terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AS REDES SOCIAIS E O NOVO TOTALITARISMO (o mercado é o novo “Grande Irmão”)





No romance “1984’, George Orwell pinta uma sociedade, uma Inglaterra futurista, como um regime totalitário governado por um ditador chamado “Grande Irmão” (Big Brother), onde as pessoas são vigiadas por teletelas (telões que exibem imagens alusivas ao regime enquanto filmam e vigiam a população) inclusive dentro de suas casas. Assim o regime garante controle total sobre a população, inclusive da vida privada (o governo totalitário do livro chega até a controlar a vida sexual das pessoas) e evitar até que o cidadão tivesse ideias contrárias ao regime criando até uma definição legal de crime sobre “pensar” contra o regime. Orwell acabou prevendo o futuro na prática, é possível fazer claras analogias da nossa realidade atual com a distopia descrita no romance lançado em 1949.

O fato é que vivemos sobre um novo totalitarismo, o totalitarismo do mercado.  A difusão das redes sociais só acentua esse domínio. Hoje uma grande parte das empresas, sejam elas grandes ou pequenas, promovem uma verdadeira eugenia social e ideológica sobre seus funcionários e pretendentes ao cargo de emprego. Através disso está se instalando a nova ditadura do pensamento único.

Qualquer pessoa que queira se integrar socialmente e profissionalmente precisa ser membro de uma rede social; elas são práticas, sedutoras e viciantes, e são também um canal fácil para divulgação de produtos e serviços (daí as empresas investirem um bocado de grana nas mídias sociais). Mas desde que as redes sociais explodiram na internet, com o hoje finado Orkut, o mercado de trabalho e a classe patronal os usam como uma forma de promover um policiamento ideológico eficiente para conseguir empregados que estejam mais adaptados as concepções políticas e sociais de seus patrões.

Hoje os setores de RH das empresas vasculham as redes sociais buscando informações sobre os candidatos. As entrevistas e análise de Curriculum já não bastam por um simples motivo: não dá pra perceber o nível de submissão e apatia social do empregado apenas numa entrevista. 

O fato é que o “crime de pensamento” inventado pelo governo totalitário do livro “1984” ganha face real na triagem feita pelas empresas sobre os candidatos a emprego com base nos seus perfís nas redes sociais. Daí que uma piada postada (mesmo que não ofensiva), participar de alguma comunidade de tema tabu, ou postar alguma opinião polêmica (ainda que abalizada e coerente) pode acarretar a perda da vaga de emprego, dificuldades de promoção, etc. 

A crença liberal de que o mercado não exclui ninguém, que aceita a todos desde que tenham capacidade de produzir e consumir, se mostrou um mito. Besta é quem acredita. As redes sociais serviram muito bem para que o mercado chutasse de vez o mito da “impessoalidade do mercado”

Quando estourou o Orkut eu lembro que explodiam reportagens na TV explicando como a análise dos conteúdos postados e compartilhados por integrantes das redes sociais podiam ser usados como peso fundamental para que o candidato não conseguisse o emprego. Lembro de uma reportagem da TV Globo onde um diretor de RH disse que encontrou um candidato que tinha grandes credenciais, era adequado ao cargo e tinha boas indicações, mas ao ver que ele freqüentava uma comunidade chamada “eu detesto segunda-feira” e outra chamada “eu detesto acordar cedo” decidiu optar por outro candidato. Vejam só: alguém teve suas credenciais anuladas, reduzidas ao nada, pelo fato de que fazia parte de duas comunidades no Orkut que, pelo menos aparentemente, tinham aspectos mais humorísticos do que opinativos. Ele não disse nada demais em alegar que não gosta de acordar cedo ou que detesta segundas-feiras, isso não significa que ele vá chegar atrasado ou faltar nas segundas. Fico imaginando que a vaga ficou com alguém de credenciais menores mas que devesse frequentar uma comunidade chamada “eu adoro trabalhar 24h por dia”.
Matérias de TV falando sobre o uso das redes sociais como forma de selecionar os candidatos a emprego.
Claro que as matérias são tendenciosas e mostram uma visão positiva deste fenômeno, 
mas dá pra perceber o quão abusivas desonestas e imorais são estas práticas.

