segunda-feira, 21 de outubro de 2013

OS BLOGS DO BLOG

Deixo aqui minhas indicações de blogs que me inspiraram em maior ou menor grau a criar o Desacordo Moral Razoável, também indico outros blogs com estilos bem diferentes do meu, mas que gosto de acessar ou que tiveram seus momentos de glórias passadas.

ARAPUCAS LIBERTÁRIAS E LETRAS ELÉTRICAS

Escritos pelo mineiro José Geraldo Gouveia, um historiador e escritor que trabalha como bancário, são meus blogues preferidos, especialmente o Arapucas.
No Arapucas José Geraldo escreve com clareza e desenvoltura, além de algumas sacadas irônicas muito legais, sobre política, religião, atualidades, história e filosofia. Um blogue que foi elaborado na intenção de rebater o pensamento libertarianista (nova moda nas discussões 'políticas´ nas redes sociais, baseados em Ayn Rand e Mises), mas que vai muito além disso. A grande sacada dos textos do blogueiro no Arapucas são as constantes citações de acontecimentos históricos para sustentar o ponto de vista do blogueiro.
Realmente é muito bom.
Alguns bons textos:

A Psicologia e a Homossexualidade

A Crítica Anarcocapitalista ao Estado

  A Psiquiatria como Arma Política

No Letras Elétricas o foco é literatura, publicação de contos e crônicas originais e tradução de outros textos de literatura internacional que são pouco conhecidos por aqui.
Indicações:

Avós Rebeldes

Mais Compreensão do que Estudo…

O Sábio Louco e o Ignorante Vigoroso

Grãos de Areia na Praia


 Caótico
Outro blogaço, do jornalista, escritor e tricolor-coral Inácio França. É um blog mais centrado na literatura e no jornalismo, mas a literatura predomina. Há excelentes indicações de livros e os textos de Inácio são muito bons, simples, sem afetações, deixam o leitor com vontade de adquirir as publicações resenhadas. O blog conta com a participação de alguns colaboradores, em especial Samarone Lima (escritor do blog "Estuário" e parceiro de Inácio no sempre genial "Blog do Santinha", além de excelente escritor. Logo dois livros seus serão resenhados aqui no Desacordo).

Bons momentos:

Quando os farsantes falam a verdade

Minha vida

Pulphead

 

Bertone Sousa

 Escrito por um professor historiador da Universidade Federal do Tocantins, é um blog excelente por procurar ser embasado e equilibrado em suas postagens. Não há uma propaganda explícita de nenhum credo político. Percebe-se um certo esquerdismo em Bertone, mas ele é bem ponderado, sem afetações exageros ou desonestidades intelectuais. Há grandes virtudes no blog, as postagens sobre política e religião são muito boas e as discussões sobre História são excelentes. O único problema do blog talvez seja a navegação que se torna difícil as vezes.

Indicações:

 Olavo de Carvalho: um filósofo para racistas e idiotas

A confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho 

Por que Marx ainda assusta os conservadores? 

Irracionalismos da direita brasileira 

A importância (e o perigo) das ciências sociais

 

Bule Voador

teve dias melhores. Era um blog que discutia ateismo e humanismo secular de forma contextualizada, com textos acadêmicos muito bons e artigos de primeira linha. Sempre trouxe grandes reflexões  de escritores consagrados. O problema do Bule é que de dois anos pra cá ele perdeu a mão, passou a centrar-se apenas na causa feminista e LGBTT, esquecendo as discussões sobre ateísmo, ceticismo e outros temas não relacionados a questão de gênero. Fora isso os textos tornaram-se chatos, pesados, sem algo novo pra mostrar. 
Atualmente a qualidade caiu muito, os grandes momentos estão em tempos passados:

O anti-intelectualismo num mundo em transformação

 

Slavoj Zizek: O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar.

 

O Brasil que lincha primeiro e pergunta depois 

 

O famigerado discurso ateofóbico de José Luiz Datena


 

 

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nem mesmo uma leve sombra?

