a esmo, nossos volantes marcam mal, nossos atacantes são puros caneleiros (O único diferenciado, Denis Marques, entrou de férias em abril e não voltou mais).

Ontem o time desaprendeu a jogar mais uma vez, tomou pressão, foi acuado; parecíamos um boxeador fulminado por socos demolidores preso a um corner, mas que se recusava  a cair. Não caímos.
As 60.040 vozes levantaram o time do chão, nos levaram a uma vitória épica que denuncia a existência de um espírito que move a história.

Existe uma revolução esperando a acontecer, a revolução definitiva da história, aquela que jamais será derrubada. Essa revolução é tão grande que não há ainda como descrevê-la, só se pode senti-la. Ontem no Arruda estiveram reunidas todas as raças, credos e estratos sociais. Milhares de histórias de vida díspares se uniram para expressar um sentimento que vem se acumulando de geração em geração, de época em época. O espírito da história esteve presente ali.

Ali estiveram os Incas, Maias e Astecas que foram dizimados pelos colonizadores espanhóis, estiveram aqueles que foram torturados nos porões, os prisioneiros dos Gulags stalinistas. Esteve ontem no Arruda a força dos primeiros cristãos que eram devorados pelos leões no coliseu romano, dos irmãos Caio e Tibério Graco que morreram lutando pelo sustento da plebe romana, dos escoceses que lutaram ao lado de William Wallace por um país livre contra a tirania dos ingleses. Ontem no Arruda o sangue escravo derramado para que se construísse o Brasil esteve em cada uma das vozes presentes.

Amigos, existe uma revolução que reside dentro do Santa Cruz. Uma revolução que fará justiça a todos aqueles que um dia sucumbiram diante da tirania, das ditaduras, dos genocídios, da fome. Essa revolução é tão grande, mas tão grande, que não há uma única palavra capaz de descrever ou de imaginar como ela será. Por isso ela é expressa através do grito ensandecido da massa tricolor, da sensação de alívio e vitória que sentimos ontem.
Carregamos o peso de milhares de anos de história nas costas, temos a obrigação de fazer justiça.

Ontem antes do jogo no Recife havia o clima das mais emocionantes utopias, pessoas desconhecidas se cumprimentavam e se abraçavam, milhões de pessoas formavam um único corpo. Até nossos adversários nos cumprimentavam e desejavam boa sorte com enorme sinceridade. Os velhinhos sorriam nas calçadas de Olinda, as mulheres estavam mais bonitas, os homens mais confiantes; haviam oceanos de sorrisos nas ruas. A alma do povo estava ali.

Por um dia não haviam ricos nem pobres, por um dia parecia não haver miséria,  parecia não haver violência. Havia um nível de fraternidade sem precedentes na capital pernambucana.


Agora sei porque Robespierre, Lênin, Mao, Che, Fidel não conseguiram fazer revoluções realmente populares: eles não conheciam o Santa Cruz. Não entendiam a alma do povo, aquela que vai fazer a revolução definitiva.

Não sei como será essa revolução, mas sei que ela esteve lá ontem.


sábado, 3 de agosto de 2013

A solução para o Santa Cruz é ir na contramão do processo de fascistização.



O futebol tornou-se algo muito caro, proibitivo para os mais humildes, e isso é mal para o esporte. Está acontecendo uma nítida inversão na função social do futebol. Antes o futebol era um esporte nitidamente popular, os estádios enchiam com mais facilidade (apesar das péssimas instalações) e o povão era a cara dos estádios. Os estádios eram multirraciais e, dentro de certos limites, um espaço que unia pobres e ricos ainda que os ricos ficassem nas cadeiras numeradas e os pobres ralando a bunda no concreto da arquibancada. O fato é que o futebol era popular no melhor sentido do termo: ele era de  TODOS, do pobre, do classe média e do rico

Hoje  o futebol afastou-se das pessoas e tornou-se algo caro. Os altos investimento trazidos pela Copa e pelas tentativas de profissionalização das gestões dos clubes encareceram o espetáculo. As altas cotas de TV inflacionaram a receita dos clubes e os salários dos jogadores e todos correram atrás de quem tem muito pra gastar: a elite. E a espiral inflacionária do esporte perdeu o controle de vez.
Hoje uma camisa oficial de um clube de massa, mesmo um da série C como o Santa Cruz, custa em média uns R$ 170,00 (1/4 do salário mínimo), um ingresso mais barato nessas novas arenas não fica por menos de R$40,00. É algo proibitivo, ponto.