Não existem garantias de que um patrão ou uma empresa não irão selecionar seus funcionários a partir das opiniões sobre política, sociedade, religião, etc. que o indivíduo posta em suas redes sociais. Lógico que nenhuma empresa admitiria essa tal prática, mas algo me leva a crer que isso existe e com muita eficiência. O mercado passa a dar um belo escanteio naqueles que tenham “opiniões disfuncionais” garantindo uma massa de trabalhadores submissos. Qual a imagem que ganha diante de seus empregadores um trabalhador que posta uma mensagem de apoio a uma greve, que defenda tributação diferenciada para aqueles que ganham mais, que seja ateu ou membro de uma religião que seja socialmente estigmatizada e expresse isso num perfil de facebook da vida?.  Gente de mentalidade crítica, independentemente de escolhas políticas, religiosas, sexuais, comportamentais e etc. metem medo e são vistas como potencialmente perigosas, como se desarmonizassem o ambiente. É claro que as empresas camuflam essa "higienização" alegando que querem evitar empregar pessoas com comportamentos antiéticos, mas quem garante que é isso mesmo?

O rol de vítimas do totalitarismo do mercado potencializado pelas redes sociais é quase infinito, lembro-me que ouvi de um amigo religioso que ele não matricularia um filho em determinado colégio por haverem professores gays no quadro docente, imediatamente imaginei se ele promovesse uma campanha de achincalhamento on-line através de redes sociais contra esses professores qual seria o impacto disso na vida deles e da escola.  Eu mesmo temo que alguma de minhas opiniões que expresso no facebook possam ser usadas contra mim e a minha vida profissional. 

Daí você se pergunta o motivo do facebook ser um mar de “moralistas virtuais”, de pessoas “espiritualizadas” que postam citações mas nunca leram um livro, de intelectuais de esquina que vivem a vomitar opiniões chulas sobre os BBBs da vida e defender ideologias autoritárias. Porque eles sabem que é importante reforçar uma imagem pública para ganhar aceitação, isso pode render dividendos financeiros e profissionais.

O mais interessante é que não há muito o que se fazer contra o "totalitarismo de mercado" pois ele não deixa lá muitos rastros. A internet é um mar de anônimos e é bem difícil provar que se está sendo preterido ou perseguido por causa do uso de redes sociais. Se nos regimes totalitários do século XX eliminar alguém fisicamente implicava também em alterar documentos visando camuflar a violência, o que deixava pistas, o totalitarismo de mercado não deixa rastros.

Mesmo ciente disso jamais deixei de emitir uma opinião, por mais polêmica que fosse, nas redes sociais. Uso o twitter e o facebook, assim como esse blog que não é lido por ninguém além de mim, literalmente como palanques para divulgar minhas idéias (e para postar bobagens também, que eu não sou de ferro).
Não estou dizendo que tudo que se posta em rede social deve passar em brancas nuvens; casos de apologia ao crime, ao preconceito, a violência em geral devem ser denunciados e punidos, mas me espanta demais o nível de paranóia e sofisticação de que o mercado alcançou na busca por trabalhadores submissos, obedientes e que trabalhem sem questionar.

Assim como na distopia do romance de Orwell essa tela que temos em casa serve para nos vigiar, para ser o olho do “Grande Irmão” que comanda esse governo .
O “Grande Irmão” não zela por nós nem a “mão invisível” do mercado existe para nos fazer afagos.

sábado, 5 de janeiro de 2013

AS FALÁCIAS SOBRE HITLER E O USO DESRESPEITOSO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO




O conhecimento médio dominante sobre Hitler é mais baseado numa antipatia (justa) criada pelas escolas, meios de comunicação, etc.  do que se baseia em um entendimento sobre o que realmente foi o fascismo/nazismo enquanto doutrina social e política. Hitler é visto como um psicopata sanguinário e preconceituoso que empreendeu as políticas de eugenia e de genocídio apenas por que era mal e por ter conseguido, apenas por sua impressionante retórica manipular os sentimentos de uma nação inteira, a Alemanha, mobilizando todo um povo em seus nefastos ideais. 

 Nada mais superficial e mentiroso. Não que Hitler fosse uma “boa pessoa” ou alguém  sem poder de convencimento (muito pelo contrário), mas essa interpretação com ênfase exagerada na pessoa de Hitler e em seus caprichos enquanto indivíduo  mostra apenas que para que uma idéia se cristalize na cabeça das pessoas basta apenas contar com ajuda de maus professores de História (daqueles bem decorebas), de um sistema de educação que valoriza apenas o acúmulo de informações sem a discussão crítica das mesmas,  e, por conseqüência disso,  com a nossa característica comum de achar que os grandes acontecimentos históricos, bom ou ruins, são frutos apenas de um ato de vontade de “grandes homens”. Pessoas sem capacidade de entender contextos sociais e históricos sempre cairão na armadilha intelectual de buscar respostas simples, confortáveis e, logicamente, falsas para temas que gerem questões muito complexas.