 
Carrego uma impressão(bem arbitrária, confesso) de que na disputa entre direita x esquerda a "direita" sempre existe a "esquerda" some em certos momentos, torna-se um mero arremedo de proposta política que de tão deformado torna-se impossível definir pelo que luta politicamente.
Acho que vivemos um momento assim no Brasil, todos os partidos grandes, com respaldo eleitoral, pendem para a direita, uns mais outros menos, mas pendem!
Quando vejo Lindberg Farias, ex-jovem-revolucionário-cara-pintada aliar-se ao Silas Malafaia para tentar vencer a eleição do Rio de Janeiro sinto que vivemos esse momento: a esquerda sumiu.
 Como a esquerda luta contra os "Status Quo" supõe-se que seja dela a missão de desafiar as elites, as oligarquias, de denunciar os mecanismos que camuflam a dominação exercida por certos grupos sobre o povo. Não é só uma questão de mera luta de classes, é uma questão de promover autonomia do povo. 
A maior das utopias é que um dia o mais reles cidadão tenha senso crítico suficiente para não se deixar manipular pela mídia, pelas igrejas "peque-e-pague", pelos sindicatos meramente cartoriais, pelos professores mal-intencionados. Ser de esquerda é querer que o mais simples porteiro, gari, marceneiro seja capaz de fazer os maiores representantes do poder teme-los, e esse temor não ser mero fruto de ódio irracional momentâneo, como nos protestos de junho/julho, mas seja fruto de um senso crítico presente nas massas, nos mais simples dos homens. Isso não se conquista meramente elegendo um partido ao poder. Não se conseguirá isso apelando aos mesmos que emburrecem e alienam, não da pra esperar da grande mídia, das igrejas, dos políticos profissionais, a solução dessas coisas pois ele se alimentam da alienação ululante.
Assim vivemos num momento que não temos esquerda. O importante é o poder e só, que se danem as reivindicações sociais. Qual oligarquia o PT desafiou? Qual grande mídia teve seus interesses feridos pela atuação do governo petista? Como os professores são tratados em estados aliados do governo? Onde o latifúndio foi confrontado? Onde o povo tornou-se real participante do poder? 
Para que se entenda como o caso de Lindberg Farias é simbólico no que se refere a ausência de esquerdas relevantes no país é só pensar em quem é o Silas Malafaia. Mais do que lembrar de que esse líder religioso é um personagem de ultra-direita, reacionário puro, que cospe ódio contra os movimentos LGBTT, contra os ateus e que nas últimas eleições rebaixou a discussão política a mera discussão moralista-religiosa (onde acusava vergonhosamente Dilma de ser ateia, abortista e onde execrou o nome de Marina Silva por ela se recusar a curvar-se diante de sua agenda intolerante, isso a beira de um 2º turno com a candidata do PV quase passando Serra), é preciso também ver quem é esse sujeito como pastor, como líder religioso.
Malafaia é um expert em enganar os fiéis com a sua pirotecnia teológica-gospel. Desceu ao nível da vigarice religiosa mais baixa possível com as suas famosas "unções financeiras de R$ 900" (valor módico, hein), seus "trizimos da casa própria", suas bíblias de "batalha espiritual e vitória financeira", ou ainda com a sua promoção baixa de pseudo-ciências e defesa da horrenda causa da "cura gay". Isso entre outros fatos pouco lisongeiros...
Fico a pensar: que esquerda é essa que busca apoio justamente daqueles que mais alienam o povo? O caso não é só o Malafaia, que antes era um inimigo declarado (na verdade ainda é inimigo declarado de Dilma e do PT, se não é no Rio de Janeiro é porque deve haver algum interesse talvez pouco republicano).
A direita brasileira sempre utilizou dessas táticas baixas de perversão do discurso político para desqualificar o PT eleitoralmente, o que era um sinal de sua clara crise, da ausência de propostas, do seu fracasso político. Em 2010, na campanha Dilma X Serra, o desespero da direita nacional a fez cair numa cruzada teocêntrica contra o PT, com deturpações, mentiras deslavadas (como o caso do "satanismo" de Michel Temer, ou de que Dilma era ateia e que "zombou de Deus), com aliança junto a Assembleia de Deus, CNBB, grupos reacionários católicos, demais igrejas pentecostais, todas em coro uníssono de que  Dilme e o PT eram o "partido do demônio" e "inimigo dos cristãos". O fato é que Dilma e principalmente o PT venceram esse mar de obscurantismo, não que isso limpe a ficha do Partido dos Trabalhadores, mas foi uma vitória histórica e heróica.
Hoje parece que o PT e seus aliados  mais tradicionais definharam de vez nesse mar de obscurantismo. Claro que as contradições já vinham de antes, com acordos espúrios para manter a frágil governabilidade, mas dessa vez o PT está escolhendo tornar-se um partido indefensável, está destratando seu legado de inclusão social, estabilidade, crescimento econômico e luta pela erradicação da miséria ao atrelar-se aqueles que lutam contra autonomia das pessoas.
 