 Imaginemos que um indivíduo sem carro quer ir ao estádio com dois filhos no setor mais barato atual (3 ingressos= R$ 120,00), tivesse que pagar passagem de ônibus de ida e volta (gastaria pelo menos uns R$ 18,00, ou mais)e tivesse que comprar refrigerante e cachorro quente pelos preços módicos cobrado no estádio (calculo o gasto em uns R$ 40,00 se o cara for pão-duro). Só aí iriam embora, por baixo, uns R$ 178,00, num único jogo. Até para um membro da classe média-alta esse valor impediria idas freqüentes ao estádio com a família, imaginem então para aqueles com uma renda  de classe C ( que segundo a consultoria Target fica em torno de entre R$ 2.330 a  R$4.500).

As rendas dos jogos hoje são verdadeiros insultos, só o Atlético MG arrecadou 14 milhões de reais em um único jogo da final da Libertadores (só a título de comparação o Santa Cruz teve um orçamento de 14 milhões durante todo o ano de 2012).
Pode-se dizer que a renda dos jogos obedece a lei do mercado, mas isso é balela, a intenção é nitidamente excluir o pobre do estádio. Senão vejamos: qual jogo com pouco apelo midiático, tipo um jogo de meio de semana em campeonato estadual, teve seus ingressos barateados para se adequarem com a demanda e todos pudessem comprar? Você lembra de algum? Eu também não!

O futebol como produto busca a atenção daqueles que tem maior poder aquisitivo. Não importa que os estádios estejam vazios na maioria das vezes, desde que quem compareça compense a ausência do povão. O povão é descartável. Povão não compra camisa oficial por 170 pilas, não pode pagar 40 contos num ingresso duas vezes por semana. Povão não compra o produto anunciado nos patrocínios das camisas. O povão virou indesejável. As consultorias futebolísticas em marketing já pouco se importam com o tamanho das torcidas, mas com o poder financeiro delas.

É um cenário desolador e, danem-se, é fascistóide (não me venham com meias palavras, é fascismo puro).
Logo surgem jornalistas que comemoram a elitização e tentam dizer que o problema não é do futebol e sim da sociedade. Mas se esquecem que entregar o preço dos ingressos para a  simples lei do mercado é, de fato, punir o pobre que é apaixonado por futebol. E o interesse social fica aonde? Só com uma mentalidade preconceituosa e elitista (portanto fascista) é que se defende que futebol seja consumido somente pelos ricos. Hoje o futebol é o cartão de visitas da elite mesquinha que não suporta mais o discurso de inclusão social que até a pouco era dominante, e que está sofrendo uma enorme oposição sendo combatido no campo da política e da imprensa. 

ONDE O SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE ENTRA NESSA?
O Santa é a torcida mais popular do Recife, é o time dos pobres. Isso está impregnado na imagem pública do time. Não é difícil perceber isso na realidade. Nos bairros mais elitizados é possível contar nos dedos quem é torcedor do Santa, a elite recifense me parece tomada por torcedores do Sport e Náutico (apesar de morar na região agreste do estado e visitar o Recife apenas sazonalmente, justamente para ver o Santa jogar, não acredito que esteja errado em minhas impressões). Se o Santa tentar jogar o jogo da elitização do futebol, nunca vai sair de seu lugar.

O poder financeiro está concentrado em alguns poucos clubes do Brasil, especialmente nos fundadores do finado Clube dos 13. Times como Corinthians e Flamengo jamais vão aceitar uma divisão mais igualitária das receitas, outros clube terão que se rebolar para formar times competitivos. Dependerão de um mecenas super rico como a Unimed (Fluminense) ou vão estourar as próprias contas para conseguir grandes títulos (Atlético-MG) ou ainda vão se tornar reféns de empresários do ramo da bola que desfazem os times na intenção de lucrar com a venda jogadores (Palmeiras, Botafogo, Vasco, Bahia, entre outros).
Diante disso o Santa Cruz tem que criar um nicho de mercado que tende a virar quase que exclusivo seu: as classes populares. 