Essa incapacidade de analisar as coisas fugindo de simplificações grosseiras faz com que a percepção coletiva sobre os fatos históricos seja um enorme balaio de gatos onde tudo importa menos a verdade. Essa memória acaba sendo usada para que um monte de espertalhões defensores das piores ideologias criem a aparência de que suas conjecturas tem raízes históricas ou que são baseadas em fatos reais vivenciados pelos seres humanos em alguma determinada época da história. E esses espertalhões adoram Hitler e precisam dele para justificar suas idéias assim como precisam de água para viver, ainda que aparentem não compactuar com nenhum princípio do nazismo (pelo menos não declaradamente).

O fato é que essa memória histórica que hoje se mostra dominante sobre Hitler fez com que a população desinformada sobre o tema vincule a Hitler qualquer postura ou comportamento considerado ruim (qualquer mesmo). Daí surge a mais calhorda das falácias que é a idéia que se Hitler defendia uma coisa ela de antemão já seria ruim e deveria ser rejeitada; o detalhe fica pelo fato que na grande maioria das vezes Hitler não defendia essas idéias, mas uma enorme parte dos espertalhões estabelece essa ligação na tentativa de descredenciar argumentos contrários aos seus.

A partir daqui mostro algumas das falácias sobre Hitler muito usadas em debates por espertalhões, algumas dessas falácias são tão ridículas e na mesma medida são populares, e sobra gente que engula isso:

Falácia 1: “COMUNISMO E NAZISMO SÃO A MESMA COISA. O PARTIDO DE HITLER SE CHAMAVA ‘PARTIDO NACIONAL SOCIALISTA ALEMÃO’, LOGO O NAZISMO É DE ESQUERDA”

Essa falácia chega a ser ridícula, o nazismo, assim como as demais variações do fascismo, são ideologias anti-socialistas. O discurso anti-socialista serviu como chamariz para o partido conseguir a simpatia, e vultosas doações financeiras de banqueiros e industriais alemães, vale lembrar que na Alemanha a ação dos comunistas por pouco não rende uma revolução logo após a I Guerra Mundial, o que explica o temor das elites alemãs da época. Na intenção de concentrar poderes na mão do partido nazista e eliminar a oposição comunista o governo de Hitler atribuiu a “judeus-comunistas” o incêndio do Parlamento Alemão (Reichstag).

O comunismo foi o “outro” do qual o regime se utilizou para mobilizar a nação contra um suposto inimigo comum e pelo qual manteve a população em permanente estado de tensão.

Muitos citarão o pacto de não-agressão entre Hitler e Stalin (“Pacto Ribentrop – Molotov”) alegando haver alguma proximidade entre os regimes, mas uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. O pacto de não-agressão entre Alemanha e URSS tinha objetivos estratégicos, especialmente para os alemães que depois romperam esse pacto durante a II Guerra Mundial e invadiram a URSS. De forma alguma esse pacto pode ser entendido como um acordo de cooperação mútua e de cumplicidade ideológica entre os regimes.

Falácia 2: “HITLER ERA ATEU”

Hitler teve uma criação católica, recebeu crisma e estudou em colégio beneditino. Alguns biógrafos dizem que na sua adolescência teve contato com a mitologia pagã germânica o que o supostamente a desenvolver uma posição negativa quanto ao cristianismo. O fato é que Hitler sempre se mostrou em público como um cristão, seu livro Mein Kampf (Minha Luta) Deus é citado várias passagens (http://www.paulopes.com.br/2012/09/as-reverencias-a-deus-feitas-por-hitler.html#.UOTpwaz5PdM) e as falas são contundentes no sentido de legitimar o nazismo utilizando-se da fé cristã.

É bom lembrar também que o anti-semitismo alemão tem origens que passam muito além do período de domínio político do partido nazista. Lutero no século XVI já se mostrava como claro anti-semita e é inegável sua influencia na cultura alemã em vários sentidos (lingüístico, social e religioso)

Essa falácia só expressa um preconceito nojento contra os ateus. 

Falácia 3: “HITLER PERSEGUIU AS IGREJAS E ERA ANTI-CRISTÃO”
Essa fala é controversa. A perseguição nazista não respeitava a questão religiosa: quem não tinha 100% de fidelidade ao governo, ou não era ariano puro, ia pra vala independente do credo. O fato é que Hitler tentou criar uma Igreja oficial do estado, o programa do partido Nazista diz em seu parágrafo 24 que o partido adota os princípios do “cristianismo positivo”.