 Indico também artigo do deputado Jean Willys sobre a pavorosa aliança Lindberg/Malafaia
 " A transparência do mal" por Jean Willys, na Carta Capital
Uma frase muito repetida e cuja autoria é atribuída a Confúcio – embora não se saiba ao certo se é mesmo dele – diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”.  Ainda que existam palavras que mil imagens não consigam traduzir (“honestidade” é uma delas!),  trata-se de uma verdade válida para a maioria das imagens, inclusive para a fotografia de um culto evangélico que circula pelas redes sociais e que veio parar em minha caixa de e-mails no fim de semana.  Nesse flagrante fotográfico, o senador Lindberg Farias (PT-RJ) aparece “orando” ao lado do pastor e empresário Silas Malafaia: uma imagem que diz tanto quanto todas as palavras de O príncipe, de Maquiavel, ou Fausto, de Goethe.
Não é segredo para ninguém que o senador Lindberg Farias é pré-candidato do PT ao governo do Rio de Janeiro. E que sua pré-candidatura ameaça a aliança sempre conflituosa - sempre por se romper a qualquer interesse privado não atendido – entre seu partido e o PMDB, sigla que no momento não só governa o Rio, mas tem a vice-presidência da República, além de presidir as duas casas do Congresso Nacional.  O atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, mesmo sucumbindo a uma impopularidade sem precedentes, fruto de denúncias de corrupção em sua gestão, não quer a candidatura de “Lindinho” e pretende eleger seu vice, Pezão, a qualquer preço. Ameaçado pelo impacto negativo de sua pré-candidatura na aliança nacional entre PT e PMDB e sentindo que esse impacto se amplia na medida em que a parceria entre Marina Silva e Eduardo Campos emerge como a possível aposta da “grande mídia” para eleições do próximo ano, Lindberg decidiu pôr a alma à venda em busca de força para sua empreitada. Ora, se o fato de se pôr a alma à venda já suscita um debate sobre ética, imaginem quando a alma é oferecida a negociante que costuma pagar pouco e pedir mais que alma!
Todos sabem como Silas Malafaia se comportou nas eleições de 2010 em relação à então candidata do PT Dilma Rousseff. Em conluio com José Serra, candidato do PSDB, ele demonizou a petista e reduziu o debate eleitoral a uma agenda moralista - quase fascista – que obrigou os principais candidatos à presidência a se colocarem contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e contra a cidadania plena de homossexuais. Não contente, nas eleições do ano passado, Malafaia tentou derrubar o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com a mesma estratégia de demonização e rebaixamento (aliás, o apoio do pastor ao candidato do PSDB me levou a sair em defesa de Haddad mesmo contra a vontade de meu partido).
A militância petista teve ânsias de vômito quando viu imagens de José Serra em cultos evangélicos, acompanhado de Malafaia, proferindo expressões cristãs – “A paz do senhor, irmão” – que, em sua boca, soavam tão naturais quanto um pacote de Tang. O que essa mesma militância estará dizendo de seu senador?
A foto de Lindberg orando ao lado de Malafaia me fez lembrar das lições de Roland Barthes na memorável A câmara clara, obra que li para a disciplina Fotografia quando cursava Jornalismo nos idos anos 90. Nela, Barthes elabora dois conceitos - Studium e Punctum  - para se referir a dois modos de envolvimento com a fotografia. O studium corresponde a uma “leitura” da fotografia por meio de critérios e objetivos definidos; uma espécie de crítica intelectual da imagem a partir de um repertório cultural. Posso dizer, então, tendo em vista o studium da foto em que o senador do PT aparece “orando” ao lado do pastor fundamentalista e boquirroto, que a mesma revela um “fenômeno extremo” da contemporaneidade: o abraço eivado de cinismo entre o marketing e a política.
A expressão “fenômenos extremos” é utilizada pelo filósofo francês Jean Baudrillard, em seu excelente A transparência do mal, para se referir aos episódios da atualidade que correspondem à substituição do real por “simulacros”. A foto da conversão de Lindberg não é só um “simulacro” do real mas, antes, uma simulação descarada. Nela, o mal – a mentira, a enganação, o oportunismo, a desonestidade intelectual, a venda da alma ao diabo - é transparente a quem quer que se preste a “ler” seu studium.
Já o punctum é, segundo Barthes, algo que, na imagem, toca-nos independentemente daquilo que, nela, vemos de imediato ou buscamos. Nas palavras do autor, o punctum é “um detalhe”; “são precisamente pontos”; “pequena mancha, pequeno corte” [na fotografia]. Trata-se de uma “leitura” não-intelectualizada da imagem; intuitiva; um ponto na foto para o qual o olho se dirige quase contra a vontade; um traço notado mesmo que tudo na foto chame mais atenção que ele. Varia de acordo com o leitor. Para mim, o punctum da foto de Lindberg “orando” ao lado de Malafaia é o riso mal-disfarçado de ambos. Ambos têm consciência de que estão enganando um eleitorado que não por acaso é chamado e tratado como “rebanho” pelo seu pastor. Esforçam-se para parecerem convincentes – e tudo na foto reforça a verossimilhança da cena, inclusive o nome “Jesus” ao fundo. Mas o punctum os desmascara e revela o riso da serpente.
 

domingo, 13 de outubro de 2013

"GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA FILOSOFIA" - Pondé tão mediocre quando a mediocridade que denuncia




Relutei em comprar o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” de Luis Felipe Pondé pois vejo a olhos nus o estrago intelectual que o trabalho co-irmão desse (as três edições do “Guia Politicamente Incorreto da História” de Leandro Narloch) tem feito. 


Esses “guias” servem ao interesse imediatista do mundo atual. Vivemos uma época em que quem quer emagrecer compra um remédio milagroso no lugar de fazer dieta e malhar, e quem quer ter opinião sobre as coisas prefere se apegar a qualquer informação rápida e redentora, da qual já se alimenta simpatia de antemão, do que buscar conhecimento profundo.


Tais publicações servem para dar argumentos ao pensamento reacionário atual, a esses indivíduos de pensamento enviesado que só estudam aquilo que lhes agrade (isso quando estudam, claro) e que ficam dando piti quando precisam estudar sobre algum tema com o qual arbitrariamente não simpatizam (vide o caso do “garotodefensor de valores democráticos” que se recusou a estudar Marx na faculdade e defendeu “democraticamente” o banimento do marxismo).  Tenta-se buscar na história legitimação para os ideais mais reacionários, para as maiores desonestidades intelectuais; lógico que para isso é preciso se apegar a fontes obscuras, fazer uma leitura descontextualizada dos fatos e, claro, disposição desavergonhada em mentir. Assim encontra-se nessas publicações afirmações que o nazismo era de “esquerda” porque o partido se chamava “Nacional-Socialista Alemão”, só para ficar em um exemplo da desonestidade argumentativa desses indivíduos.