O maior destaque do Santa Cruz na mídia nacional foi justamente pelo fato da equipe lotar estádios. Quando caímos na primeira fase da Série D em 2009 tivemos uma matéria no Jornal Nacional, em 2011 a matéria serepetiu celebrando nosso acesso. Jornais internacionais repercutem matérias sobre nossa torcida. Já tivemos reportagens nos maiores jornais Italianos, Espanhóis e Ingleses (A terra da rainha é a Meca do jornalismo esportivo) sempre tendo como foco principal nosso estádio cheio e a paixão de nossa torcida formada majoritariamente por pobres. 

Num meio onde a elitização deixa os estádios vazios na grande maioria dos jogos, um clube que leva multidões ao estádio é uma pauta fenomenal para os jornais de todo o Brasil. Quem se interessa por uma 4º divisão, ou por uma 3º divisão? Ninguém, a não ser que o Santa Cruz e sua torcida estejam lá (você guarda na memória os campeões da Série D? Duvido!). Com reportagens como essas o nome de nossos patrocinadores é divulgado no Brasil e fora dele, o que torna o clube numa vitrine confiável para a marca e isso atrai mais investimentos.

Um primeiro passo é se livrar do programa “Todos Com a Nota”. Sim!!!. Sei que parece um contrassenso, mas é que o TCN cria uma cortina de fumaça nesse processo de elitização. O negócio então é baixar o preço do ingresso em todos os setores e fazer com que a turma mais humilde possa pagar para ir ao estádio.
O Santa Cruz pode iniciar esse processo com seus próprios sócios. No momento em que escrevo esse texto o Santa Cruz conta com 13.000 sócios em dia (o maior contingente entre os times da série C). Uma boa idéia era colocar pacotes de ingressos para jogos com pouco apelo a preços bem baratos, para equilibrar a demanda. Um exemplo: vender aos sócios um pacote para os 3 jogos da fase inicial da Copa do Nordeste 2014 ao  preço de RS30,00 (média de 10,00 por partida) e para os 5 jogos contra os times do interior no estadual por R$ 35,00 (média de 7,00 por partida). Imaginemos que 10.000 sócios comprassem esse pacote, e que uma parte desses sócios comprassem também para seus dependentes (se não me engano cada sócio do Santa pode comprar até 4 ingressos de uma vez), teríamos algo em torno de 25.000, ou mais, torcedores garantidos nos jogos, e isso sem contar o público não-sócio que compraria por meios tradicionais. Seria uma grande demanda de público para jogos que antes eram sem apelo devido ao preço das entradas. 

Alguns poderão argumentar que isso reduzirá o lucro com as bilheterias, mas isso é balela da grossa já que jogos de fase preliminar e contra times do interior NUNCA  deram lucro a clube algum. Claro que nos clássicos o preço teria uma subida substancial para se adequar com a demanda (um clássico no Recife com ingresso a 10 reais precisaria de um estádio de uns 200.000 lugares para suprir a procura, não estou exagerando)

Lógico que não é só a questão do ingresso que conta. O clube tem que ter uma política vantajosa e eficiente para atrair novos sócios e manter os antigos, tem que melhorar as instalações do estádio e a logística nos dias de jogo. É todo um conjunto de coisas, mas que parte de um processo de popularização para dar certo.

Um exemplo de como a participação popular nos estádios é importante é só pensar no caso do Internacional. Os caras tem 100.000 sócios em dia, o que mantém o clube cheio da grana e formando times competitivos, mas os estádios vazios e isso acaba agregando pouco a imagem do clube. O Corinthians tem metade disso mas lota o estádio até em amistoso, a imagem nunca se desgasta e dá uma maior credibilidade ao clube, hoje ninguém sequer chega próximo do valor da “marca Corinthians”.

O desafio está lançado ao Santa, se quiser continuar dançando a dança do mercado vai perder o bonde, até em Pernambuco o mercado dá sinais de preferir Sport e Náutico devido ao apelo elitista. Mas se quiser desafiar essa lógica e cobrar ingressos a preços acessíveis o Santa pode se beneficiar da repercussão midiática e poderá renegociar patrocínios e cotas de TV ( o impacto nas audiências seria nítido já que o jogo com muita torcida chama a atenção até de quem não torce por nenhum dos times). Isso aumentaria a receita do clube substancialmente, poderíamos formar times competitivos e dominar um nicho de mercado que todos os demais clubes esqueceram.