Claro que existe um evidente contracenso em que o partido Nazista afirma adotar princípios do cristianismo mesmo com Cristo sendo judeu, mas o anti-semitismo na Alemanha tem forma perceptível desde a Reforma Protestante pela ação de Martinho Lutero (um ferrenho anti-semita)

Lembrem-se também da famosa concordata assinada entre Hitler e o Vaticano, a Reichskonkordat, onde a Igreja Católica, para manter intacta sua participação na sociedade alemã, assume o compromisso de que seus clérigos jurarão fidelidade ao Reich e ao Führer. ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Reichskonkordat )

Engraçado que o Papa Bento XVI, ex-membro da juventude Hitlerista (porque era obrigatório a todos os jovens alemães da época, é bom deixar claro), afirmou que o nazismo foi uma tentativa de retirar Deus do seio da sociedade, mesmo com a Igreja Católica tendo silenciado com as implicações do regime de Hitler na Alemanha e ter tido uma amizade ainda mais profunda com o regime de Mussolini na Itália (o pioneiro dos regimes fascistas). Não dá pra esperar desse sujeito muito compromisso com a verdade... (http://www.paulopes.com.br/2010/09/papa-associa-o-extremismo-ateu-tirania.html#.UOTqdaz5PdM

Aqui no Brasil a última vez que ouvi alguém falar que Hitler perseguia Igrejas cristãs foi num programa do pastor Silas Malafaia (não encontrei o vídeo), o que só mostra a desonestidade intelectual desse sujeito. O pastor-deputado Marco Feliciano, assim como Malafaia, tenta comparar a luta pelos direitos homossexuais com essa suposta perseguição nazista, repetindo o abuso sobre o conhecimento histórico que expressamos na imagem que abre esse post. Vigarice pura! ( http://www.marcofeliciano2010.com.br/?p=1459 NOTA: Marco Feliciano, Malafaia e seus asseclas chamando alguém de fascista é igual a um batedor e carteira gritando “pega ladrão”) 

É de bom grado lembrar que as relações entre Hitler e as Igrejas nem sempre foi pacífica e a tentativa de criar uma “Igreja Oficial do Reich” encontrava resistências dentro das Igrejas Luteranas diversas, muito mais pela falta de liberdade doutrinária do que por repudiarem os rumos tomados pelo regime.

Falácia 4: “HITLER DEFENDIA A RESTRIÇÃO DO USO DE ARMAS DE FOGO PARA OS CIDADÃOS”

Não sei dizer se essa afirmação é verdade. Ví nos últimos dias no facebook uma postagem que atribuía a Hitler uma frase onde expressava o seu interesse em manter cidadãos de povos dominados sem direito a porte de armas pois isso facilitaria a manutenção da dominação. Não sei dizer se a frase realmente é de Hitler e se ele se opunha ao livre porte de armas, mas mostra mais um aspecto do uso de Hitler e do Nazismo como argumento: a busca de uma reação muito mais emocional do que racional. Se Hitler era contra o porte irrestrito de armas isso nada significa ( que o desarmamento seja algo bom ou ruim). Países como Japão e Inglaterra promoveram campanhas de desarmamentos muito bem sucedidas e não me parecem nações adeptas do nazismo.

...

Por enquanto é só, talvez quando eu estiver com mais paciência eu melhore esse texto

domingo, 30 de dezembro de 2012

COMO ELE FOI ELEITO? (impressões sobre como um desastre anunciado não pôde ser evitado)



Nota 1:  esse texto, assim como todos os textos deste blog, é escrito de uma única tacada, sem muito refino ou revisão. Escrevo da maneira como a idéia sai na hora pois não disponho de muito tempo para editar e corrigir, daí então ser comum que existam pequenos erros de pontuação, repetição desnecessária de palavra.

Nota2: meu blog não tem a mínima pretensão de ser científico, é só uma tribuna onde prego no deserto as minhas idéias. Apesar de que em alguns textos meus há uma clara influência dos livros que li em minha vida acadêmica, eles (os textos)são opiniões particulares não devendo ser confundidos com artigos de ordem científica,ou verdades pretensamente absolutas. A enorme introdução que pretendo fazer é baseada em algumas leituras estudos que vivi, mas não está sistematizada a ponto de ser chamada de “científica”.

Nota3: a intenção do blog não é insultar ninguém, mas promover uma discussão para aqueles que se aventurarem em ler o texto. Interpretações equivocadas não são culpa minha.