Movido por essa desconfiança fiquei temeroso em comprar o livro de Luis Felipe Pondé, mas a curiosidade foi maior e comprei-o. Minhas expectativas milagrosamente...     se confirmaram! O livro é um tratado de reacionarismo, de defesa de ideais antidemocráticos, preconceito social, machismo e desleixo e desrespeito contra tudo aquilo que se mostra contrário ao ponto de vista do autor. Claro que Pondé também cometerá acertos no livro, mas eles são em ampla minoria.


Pondé tem estilo, escreve com clareza, desenvoltura e sem rebuscamentos, mas logo nas primeiras páginas já mostra um traço comum nos autores desses “guias”: o ataque a quem pensa diferente, a desqualificação a quem discorda dele. Assim chovem adjetivos como “preguiçoso”, “medíocre”, “covarde” contra seus antagonistas.

Como sabe que em tempos de governo de esquerda falar que é de direita dá muito audiência, Pondé radicaliza e logo nas primeiras páginas sai com tiradas ácidas  contra a democracia e em favor de um pensamento aristocrático. Para Pondé o homo vulgaris, a massa inculta, não sabe sobre o que se debate de fato em uma democracia (isso é verdade) e por isso acaba por dobrar as decisões políticas à sua vontade ignorante. Apesar de haver alguma substância de verdade nas falas de Pondé sobre isso, percebe-se na verdade um grande recalque por parte dele, talvez com o momento político e social vivido pelo Brasil, onde a “pobretada inculta” vive com mais dignidade e freqüenta alguns espaços que antes lhes eram inacessíveis. A mentalidade reacinha de Pondé aparece logo aí; pra ele pobre tem mais é que chafurdar na pobreza, andar de cabeça baixa, e pronto.


“Costumo dizer que aeroportos e os aviões, além de todos os lugares do mundo, viraram um grande churrasco na lage” (pág 17)


 “Quando se acentua a igualdade na democracia, amplia-se a mediocridade” (pág 50)


O grande inimigo listado por Pondé no livro é o pensamento do “Politicamente Correto”, que segundo ele é uma praga que vive a castrar a liberdade de pensamente e que é desonesto intelectualmente. A maior expressão do politicamente correto, segundo Pondé, é a “Teoria de gênero” e sua idéia de que a sexualidade é algo construído socialmente. A crítica de dele ao feminismo é ácida e mal educada, apelando para um processo de desqualificação das feministas enquanto pessoas. Isso demonstra o quanto o “filosofo” foi cirúrgico na escolha das palavras e qual o público que busca atingir. Os reacinhas de plantão são figuras que se sentem superiores e adoram xingar seus adversários ideológicos, em muito por falta de argumentos (é praticamente impossível um debate decente e civilizado com um reaça moderno). Por isso Pondé carrega na desqualificação covarde contra as feministas, ainda que certas críticas suas ao feminismo estejam corretas, se não xingar o reaça politicamente incorreto não compra o livro (Lobão, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo são provas disso):


“feministas, normalmente, são azedas porque são feias” (pág 80)


Mas a parte que considerei mais ofensiva foram as reflexões sobre educação. Para Pondé a maioria esmagadora dos professores escolhem essa carreira porque são medíocres. Mas concordo que algumas coisas que ele fala sobre a classe de professores são reais para uma boa parte deles: que poucos tem apreço pela leitura e o estudo, que poucos valorizam a erudição e a polidez, que consomem lixo cultural desavergonhadamente (numa clara contradição com a sua posição de alguém que deveria querer elevar o nível cultural e intelectual do aluno), etc.


O problema dessa parte é que Pondé coloca quase todos no mesmo saco, mas coloca-se como exceção, claro, afinal ele é um “iluminado aristocrata-intelectual”. Vergonhosamente desqualifica as ciências humanas dizendo que nada de bom surge delas. É o lado mais asqueroso do livro porque o ódio as ciências humanas é a face mais estúpida do reacionarismo. Os conservadores-reacionários detestam as ciências humanas pois elas desafiam o senso comum, contestam a estabilidade social aparente, e Pondé, um filósofo, as desqualifica abertamente. Esse sentimento de ódio aos intelectuais me lembra muito o sentimento do nazismo contra os intelectuais, especialmente das ciências humanas, expresso na frase de Gobbles: " QUANDO EU OUÇO FALAR EM CULTURA EU PUXO O REVÓLVER".


“Na maioria dos casos, professores de universidade (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas” (pág 97)

“As ciências duras ainda podem entregar remédios e ‘robots’, as ciências humanas não tem nada para entregar” (pág 101)


O desprezo a intelectualidade é a marca do estúpido politicamente incorreto, além da grande admissão de burrice que é apelar para um ataque tão vil. Esse deboche do Pondé quanto a seus pares mostra outra característica do novo imbecil reacinha: ele se acha especial. Pensa que não há necessidade de aprender na escola, de ouvir o contraditório, de estudar. Sentem-se especiais a ponto das conjecturas que eles elaboram dentro da sua ignorância serem maiores do que conhecimento científico amplo, assim só valem pra eles filósofos, sociólogos e historiadores que estejam de acordo com seu ponto de vista desenvolvido arbitrariamente.

Mas admito que fiquei feliz ao ler esse trecho quando lembrei dos meus amigos reacinhas que infestam cursos de Filosofia, Letras e História. Fico a pensar o que eles acham de um de seus ídolos o chamarem de medíocres. (Fina ironia, hehehehe)


Pondé caminha pela mesma estrada de gente como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, Lobão, que vestem de estilo as ideias mais estúpidas (restrição da participação popular na democracia, desprezo pela educação escolar, deboche contra professores e intelectuais das ciências humanas, machismo).