Só popularizar é claro que não resolve, mas é uma questão estratégica reposicionar a marca Santa Cruz. Isso não significa desprezar a elite que gosta de futebol, com preços baixos ela consumirá ainda mais o espetáculo. O torcedor do Santa tem a marca de não ter preconceito de classe, logo os torcedores corais endinheirados (eles existem e também são um grande mercado) vão se empolgar com a mobilização e consumir ainda mais avidamente a marca do clube e isso será um grande negócio.  

O Santa Cruz Futebol Clube não pode cair nessa armadilha que os clubes estão caindo em ceder 80% do estádio para a elite e apenas 20% ao povão, tem que fazer justamente o contrário.

É desafiando o mercado que conseguiremos entrar soberanamente nesse mesmo mercado.




Post dedicado ao amigo Walter Miro, um jornalista que discute o futebol para além de saber se foi ou não impedimento.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O inferno somos nós, não os outros




A desclassificação do Santa Cruz na Copa do Nordeste, com um gol aos 46 minutos do segundo tempo, onde, jogando em nosso estádio com mais de 30.000 torcedores apoiando, encostamos a bunda na parede durante os últimos 45 minutos é sintomático dos rumos que anda tomando a trajetória do Santa Cruz Futebol Clube.

Os últimos 20 anos tem sido difíceis de engolir o que vem acontecendo com o Tricolor da Beberibe. Se fosse um clube qualquer (tipo Sport ou Náutico) já teria fechado as portas. O Santa não fechou, nem vai fechar, porque é eterno. Mas  o clube tem vivido uma via-crucis que parece tão eterna quanto o clube; vez por outra parece que a maré vai mudar, mas é só ilusão.

O culpado disso:  o “coitadismo” que se instaurou no clube nessas últimas duas décadas, um legítimo “complexo de vira-latas” no melhor estilo Nelson Rodrigues.

Desde a década de 1990 o discurso dos dirigentes e de grande parte dos torcedores do Santa Cruz se resume a colocar a culpa nos outros e principalmente nas circunstâncias. A mentalidade geral é: “quando as circunstâncias permitirem o Santa volta a ser vencedor”.

Por mais que se diga que a divisão das cotas de Tv são injustas, que o finado Clube dos 13 entupiu o Sport de grana e nos afundou na escassez financeira, que o Sport vetou nossa entrada no clube dos 13 em 2001 (numa amostra clara do medo e do rancor que alimentam contra nós), é preciso ter em mente que a culpa está no próprio Santa Cruz. Está em seus dirigentes provincianos e no vício de nossa torcida em acreditar nestes cartolas que posam de “heróis redentores”.

Na tentativa de mostrar algum serviço os dirigentes corais investiram em caminhos errados, em expedientes ridículos que serviam para tentar “tapar o sol com a peneira”. Contratavam “jogadores bombas” como Mancuso em 1998 e Iranildo em 2004 na intenção de ludibriar o torcedor e fingir serviço, mas eram incapazes de montar equipes equilibradas e manter os salários em dia; as campanhas de sócio não tinham continuidade nem profundidade; viciaram o clube no dinheiro nas rendas dos jogos. A maior piada foi quando o presidente Jonas Alvarenga montou um time apenas com “atletas de Cristo” em 2000, independente da qualidade o importante seria ter fé. Resultado: ficamos em último lugar naquele brasileirão.
Até quando vencia o clube era sucateado: na gestão de Romerito Jatobá ganhou um Pernambucano, subiu para série A, e estranhamente o clube não pagava ninguém, devia salários e mais salários e as suspeitas de negócios “duvidosos” pairavam sobre o Arruda (pesquisem o caso Rovérsio).
A gestão de Edinho nem é preciso falar do desastre de dois rebaixamentos seguidos e a entrada na série D.

Nas vitórias que o Santa conseguiu nesses últimos anos parecia mais que as camisas jogavam sozinhas, pois a qualidade dos jogadores era sofrível.

A gestão de ALN parecia mudar o panorama do Santa, parecia que íamos virar um clube de verdade outra vez. Parecia...