COMO ELE FOI ELEITO? 

O maior choque de realidade que a política me impôs foi a vitória esmagadora de Toinho do Pará para a prefeitura de Santa Cruz do Capibaribe em 2008. Pela primeira vez fiquei realmente afetado com o resultado de uma eleição, passei a pensar sobre o impacto social da democracia e a maneira como o cidadão comum maneja em sua cabeça o que é a política.

Para entender o que quis expressar no parágrafo acima é importante tomar nota de algumas considerações:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS

É comum que grupos detentores de alguma forma de poder ou de conhecimento específico demarquem um “limite de atuação” claro que impeça membros de outros grupos de estabelecer uma crítica consistente sobre eles. É uma estratégia interessante no sentido que agrega valor aos membros deste determinado grupo, uma vez que pessoas de fora que venham a depender deste poder ou conhecimento estão em situação de total vulnerabilidade aos detentores deste mesmo conhecimento. Em outras palavras podemos dizer, a título de exemplo, que é como se um grupo social transformasse seus saberes  em algo indecifrável para aqueles não fazem parte do meio, e caso estes venham a precisar destes conhecimentos entram nestes espaços determinados em posição de quase completa subserviência e dependência, tornando-se vulneráveis as vontades daqueles que dominam tais práticas.

A estratégia consiste então em transformar certos conhecimentos em linguagens que seriam indecifráveis pelo cidadão comum. A intenção é fazer claramente com que ele não entenda como se tramitam e resolvem as questões relativas a esses saberes específicos, tornado se assim, caso necessite utilizar destes conhecimentos, em uma figura que entra nessas questões em total espaço de subserviência e dependência. Isso agrega valor aos membros deste grupo. É como se a ética dos mágicos, que guardam a sete chaves os segredos da sua profissão, fosse vivenciada por quase todos os grupos sociais estabelecidos e percebidos como tais. Advogados guardarão para si e seus pares os segredos do Direito, médicos também farão o mesmo em suas áreas de atuação, assim como se sucede com acadêmicos em geral, professores, economistas, entre muitos outros e, é lógico, os políticos.
Sem entender como se tramitam e resolvem as questões relativas a esses grupos, o indivíduo médio torna-se, caso venha a necessitar de algum destes conhecimentos, em uma vítima indefesa dos membros destes grupos.
Para exemplificar o que citei acima é só pensar que a linguagem utilizada por advogados, juízes e economistas, bem como as regras de atuação específicas a esses segmentos são indecifráveis para um leigo, tornando quase impossível que este possa entender por simples associação de idéias os temas tratados pelos membros destes grupos. Qualquer um que conversa com advogados ou economistas, só pra ficar em dois exemplos, entende pouca coisa sobre o que falam esses dois profissionais devido estes saberes serem dotados de uma linguagem específica feita para serem dominadas exclusivamente por seus membros, não pela pessoa comum. Assim aqueles que necessitarem da atuação destes profissionais tornam-se quase que reféns deles.

É importante lembrar que dentro destes grupos detentores de um conhecimento específico existem vários pontos de vista, disputas ideológicas, discordâncias e rivalidades por vezes extremas, mas essa linguagem (que é adotada por todos os membros numa clara ação corporativa conjunta) faz com esse grupo pareça coeso e detentor de uma verdade única das quais os não-membros são dependentes.

Calma que vamos chegar em Toinho, paciência...

A classe política também se encaixa nesse conceito de expressei anteriormente. Alguns podem discordar e dizer que os políticos não são um “grupo social específico” uma vez que os que ocupam os cargos são representantes de segmentos sociais por vezes antagônicos, que não caíram de pára-quedas cargos que ocupam pois para isso antes tiveram que ser eleitos pelo voto, ou que a política numa democracia representativa é expressão maior da vontade do povo. Tudo isso são balelas. A classe política se reconhece como tal e, a despeito de suas infinitas diferenças ideológicas internas, cria toda uma blindagem para sua atuação através da elaboração de uma linguagem específica e de toda uma série de trâmites que impeçam o cidadão comum de discutir de forma coerente a ação dos poderes políticos instituídos. A ação parlamentar, o texto das leis, o tecnicismo das falas, entre outras estratégias, são formas de impedir esse homo vulgaris em ter uma inserção autônoma no espaço da política.

Mas a classe dos políticos até pode criar maneiras de impedir um conhecimento profundo da política, mas não pode impedir as populações (essas massas supostamente “incultas’) de criar seus próprios sentidos para a política, assim como criam seus próprios sentidos para outras coisas. 