Sinto-me mal em ter dado 40 reais para essa turma do politicamente incorreto, em financiar essa gente que se arroga de professor, filósofo, historiador e jornalista para difundir preconceito e apologia a ignorância e estupidez. Se algum reaça quiser me comprar o livro pelos mesmo 40 reais eu vendo na hora, mas aviso que vou usar a grana para comprar algum livro que realmente preste.



Um texto que desnuda o estilo de argumentação de Pondé e seus congêneres

sábado, 31 de agosto de 2013

Os médicos viraram propaganda política para todos os lados



Realmente que é um risco trazer médicos de outro país para clinicar no Brasil. Não somos uma zona de guerra precisando de amparo a todo custo

Está claro que esse programa é uma grande jogada eleitoral do PT e da Dilma, é nítido vai ter um efeito demolidor nas próximas eleições. Ainda mais agora que a presidenta luta para se recuperar da gigantesca queda em sua popularidade (causadas pela enorme onda de protestos que só serviram para derrubar seus índices de aprovação).

Também é lógico que a solução para a saúde está em se ter um misto de recursos financeiros, gestão competente e transparência nas contas a fim de evitar corrupção. Que é necessário ao governo investir na formação de mais médicos, ampliar as vagas nas faculdades

O engraçado é que dias atrás era quase uníssono que os médicos também não ajudavam, que "mal olhavam na cara dos pacientes", que só se importavam com clínicas particulares, que eram preguiçosos e etc.

Boa parte dessas críticas aos médicos eram justas para a maioria, outras não.

Num pais como os EUA seria impensável um programa desses, pois saúde por lá, assim como quase tudo, é tratada como mercadoria . Se existem indivíduos que não podem pagar pro tratamento médico... paciência!! Essa parece ser também a mentalidade dos médicos brasileiros que se levantam de forma raivosa contra a vinda de médicos estrangeiros (especialmente cubanos): saúde é para quem pode pagar, ou para cidades que possam pagar (centros urbanos com razoável estrutura).

O fato é que, ao contrário da visão mercadológica, está cristalizado na visão do povo brasileiro de que saúde não é mercadoria, é, em sua visão, um bem social pelo qual o Estado deve zelar. (antes que alguém diga que isso é fruto de doutrinação esquerdista vale lembrar que a Inglaterra ultra-liberal de Margareth Tatcher privatizou quase tudo entre 1979 a 1990, mas não ousou tocar um único dedo no sistema de saúde pública inglês).

Essa noção de que saúde é um bem público torna-se uma sinuca de bico para os governos e governantes: de um lado ninguém teria coragem de defender a privatização da saúde abertamente, confessando a incapacidade do Estado e a sua enquanto administrador, de outro lado sempre encontram na saúde pública um calo na sua imagem política porque simplesmente o negócio parece não ter jeito. A realidade é que o povão, a massa eleitoral que decide eleição, pragueja sempre por um sistema de saúde decente que nunca existiu em momento algum e que não se sabe como atingir.

Quando uma parte considerável da população saiu em uma enorme onda de protestos pelo país o mantra "mais saúde, educação e segurança" era repetido exaustivamente pelos manifestantes de boutique que postavam orgulhosamente as fotos no facebook. É uma causa justíssima, claro, mas o fato é de que ninguém fazia a menor ideia de como produzir isso, as pessoas apenas queriam e bem rápido. Mesmo com esses problemas tendo profundas raizes históricas no Brasil quem pagou o pato foi o governo da Dilma, que acabou sendo o alvo dos protestos e sua popularidade despencou.

Esse fenômeno se deu por um problema muito comum presentes em quase todas os levantes de massa: o imediatismo. Quando uma turba humana se forma de tal maneira, exigindo mudanças sociais e políticas ainda que nesse caso ninguém soubesse bem sobre o que protestava, ela vai carregada da ilusória sensação de que a história é apenas um ato de vontade dos líderes ou do povo. Que é possível romper com um legado histórico enraizado apenas por tomarmos consciência de que ele é mal. É um pensamento infantil.
 Só para ficar em um único exemplo poderíamos pensar que se fosse assim as oligarquias políticas já teriam sumido faz tempo. Quem nunca ouviu alguém dizer "esse partidarismo é o atraso da cidade, isso tem que mudar"? No fim das contas o cara vai lá e vota em um dos dois partidos. Tomar consciência de um problema não torna possível sua imediata superação.
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Um dos efeitos de nossa formação social, pelo menos eu enxergo assim, é a nossa incapacidade de fazer as coisas coletivamente e também a nossa incapacidade de enxergar as coisas a longo prazo. Nossa cultura social e política, tanto de direita quanto de esquerda, não enxerga as mudanças como atreladas a processos maiores vigentes na sociedade, todos querem obras rápidas sejam elas obras de caráter social, estrutural ou administrativo. Uma obra rápida serviria como um xeque-mate diante de qualquer posição contrária as suas, quando o governo não consegue um xeque-mate o pensamento da oposição cresce.

O programa Mais Médicos não foi pensado de última hora, já ouvia-se falar dele a muito tempo, e é nítido que é uma estratégia do governo para maquiar o desastre que é a saúde pública no Brasil (desastre que não foi crido por ele, mas que foi mantido). No Brasil a maior parte dos hospitais públicos não tem a menor estrutura, faltam equipamentos básicos, faltam leitos, remédios e... médicos!!! Um processo para transformar a saúde pública no país demoraria uns vinte anos no mínimo (isso é só um chute meu), não se muda uma estrutura viciada com um estalar de dedos. 