O bicampeonato estadual, conquistado na base do planejamento de futebol de alto nível, e a subida de divisão da série D serviram para causar a impressão de que o Santa ia tomar jeito, mas a mentalidade provinciana continuou dando as cartas: cambistas mandando na venda de ingressos, programa de sócios defeituoso, ingressos para jogo de série C com preço igual ao de jogo da série A. No futebol a falta de pulso com os desmandos  de Zé Teodoro no fim de 2012 resultou com a desclassificação vergonhosa na primeira fase da série C.

Essa derrota agora na Copa do Nordeste reflete essa mentalidade provinciana, esse coitadismo, esse complexo de vira latas, essa nossa incapacidade de admitir e tomar atitudes contra os problemas do clube.
Quando a administração é ruim e covarde isso se reflete dentro do campo, pois as contratações, o planejamento, o ambiente do clube refletem essa covardia. Derrotas acachapantes e vergonhosas como essa do último domingo, ou como a final de 2004 contra o Náutico, ou a decisão de 2006 contra o Sport, ou mesmos as vergonhosas desclassificações para times desconhecidos na Copa do Brasil, refletem  a falta de coragem , de valentia e de organização das gestões que passaram pelo Santa nos últimos 20 anos.

Clubes bem dirigidos, com gestões arrojadas e que inspiram confiança, formam equipes vencedoras, conquistam títulos e atraem mais lucros e investimentos.

O Santa Cruz tem a massa de torcedores mais apaixonadas do Brasil, é recordista de venda de ingressos, tem um estádio grandioso que quando lota (o que é freqüente) faz o clube ganhar mídia no Brasil inteiro. No entanto não tem uma campanha de sócios decente, não tem uma estrutura decente, nem trata seus torcedores de forma decente

O problema do nosso clube não está na Rede Globo, não está na Federação Pernambucana de Futebol, não está na CBF. Está no próprio Santa Cruz.
Cabe a nós fazê-lo mudar.  Eu farei minha parte cobrando, apoiando muito nas arquibancadas, comprando produtos oficiais e, acima de tudo, exigindo que gente comprometida com o clube ocupe a cadeira de presidente.

O Santa Cruz é minha pátria


domingo, 3 de fevereiro de 2013

O dia 14 de Março de 2001




Eu não nasci tricolor coral das bandas do Arruda, triste destino. Durante a mais tenra infância até a adolescência fui doutrinado por meu pai a torcer pelo Palmeiras, tinha camisa, boné bandeira, etc. Meu pai me levava para ver o time palestrino em todos os jogos próximos, em 1993, então eu com 9 anos, meu pai me levou pra assistir em Salvador uma final de Campeonato Brasileiro entre Palmeiras x Vitória. O velho era, e ainda é, viciado no Palmeiras, herança dos seus tempos de metalúrgico em São Paulo no fim dos anos 70.

Amo muito meu velho, e guardo com carinho os jogos que fui com ele, menos pelo Palmeiras e mais por ter estado perto do meu pai nesses momentos que ele valorizava, mas não posso negar que minha vida futebolística sem o Santa Cruz Futebol Clube foi uma grande perda de tempo.
Nasci nos tempos que as parabólicas invadiram o interior do Nordeste, daí só dava pra ver o futebol de Rio e de são Paulo mas quando chegou aos meus 15, 16 anos a coisa começou a ficar muito sem graça. Comecei a achar ridículo torcer pra um time do sul, sentia-e colonizado pela mídia sulista, passei a ficar meio decepcionado com futebol. 

Até que no dia 14 de Março de 2001 eu encontrei aquilo que me faltava...

O campeonato Pernambucano daquele ano tava quente, atraindo público, e eu resolvi assistir os jogos do Central pra ter o que fazer em Caruaru quando matava as aulas no colégio. Numa terça-feira havia o jogo do time do povo, no dia anterior as camisas corais enfeitavam a rua, os alunos do Sete falavam tanto sobre a partida que me animei e resolvi ir. Um colega meu me falou:

                - Tu vai ver a torcida mais bonita do mundo hoje 

Ele não poderia estar mais certo. Chegando no estádio passei a me impressionar com a vibração daquele povão vestido de encarnado-preto-branco, com a maneira carinhosa e apaixonada como se referiam ao Santa cruz FC. Na arquibancada lotada do estádio Lacerdão em Caruaru eu já estava envolvido pela massa, a pele arrepiava com os cantos da torcida. O mais interessante era ver quem fazia parte daquela multidão: gente de todas as classes, de todas as raças. Haviam naquela arquibancada ricos que haviam comprado a camisa oficial no dia do jogo e pobres que tinham a mesma camisa pirata surrada de anos, todos se abraçando, cantando as mesmas canções, comendo espetinho e tomando Pitú. O Santa faz o mais rico aristocrata sentir-se feliz por ser povo...