Num contexto onde a política é feita justamente para que as pessoas não entendem, mas onde, paradoxalmente, elas são obrigadas por lei a participar não há como impedir que as populações driblem essas proibições não declaradas e reinventem para si próprias o sentido da política. Ao criar um sentido particular para o poder e para a política a “plebe rude” força os poderes políticos a cortejá-la, a seduzi-la, a referendar valores que são aceitos por ela ainda que esses nada tenham a ver com  a vida política, a ação legislativa ou a administração pública (pelo menos não imediatamente). 

Um grupo político, ou um político capaz de perceber e criar uma imagem pública que esteja de acordo os simbolismos depositado pelas massas na política, tem o sucesso eleitoral quase garantido.Por isso os partidos e candidatos gastam quase nenhum tempo no debete político propriamente dito e investem muito mais na criação de uma imagem identificada com os valores socialmente aceitos. É daí que começo minhas conjecturas sobre como um completo idiota, um desastre anunciado como Toinho do Pará foi eleito prefeito de Santa Cruz do Capibaribe.

A TRAJETÓRIA ATÉ O DESASTRE

Os “taboquinhas” chegaram ao poder em 2000 já se mostrando mais sintonizados na arte de manipular esses sentimentos populares sobre a política. Não que tenha sido apenas por isso, existem méritos políticos claros na vitória taboquinha em 2000, mas desde ali o grupo liderado por José Augusto Maia já sabia como seduzir as massas ao captar a maneira sub-reptícia como o povo reinventa a política. Enquanto os “bocas-pretas” apelavam ao tradicionalismo e ao partidarismo, José Augusto (que tinha Toinho do Pará por seu vice) apelava  uma suposta luta contra os poderosos, contra os ricos insensíveis com as necessidades dos pobres, com aqueles que supostamente usariam o poder para promover apenas sua riqueza pessoal. A vitória nas urnas em 2000 serviu para carimbar de vez um estigma sobre os adversários como atrasados, elitistas, anti-povo, esnobes, etc.

Para se entender como esse discurso, essa  estratégia foi eficiente é só pensar em Santa Cruz do Capibaribe como uma cidade industrial que se formou a partir da exploração de mão-de-obra barata, sem garantias trabalhistas, onde as margens de lucros dos patrões eram altas (pelo menos na época da explosão da confecção por aqui), onde devido a altíssima sonegação de impostos o poder público não tinha recursos para estruturar a cidade, e onde as elites e famílias tradicionais se engalfinhavam pela posse do poder. Santa Cruz cresceu então com uma elite pouco escolarizada, espalhafatosa, exibicionista, e incapaz de pensar algum projeto coletivo para a cidade. Lutar pelo poder sempre foi uma forma das famílias conseguirem mais estatus e benefícios; mas dividir com as pessoas? Ah, você deve estar brincando... Ao povo restava trabalhar pesado e buscar ascender socialmente numa cidade que vendia a ilusão de que pra ficar rico bastava querer. O fato é que se criou uma grande massa de trabalhadores que ralavam muito  e iam sobrevivendo (em condições  muito melhores do que em grande parte do Brasil, é verdade) e uma elite cada vez mais esnobe e deslumbrada. 

Não se deve pensar que por serem pouco escolarizadas as classes mais humildes de Santa Cruz do Capibaribe tinham um nível zero de compreensão da sociedade. Provavelmente o homo vulgaris santacruzense não tem uma visão articulada sobre a realidade, mas a sente a realidade na própria pele, percebe que nos tempos de crise é sobre ele que recaem as demissões, o desemprego, o arroxo de salários enquanto os ricos continuavam mantendo suas riquezas as custas da precarização da vida do cidadão comum. Não precisar ser gênio para perceber a cidade abandonada, sem estrutura mínima. Se não havia articulação política das classes populares para lutar contra esse quadro (talvez devido a baixa escolaridade e a mentalidade individualista da população [isso é só uma hipótese]), havia o sentimento de revolta dentro dos corações e mentes, os taboquinhas apenas o captaram e o usaram para si.

Durante os 8 anos do governo José Augusto a manipulação destes sentimentos se tronou cada vez mais clara, transformada até em canções pelo próprio José Augusto (meu TCC foi sobre o impacto das canções compostas por ele nas eleições entre 1998 e 2004).  Diante dos acertos e erros de seu governo José Augusto Maia passou cada vez mais a imagem (falsa) de que seu governo contava com participação do povo (o que claramente era uma mentira) e de que lutava contra os “poderosos”. 