Mas como disse antes a nossa sociedade não tem o costume de trabalhar em conjunto valendo-se de um ideal coletivo e de longo prazo; o povão gosta de obra, de hospital feito e de... médico! Pra ele não interessa de onde vem o médico, desde que tenha. Lógico que há uma clara desconfiança com a qualidade desses profissionais, mas desde quando os doutores brasileiros inspiravam confiança para o povo? Umas das coisas que mais vejo o povão reclamar é de profissionais que sequer olham na cara dos pacientes, do vício em receitar injeções e diagnosticar viroses e dar atestados de 10 dias... Para o povo os médicos também eram parte do problema, pois ainda está cristalizada na visão popular de que o médico deveria ser um indivíduo que trabalha por amor, que exerce um tipo de sacerdócio e, diante disso, a insensibilidade de parte substancial da classe médica torna-se chocante para o cidadão comum. 

Lógico que não estou condenando os médicos por essa postura desestimulada, o cara para ter motivação tem que ter condições de trabalho e dinheiro no bolso (como professor eu sei bem disso), não me venham com essa de "sacerdócio" pois até o sacerdote trabalha recebendo dinheiro. Sem estímulo qualquer um corre para a iniciativa privada pois ela paga melhor. Mas uma coisa nada tem haver com a outra; assim como um professor não pode usar o baixo salário e as más condições de trabalho para não exercer de forma compromissada e responsável sua profissão, o médico também não pode e as pessoas sabem disso e os cobram uma postura mais humana.

O fato é que a cegueira ideológica de quem é contra o governo não importa o que ele faça passou a tratar os médicos como "heróis da resistência", como se fossem todos almas caridosas que estão sendo constrangidos pelo governo. Existe um tipo de pessoa que cobra soluções rápidas pra tudo, que acha que o poder só não resolve problemas milenares porque não quer, que exige soluções rápidas mas que depois reclamam que essas mesmas soluções são grandes furadas (toda solução rápida para um problema grandioso é uma grande furada).

O fato é que o medo dos oposicionistas ao governo do PT é o impacto eleitoral de tal programa num ano de eleição como 2014. O problema para a oposição não é o emprego e a valorização dos médicos brasileiros (a própria oposição quando era o poder cogitou fazer programa semelhante [veja aqui]), o medo é de um impacto eleitoral avassalador, daí esse terrorismo, essa tentativa de desqualificar o programa já no seu início. Podem esperar chumbo grosso por parte da mídia ligada a oposição, haverá um sensacionalismo extremo. Se algum médico estrangeiro, especialmente cubano, cometer um erro vai dar capa de jornal, de revistão semanal, vai render matéria na televisão e isso numa proporção infinitamente maior do que é dedicada quando algum médico brasileiro do SUS comete algum erro. Vão tentar criar a ilusão de que a saúde pública era boa e quem estragou foram os médicos cubanos.

Como miopia ideológica pouca é bobagem ainda há a corja de trogloditas intelectuais que afirmam que esses médicos são guerrilheiros disfarçados que fazem parte de um projeto continental de comunismo tramado por Cuba com a conivência do PT (engraçado como um país pobre e subdesenvolvido tem um poder espetacular na imaginação delirante de certas pessoas). A esses nem se deve perder tempo respondendo, o que querem é que justamente seu delírio seja levado à sério.

Quanto ao PT ele está dando um golpe político certeiro, tá sabendo transformar o limão político que foram as manifestações em uma limonada. As pessoas exigiram respostas rápidas, o governo está dando. Lógico que o programa  não soluciona os reais problemas da saúde pública no Brasil: a falta de gestão. Mas o governo está sabendo se aproveitar do imediatismo popular para construir para si uma imagem de que é capaz de conseguir soluções para os problemas da nação. Se o programa der certo vai ser um ganho eleitoral gigantesco para Dilma, e se a organização da Copa do Mundo não for uma vergonha mundial e a economia se mantiver estável a reeleição da presidenta é líquida e certa.

Enquanto o abismo intelectual que marca nossa sociedade não for sanado soluções como essa encontradas pelo atual governo serão frequentes nas mais diferentes áreas. Não adianta reclamar ou se exaltar só porque se votou contra ou a favor do governo. O problema é que falta nas pessoas uma "visão de sociedade" e assim o potencial de um partido ou político é medido pela população pelos benefícios imediatos que podem trazer. Nossa sociedade é formada por pessoas que estão incapazes de discutir um projeto político mais complexo. Faça um teste: pergunte para alguém de qualquer idade, sexo e classe social o como funcionam os 3 poderes e quais as limitações de atuação de cada um, você verá que as respostas da enorme maioria é algo perto da sandice (uma aluna uma vez me disse que vereador era um "dono de bairro").

Os únicos que alimentam uma visão de sociedade são aqueles que defendem pensamentos autoritários como a volta da censura ou da intervenção militar no poder, trogloditismo puro! Eram esses que antes xingavam a a insensibilidade dos médicos e agora passam a tratá-los como "heróis defensores da liberdade contra o comunismo petista".