A partida começa e ao meu lado na arquibancada há um senhor idoso, grande barba grisalha, usando uma camisa tricolor muito antiga e de um tecido grosseiro, cabelos crespos e muito curtos. As marcas de expressão no rosto e um olhar distante denunciavam que aquele homem já havia visto e vivido muita coisa na vida. Era nítido que se tratava de alguém muito pobre, mais um da massa de excluídos do país. Ficou ao meu lado e permaneceu calado durante todo o primeiro tempo mas com os olhos vidrados em campo. Chega o intevalo, ofereço um espetinho, e ele aceita satisfeito, agradece a gentileza com um gesto de cabeça mas permanece calado. Passo o intervalo escutando os torcedores corais reclamando do time e do jogo que se arrastava em 0x0. 

Começa o segundo tempo, o povão se agita o Santa Cruz melhora e aos 9 minutos a arquibancada explode num barulho ensurdecedor, Santa faz 1x0. Nesse momento o pobre velho ao meu lado se abraça comigo e grita:
                - Gol do Santa, meu filho!!!!!Gol do Santa!!!! Graças a Deus!!!  Graças a Deus!!!!

Quando me recomponho da alegria do gol olho para o velhinho e ele chora emocionado, as lágrimas descem fartas de seus olhos, naquele momento eu me tornei tricolor.

O jogo terminou 1x0 para o Santa, lembro que durante a saída do estádio eu me perdi do velhinho, queria saber o nome dele, o que fazia, mas nunca mais o vi.
Fui pra casa impressionado com a grandeza daquele clube, daquele povão vibrante, eu mal conseguia dormir. Passei a noite lembrando daquele senhor, nitidamente alguém que deve ter passado por muita coisa, um pobre que luta pra sobreviver diante da miséria e da indiferença, um daqueles que o individualismo e a insensibilidade social o transformaram numa figura que de tão anônima passou a ser invisível. Mas ele estava lá no meio da multidão, chorando emocionado com o gol do Santa, sentindo-se por uma noite como um rei. Toda uma vida sofrida ficou minúscula diante da vitória tricolor e um coração calejado encheu-se de alegria por uma noite. Ele deve ter ido encarar a cruel realidade no dia seguinte com muito mais coragem e altivez.

Toda vez que vou ver o Santa jogar, que subo as arquibancadas, lembro-me daquele senhor que com pouquíssimas palavras me traduziu o que é torcer para o time do povo, o clube que nunca excluiu ninguém, que foi o primeiro de Pernambuco a aceitar negros e pobres vestindo sua camisa, que quando é campeão o povo sente-se como protagonista de uma verdadeira revolução popular.

Somos o time do povo, da massa, daqueles que lutam bravamente todos os dias pelo seu sustento, um clube que se tornou vencedor e o mais popular  não pelo poder do dinheiro das elites que usam o futebol para distrair a massa de seus direitos e dos problemas da sociedade, mas pela raça daqueles que trabalham duro, que vivem a realidade dura e cruel, vão todo domingo ao Arrudão incentivar o clube das multidões a calar a boca das elites. No torcida do Santa Cruz o mais rico aristocrata pode vir sem problemas, mas tem que se tornar povo, tem que falar como o povo, tem que lutar ao lado do povo.

Parabéns ao clube das massas mais apaixonadas e a aqueles que o seguem e sustentam, os torcedores, são 99 anos vivendo a alegria cotidiana de ser Tricolor-Coral.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Santa Cruz Futebol clube contra a "tática do pivete"

 