Esses poderosos não tinham nome, pois, logicamente, esse discurso era uma farsa completa. Durante o governo de José Augusto houve acertos (em quantidade, para sermos justos), mas também se formou nitidamente uma classe de poderosos sob a permissão e supervisão dele e seu grupo político. Surgiram donos de rádios comunitárias (uma clara ilegalidade), a especulação imobiliária atingiu níveis que passam do absurdo, a doação ilegal de terrenos públicos para pessoas ligadas ao grupo político, um show de irregularidades diversas em licitações e até o desvio do FGTS de funcionários públicos municipais (em especial dos professores). Mas com o discurso cristalizado ficava fácil vender a versão de que essas acusações eram ataques dos adversários supostamente com raiva dos “benefícios gerados para o povo”. E tome música chorosa cantada pelo Zé Augusto, tome as rádios vendidas manipulando informações, tome zombaria promovida pelo próprio prefeito e vereadores contra os adversários e por aí vai...

Nesse meio tempo Toinho do Pará elegeu-se duas vezes Deputado Estadual e foi um completo inoperante. Nunca promoveu sequer uma prestação de contas sobre seu mandato parlamentar, ficou na sombra de Zé como sempre fez. Em 2008 chegava a hora de do partido “taboquinha” escolher o novo candidato, e foi Toinho. Do outro lado os “bocas-pretas” vinha passando por mudanças e candidatou-se Edson Vieira, que vinha em franca ascensão política.

Pelo menos 1 ano antes o governo já andava meio mal das pernas, cambaleante financeiramente e a cidade ia tomando ares de abandono, obras inacabadas e o caos no trânsito demonstravam o claro desgaste do governo, que teve inúmeras de suas contas rejeitadas pelo TCE.

O claro desgaste do governo, junto com o frescor da ascensão de Edson Vieira, bem como a postura inoperante de Toinho do Pará como político encheram os “bocas-pretas” de esperança. Edson apostou no fato de aparentar ser mais preparado para exercer o cargo, Toinho apostava em dois golpes que se mostrariam certeiros: o apelo a figura quase mítica de José Augusto na época e nos ressentimentos populares em santa Cruz do povo contra as “elites”.

Toinho deu no decorrer da campanha de 2008 um espetáculo de como não se portar em público. Era uma figura dantesca, de doer na vista e no juízo de quem leva política minimamente a sério. Demonstrava total desconhecimento sobre as atribuições de seu cargo, era incapaz de manter uma idéia coerente caso questionado, repetia a exaustão jargões indicados por seus marketeiros (repetia a palavra “punjante” mesmo quando essa não mais cabia em nada), discursava sofrivelmente e no único debate entre os candidatos deu respostas no nível da idiotice. 

O fato é que justamente esse comportamento de Toinho talvez tenha sido fundamental para ganhar a eleição de forma tão enfática. Os seus traços grosseiros, suas falas desconexas, suas respostas simplórias aproximou ainda mais o eleitorado mais humilde de sua figura. Lembro de ter ouvido da boca do candidato Edson Vieira que havia uma grande dificuldade dele em penetrar nas camadas mais pobres da cidade. Some-se que na época o mito Lula estava no auge,a maioria das pessoas viam nele um exemplo de político que deveria governar. 

O sucesso eleitoral de Lula lançou dentro das cabeças a ilusão de que o bom político não deveria ser um técnico, alguém  com formação acadêmica ou sucesso empresarial, mas sim homens humildes, que supostamente conheceriam a realidade do povo e que por isso supostamente ele saberia encontrar soluções fáceis para os problemas. Alguém que governaria com o coração e simplesmente mudaria o foco da máquina pública em direção a promoção do bem estar dos mais humildes. Vendeu-se a ilusão de que o poder pode ser exercido sem problemas por um mero ato de vontade e que se a origem social de um político é humilde então isso seria um pré-requisito para que ele fosse um bom governante, se o candidato fosse de origem rica ele seria então automaticamente um “inimigo do povo” e só pensaria em beneficiar os ricos.

Toinho se aproveitou muito dessa representação positiva que reinava quanto a sua figura. Escondeu todo seu despreparo no fato de que era um homem do povo, de fala incorreta, mas que sabia o que o povo passava, que seu adversário era um riquinho que estava na política por interesses particulares. E não adiantava tentar explicitar a falta de capacidade de Toinho, isso era interpretado como ataque pessoal e não como uma constatação evidente (o que era de fato). 