Enquanto isso as cidades pobres do Brasil continuam sem médicos.

sábado, 3 de agosto de 2013

A solução para o Santa Cruz é ir na contramão do processo de fascistização.



O futebol tornou-se algo muito caro, proibitivo para os mais humildes, e isso é mal para o esporte. Está acontecendo uma nítida inversão na função social do futebol. Antes o futebol era um esporte nitidamente popular, os estádios enchiam com mais facilidade (apesar das péssimas instalações) e o povão era a cara dos estádios. Os estádios eram multirraciais e, dentro de certos limites, um espaço que unia pobres e ricos ainda que os ricos ficassem nas cadeiras numeradas e os pobres ralando a bunda no concreto da arquibancada. O fato é que o futebol era popular no melhor sentido do termo: ele era de  TODOS, do pobre, do classe média e do rico

Hoje  o futebol afastou-se das pessoas e tornou-se algo caro. Os altos investimento trazidos pela Copa e pelas tentativas de profissionalização das gestões dos clubes encareceram o espetáculo. As altas cotas de TV inflacionaram a receita dos clubes e os salários dos jogadores e todos correram atrás de quem tem muito pra gastar: a elite. E a espiral inflacionária do esporte perdeu o controle de vez.
Hoje uma camisa oficial de um clube de massa, mesmo um da série C como o Santa Cruz, custa em média uns R$ 170,00 (1/4 do salário mínimo), um ingresso mais barato nessas novas arenas não fica por menos de R$40,00. É algo proibitivo, ponto.

 Imaginemos que um indivíduo sem carro quer ir ao estádio com dois filhos no setor mais barato atual (3 ingressos= R$ 120,00), tivesse que pagar passagem de ônibus de ida e volta (gastaria pelo menos uns R$ 18,00, ou mais)e tivesse que comprar refrigerante e cachorro quente pelos preços módicos cobrado no estádio (calculo o gasto em uns R$ 40,00 se o cara for pão-duro). Só aí iriam embora, por baixo, uns R$ 178,00, num único jogo. Até para um membro da classe média-alta esse valor impediria idas freqüentes ao estádio com a família, imaginem então para aqueles com uma renda  de classe C ( que segundo a consultoria Target fica em torno de entre R$ 2.330 a  R$4.500).

As rendas dos jogos hoje são verdadeiros insultos, só o Atlético MG arrecadou 14 milhões de reais em um único jogo da final da Libertadores (só a título de comparação o Santa Cruz teve um orçamento de 14 milhões durante todo o ano de 2012).
Pode-se dizer que a renda dos jogos obedece a lei do mercado, mas isso é balela, a intenção é nitidamente excluir o pobre do estádio. Senão vejamos: qual jogo com pouco apelo midiático, tipo um jogo de meio de semana em campeonato estadual, teve seus ingressos barateados para se adequarem com a demanda e todos pudessem comprar? Você lembra de algum? Eu também não!

O futebol como produto busca a atenção daqueles que tem maior poder aquisitivo. Não importa que os estádios estejam vazios na maioria das vezes, desde que quem compareça compense a ausência do povão. O povão é descartável. Povão não compra camisa oficial por 170 pilas, não pode pagar 40 contos num ingresso duas vezes por semana. Povão não compra o produto anunciado nos patrocínios das camisas. O povão virou indesejável. As consultorias futebolísticas em marketing já pouco se importam com o tamanho das torcidas, mas com o poder financeiro delas.

É um cenário desolador e, danem-se, é fascistóide (não me venham com meias palavras, é fascismo puro).
Logo surgem jornalistas que comemoram a elitização e tentam dizer que o problema não é do futebol e sim da sociedade. Mas se esquecem que entregar o preço dos ingressos para a  simples lei do mercado é, de fato, punir o pobre que é apaixonado por futebol. E o interesse social fica aonde? Só com uma mentalidade preconceituosa e elitista (portanto fascista) é que se defende que futebol seja consumido somente pelos ricos. Hoje o futebol é o cartão de visitas da elite mesquinha que não suporta mais o discurso de inclusão social que até a pouco era dominante, e que está sofrendo uma enorme oposição sendo combatido no campo da política e da imprensa. 

ONDE O SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE ENTRA NESSA?
O Santa é a torcida mais popular do Recife, é o time dos pobres. Isso está impregnado na imagem pública do time. Não é difícil perceber isso na realidade. Nos bairros mais elitizados é possível contar nos dedos quem é torcedor do Santa, a elite recifense me parece tomada por torcedores do Sport e Náutico (apesar de morar na região agreste do estado e visitar o Recife apenas sazonalmente, justamente para ver o Santa jogar, não acredito que esteja errado em minhas impressões). Se o Santa tentar jogar o jogo da elitização do futebol, nunca vai sair de seu lugar.

O poder financeiro está concentrado em alguns poucos clubes do Brasil, especialmente nos fundadores do finado Clube dos 13. Times como Corinthians e Flamengo jamais vão aceitar uma divisão mais igualitária das receitas, outros clube terão que se rebolar para formar times competitivos. Dependerão de um mecenas super rico como a Unimed (Fluminense) ou vão estourar as próprias contas para conseguir grandes títulos (Atlético-MG) ou ainda vão se tornar reféns de empresários do ramo da bola que desfazem os times na intenção de lucrar com a venda jogadores (Palmeiras, Botafogo, Vasco, Bahia, entre outros).
Diante disso o Santa Cruz tem que criar um nicho de mercado que tende a virar quase que exclusivo seu: as classes populares. 