Os batedores de carteira das grandes cidades têm uma tática bem inteligente na hora de dissimular seus roubos: quando passam a mão na carteira de algum pobre diabo e percebem que este o flagrou o delinqüente começa a gritar enquanto corre “pega ladrão! pega ladrão!” para disfarçar dos demais transeuntes a atenção de seu roubo e transmití-la para um roubo imaginário. No fim das contas o batedor de carteira sai ileso e o cidadão roubado nada pode fazer.
No futebol pernambucano os dirigentes do Sport Clube do Recife usam da mesma estratégia para tentar desestabilizar o campeonato e pressionar os árbitros a dar aquela ajudinha ao time vermelho e preto quando eles não conseguem ganhar sozinhos.  Esse ano o Santa Cruz começou razoavelmente bem o campeonato, vencendo 3 dos 4 jogos e mostrando superioridade sobre os adversários mesmo estando ainda longe do futebol ideal. Sabendo a pedreira que vão encarar pela frente os dirigentes rubro-negros, em especial um tal de Guilherme Beltrão, já começam a alegar um possível favorecimento ao Santa Cruz por parte das arbitragens. A intenção é pressionar a federação e os árbitros criando um clima de desconfiança para forçar futuros erros em favor do Sport. (entendeu a semelhança com o batedor de carteiras?)
Vamos aos fatos:
O Santa Cruz teve, em suas três vitórias no atual campeonato, jogadores adversários expulsos e 3 pênaltis marcados em seu favor (todos muito claros), eu gostaria bastante que alguém me mostrasse qual das expulsões de adversários não foi justa. Contra o Belo Jardim o defensor foi expulso por uma entrada desleal que se acerta o jogador era capaz de quebra-lhe a perna; contra o Serra Talhada o defensor puxou a camisa do nosso atacante impedindo um ataque em velocidade, tomou o segundo amarelo; contra o Ypiranga o volante Junior Terceiro foi expulso por dois amarelos (uma mão na bola dentro da área e uma falta em Natan durante um ataque do Santa Cruz).
Se o Santa vem ganhando jogos essa tática da direção rubro-negra não deveria incomodar, mas é melhor tomar cuidado pois isso já nos tirou um título pernambucano.
Em 2006 o Santa venceu o primeiro turno do pernambucano e lutava pelo bicampeonato. No primeiro turno haviam sido marcados 5 pênaltis em favor do time coral (todos corretamente, diga-se) e isso foi o bastante para que a então diretoria do Sport colocasse a tática do batedor de carteiras. Homero Lacerda ia a todas as rádios acusar um favorecimento ao Santa Cruz por parte dos árbitros, que o Sport era prejudicado e blá, blá, blá... Como a diretoria tricolor (na época presidida pelo desastroso Romerito Jatobá) se calou, a conversa de Homero ganhou corpo e a arbitragem começou a sabotar o time Coral. Na 7ª rodada do segundo turno o Sport liderava com 1 ponto a mais do que o Santa, uma vitória no clássico contra o time da ilha e passaríamos a frente, venceríamos o segundo turno e seríamos bicampeões. O que aconteceu? O Sport só empatou o jogo porque a arbitragem anulou um gol legalíssimo de Júnior Maranhão que daria a vitória e a liderança do turno ao Santa. No dia seguinte Homero Lacerda e os demais diretores do Sport se mantiveram calados, a estratégia havia dado certo e o Santa, com sua carteira roubada, nada podia fazer. Para os rubro-negros pressionar a arbitragem valeu muito e é isso que eles tentam fazer agora.
O Sport entrou nessa de desviar a atenção para arbitragem para não levantar a questão de como é bem possível que esse ano o Santa seja de novo campeão com uma folha salarial 3 vezes menor que a do elenco rubro-negro (Santa tem folha de 500 mil enquanto o Sport de 1,5 milhão), que mesmo duas divisões abaixo no cenário nacional o Santa vença mais uma vez.
O Santa Cruz Futebol Clube está voltando a ser o grande clube que nunca deveria deixar de ter sido, tem sido bem administrado e tem tido bons resultados em campo. Nas arquibancadas, nas audiências de TV e nas camisas nas ruas a maioria Coral é esmagadora, e isso incomoda aos Outros FC .
Vamos ganhar mais uma vez com a raça em campo e o grito das arquibancadas e nenhum juiz covarde vai nos impedir. Aos diretores e torcedores do Sport restará o que vai ser rotina para eles nos próximos anos: choro livre

Para encerrar uma pequena foto da nossa torcida no jogo de ontem:

 
Segundo o jornalista Cássio Zirpoli o público de "apenas" 24.525 pessoas é muito difícil de acreditar. Com certeza tinha bem mais.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Antigos textos meus sobre futebol - "Pra que serve uma torcida organizada""

Esse texto é mais sério, fala sobre um fato que tem a ver com o Ypiranga, o time de minha cidade. Revoltado com o comportamento da torcida organizada Fúria jovem (péssimo nome, hein?) e com a péssima influência que ví eles exerceram sobre garotos ainda muito jovens escreví um texto e mandei para o amigo Emanoel Glicério (Vulgo: Mané do Blog). A audiênia do blog foi fundamental para me encorajara a escrever este texto. Nos dias seguintes várias pessoas me cumprimentaram e elogiaram bastante a iniciativa. Fiquei muito orgulhoso.