Daí seguem-se músicas falando da origem humilde de Toinho do Pará e outras falando que o candidato adversário lavaria as mão com álcool depois de cumprimentar os pobres. Segue-se a dizer que Toinho do Pará nunca estudou mas sempre trabalhou pelo povo (fazendo o que?) enquanto o adversário “comprou anel de doutor”.

Enfim, a antipatia nutrida pela maioria da população humilde contra os ricos mais uma vez se refletiu na política, o candidato adversário passou a representar a elite egoísta formada por patrões mesquinhos. A eleição então se tornou a forma que a população encontro de se vingar desta “elite mesquinha”. Não importa se o seu patrão vota no mesmo candidato que o seu, importa que o candidato dos ricos é o outro e ele deve ser derrotado.

A campanha de Toinho ganhou esse aspecto da mais vil vingança, algo claramente alimentado por ele e seus aliados em canções discursos e etc. O falas das ruas bradavam palavras de zombaria ,vingança e rancor. O nível de revolta era tal que perdeu-se totalmente o que restava de senso crítico quanto ao que era dito em palanques, em um comício o candidato Toinho do Pará chegou a dizer:   O candidato do outro lado diz que é o mais preparado, preparado, que eu saiba, é um prato de cuscuz com sardinha”  (antes que algum desinformado pense que é piada, garanto e tenho como provar com testemunhas, muitas por sinal, que ele disse isso. Essa foi uma das menos horríveis, diga-se). A campanha de Edson Vieira, apelando ao fato dele ser supostamente “o mais preparado” e atrelada a sua falta de carisma, via-se de mãos atadas ante a uma ofensiva tão forte e também que estava em sintonia profunda com os sentimentos que o povo levava para a política naquele momento.

Esse sentimento refletiu-se nas urnas com uma vitória acachapante de Toinho do Pará: 2991 votos de vantagem, até hoje a maior vitória eleitoral nas eleições.
O resultado todo mundo sabe, o governo municipal que já dava claros sinais de desgaste desde 2007 apenas seguiu seu rumo e terminou por desmantelar de vez o município. O governo de Toinho pode ser taxado claramente de desastroso, menos por culpa dele e mais pela herança maldita deixada por seu antecessor. Em quatro anos a prefeitura sucateou todo o maquinário público, transformou a saúde municipal no paraíso das negligências médicas, o que custou algumas vidas, a estrutura da educação foi a um nível desprezível, faltando até água de boa qualidade para os alunos beberem (só não ficou pior pela ação heróica dos professores do município, que seguraram as pontas como dava), apenas na questão dos salários do professores Toinho merece elogios (mas salário, por mais importante que seja, está longe de ser tudo na educação). Isso para não citar desmandos em todas as outras áreas, que se fosse citar aqui o blog não suportaria a quantidade de texto (se é que alguém vai já agüentar ler esse texto enorme que fiz).

Hoje, dia 30/12 é o penúltimo dia desse governo nefasto, que de tão ruim destruiu até a figura do político mais vencedor eleitoralmente em Santa Cruz do Capibaribe, o José Augusto Maia. A derrota do Maia é um castigo justo pelo desmantelamento promovido por ele e seu grupo no município. Não há figura mítica ou heróica que resista a desmandos diversos, como merenda escolar ruim, hospitais sem médicos e remédios, ruas esburacadas, especulação imobiliária, fraudes e rejeição de contas no TCE. Nem mesmo a ação parcial de duas rádios FM puderam salvar o grupo taboquinha e seu semi-deus da derrota eleitoral. Como disse anteriormente neste texto, não é porque a população é pouco escolarizada que não saiba entender a realidade, o erro de José Augusto foi pensar que todo mundo era burro de continuar votando nele e em seus aliados mesmo com desastre em marcha comandado por ele e seus asseclas apenas por que ele um dia se apropriou de um discurso que se mostrou eficiente. Apelou para o ódio, para o rancor e para o preconceito, não teve a hombridade de levantar um debate político sério sobre o município e sua realidade, achou que sempre seria capaz de manipular a todos. Agora vive de mastigar o rancor da derrota, espero que esse seja apenas o início de uma longa derrocada política. Desejo que seus algozes não tenham misericórdia.

Ao grupo vencedor e seu prefeito Edson Vieira prefiro manter um conveniente silêncio. O futuro dirá se eles mereceram a chance que tiveram ou terão que ser esquecidos, mas contam com a minha torcida. Estou claramente otimista.

Desejo a todos um 2013 de paz, alegria e vitórias contra a tirania.