O maior destaque do Santa Cruz na mídia nacional foi justamente pelo fato da equipe lotar estádios. Quando caímos na primeira fase da Série D em 2009 tivemos uma matéria no Jornal Nacional, em 2011 a matéria serepetiu celebrando nosso acesso. Jornais internacionais repercutem matérias sobre nossa torcida. Já tivemos reportagens nos maiores jornais Italianos, Espanhóis e Ingleses (A terra da rainha é a Meca do jornalismo esportivo) sempre tendo como foco principal nosso estádio cheio e a paixão de nossa torcida formada majoritariamente por pobres. 

Num meio onde a elitização deixa os estádios vazios na grande maioria dos jogos, um clube que leva multidões ao estádio é uma pauta fenomenal para os jornais de todo o Brasil. Quem se interessa por uma 4º divisão, ou por uma 3º divisão? Ninguém, a não ser que o Santa Cruz e sua torcida estejam lá (você guarda na memória os campeões da Série D? Duvido!). Com reportagens como essas o nome de nossos patrocinadores é divulgado no Brasil e fora dele, o que torna o clube numa vitrine confiável para a marca e isso atrai mais investimentos.

Um primeiro passo é se livrar do programa “Todos Com a Nota”. Sim!!!. Sei que parece um contrassenso, mas é que o TCN cria uma cortina de fumaça nesse processo de elitização. O negócio então é baixar o preço do ingresso em todos os setores e fazer com que a turma mais humilde possa pagar para ir ao estádio.
O Santa Cruz pode iniciar esse processo com seus próprios sócios. No momento em que escrevo esse texto o Santa Cruz conta com 13.000 sócios em dia (o maior contingente entre os times da série C). Uma boa idéia era colocar pacotes de ingressos para jogos com pouco apelo a preços bem baratos, para equilibrar a demanda. Um exemplo: vender aos sócios um pacote para os 3 jogos da fase inicial da Copa do Nordeste 2014 ao  preço de RS30,00 (média de 10,00 por partida) e para os 5 jogos contra os times do interior no estadual por R$ 35,00 (média de 7,00 por partida). Imaginemos que 10.000 sócios comprassem esse pacote, e que uma parte desses sócios comprassem também para seus dependentes (se não me engano cada sócio do Santa pode comprar até 4 ingressos de uma vez), teríamos algo em torno de 25.000, ou mais, torcedores garantidos nos jogos, e isso sem contar o público não-sócio que compraria por meios tradicionais. Seria uma grande demanda de público para jogos que antes eram sem apelo devido ao preço das entradas. 

Alguns poderão argumentar que isso reduzirá o lucro com as bilheterias, mas isso é balela da grossa já que jogos de fase preliminar e contra times do interior NUNCA  deram lucro a clube algum. Claro que nos clássicos o preço teria uma subida substancial para se adequar com a demanda (um clássico no Recife com ingresso a 10 reais precisaria de um estádio de uns 200.000 lugares para suprir a procura, não estou exagerando)

Lógico que não é só a questão do ingresso que conta. O clube tem que ter uma política vantajosa e eficiente para atrair novos sócios e manter os antigos, tem que melhorar as instalações do estádio e a logística nos dias de jogo. É todo um conjunto de coisas, mas que parte de um processo de popularização para dar certo.

Um exemplo de como a participação popular nos estádios é importante é só pensar no caso do Internacional. Os caras tem 100.000 sócios em dia, o que mantém o clube cheio da grana e formando times competitivos, mas os estádios vazios e isso acaba agregando pouco a imagem do clube. O Corinthians tem metade disso mas lota o estádio até em amistoso, a imagem nunca se desgasta e dá uma maior credibilidade ao clube, hoje ninguém sequer chega próximo do valor da “marca Corinthians”.

O desafio está lançado ao Santa, se quiser continuar dançando a dança do mercado vai perder o bonde, até em Pernambuco o mercado dá sinais de preferir Sport e Náutico devido ao apelo elitista. Mas se quiser desafiar essa lógica e cobrar ingressos a preços acessíveis o Santa pode se beneficiar da repercussão midiática e poderá renegociar patrocínios e cotas de TV ( o impacto nas audiências seria nítido já que o jogo com muita torcida chama a atenção até de quem não torce por nenhum dos times). Isso aumentaria a receita do clube substancialmente, poderíamos formar times competitivos e dominar um nicho de mercado que todos os demais clubes esqueceram.

Só popularizar é claro que não resolve, mas é uma questão estratégica reposicionar a marca Santa Cruz. Isso não significa desprezar a elite que gosta de futebol, com preços baixos ela consumirá ainda mais o espetáculo. O torcedor do Santa tem a marca de não ter preconceito de classe, logo os torcedores corais endinheirados (eles existem e também são um grande mercado) vão se empolgar com a mobilização e consumir ainda mais avidamente a marca do clube e isso será um grande negócio.  

O Santa Cruz Futebol Clube não pode cair nessa armadilha que os clubes estão caindo em ceder 80% do estádio para a elite e apenas 20% ao povão, tem que fazer justamente o contrário.

É desafiando o mercado que conseguiremos entrar soberanamente nesse mesmo mercado.




Post dedicado ao amigo Walter Miro, um jornalista que discute o futebol para além de saber se foi ou não impedimento.