Para que serve uma Torcida organizada? 

Postado em 22 de fevereiro de 2010


Foto: Billu

Na última quarta-feira fui com alguns amigos assistir o jogo Ypiranga x Central pela 10º rodada do Pernambucano 2010, e me surpreendi com o comportamento da Torcida “Fúria Jovem” nas arquibancadas do Otávio Limeira Alves. O jogo se desenrolava e nada da torcida Fúria Jovem apoiar o time em campo com cantos de incentivo, o que se ouvia era apenas uma troca de provocações com a torcida do Central. Os gritos eram do naipe de: “a fúria é uma parada/ dá porrada em qualquer um” ou “ta rolando agora o bonde dos maconheiros” ou ainda “a comando é gay/ é gay/ é gay”. Onde estavam os incentivos ao time que lutava dentro de campo? Não era a toa que a Fúria cantava sozinha pois nenhum torcedor dito “comum” se sentia motivado a fazer côro com uma torcida organizada que parecia esquecer do time em campo. O Ypiranga não perdeu por causa da Fúria Jovem, mas a única T.O. da cidade deu um péssimo exemplo . 

Hoje foram os primeiros dias da volta às aulas depois do recesso de carnaval e partilhei uma cena grotesca em sala de aula numa turma de 6º ano do ensino fundamental. Quatro alunos de 11 e 12 anos conversavam sobre futebol e repetiam os gritos da organizada, durante a aula fui perguntado se conhecia a Fúria Jovem, ao que respondi que conhecia e não admirava. Daí iniciei uma discussão sobre as motivações das T.O. em incentivar a violência em seus gritos de guerra ao invés de trazer o povão para a vibração dos jogos. Escutei absurdos como: “quem provoca a gente tem mais é que apanhar mesmo” , “somos aliados da Inferno Coral, se eu ver alguém com a camisa da Jovem(do Sport) quero que ele tome umas porradas e que arranquem a camisa dele”, “se eles são violentos então temos que ser também”, “você não quer que apanhemos quietinhos não é?”. Isso entre outras pérolas.

Quero deixar claro que jamais ouvi falar de atos de violência praticados pela Fúria Jovem, mas seus gritos agressivos que incentivam o ódio das arquibancadas são um péssimo exemplo para a juventude, principalmente uma garotada extremamente influenciável como a que temos. Os quatro meninos falavam de violência entre torcidas como se fossem coisas banais e necessárias, sempre evocando valores como bravura, macheza, etc.

Não sou um alvi-azulino nato, meu time do coração é o Santa Cruz FC, mas sou o primeiro a reconhecer a importância do Ypiranga para nossa cidade. Mais do que divulgar nosso povo para o Brasil a máquina une uma cidade marcada por rivalidades sob uma única bandeira. Na arquibancada do limeirão não existem partidos, raças, religiões ou classes sociais. Mas a Fúria quer imitar as grandes T.O. da capital fazendo um incentivo verbal para atos violentos, sujando o nome do torcedor do Ypiranga e dando um péssimo exemplo para os nossos jovens. Não me admira que na maior parte dos jogos eles cantem sozinhos.

Sugiro para a Fúria Jovem que ela se torne uma torcida que mexa com a paixão do torcedor, incentive e emocione com gritos que falem da grandeza e importância do Ypiranga, aprendam até com a “aliada” Inferno Coral que, mesmo não sendo composta por anjinhos, só canta canções que exaltam o Santa Cruz, aboliram os gritos que exaltam a violência, e trazem o torcedor comum pra cantar junto e manter o clube vivo mesmo com essa interminável crise.
Por Mário Júnior - Professor de História, Filosofia e Sociologia.

Post original em: http://www.diariodasulanca.com/2010/02/para-que-serve-uma-torcida-organizada.html